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26/FEVEREIRO/97
O DICIONÁRIO DO PROFESSOR
De A a Z, uma antologia das idéias de Mário Henrique Simonsen
Nada foi tão caro a Mário Henrique Simonsen, morto no início de fevereiro aos 61 anos, como uma sala de aula. Espírito renascentista na curiosidade e no conhecimento multivariado, ele era essencialmente um professor. "Ele era um professor nato", diz o economista Dionísio Carneiro, seu aluno na FGV do Rio de Janeiro. "Sempre demonstrou alegria genuína com a transmissão do conhecimento."
Os quase 200 artigos que Simonsen escreveu em EXAME foram uma espécie de lousa amplificada a partir da qual ele atingiu não dezenas, mas milhares de alunos. Vistos em retrospectiva, eles representam uma poderosa análise da moderna economia brasileira. Em muitos instantes, significaram também um foco de luz capaz de iluminar debates travados na escuridão. Nas páginas de EXAME, Simonsen repetidas vezes mostrou o quanto a inflação era alimentada pela indexação. Era uma evolução de uma idéia que ele expusera num livro de 1970: Inflação - Gradualismo X Tratamento de Choque.
Estava ali a tese de que a correção monetária, embora facilitasse o convívio com a alta crônica dos preços, abastecia cruelmente a inflação. Os economistas André Lara Resende e Pérsio Arida beberam nessa fonte para elaborar seu conceito de inflação inercial. "Ele percebeu o problema com clareza antes de todos", diz Arida. Como estudioso e acadêmico, Simonsen pagou o preço da vida longe do centro. "Se ele estivesse no ambiente americano de pesquisas, suas idéias teriam grande impacto no exterior", afirma José Scheinkman, o brasileiro que dirige o departamento de economia da Universidade de Chicago.
Nos artigos de EXAME (com trechos dos quais montamos este "dicionário"), Simonsen de certa forma voltou a ser o homem público que foi, com diferente intensidade e diferente duração, nos governos Castello Branco, Ernesto Geisel e João Figueiredo. Da importância que emprestava para seus artigos dão prova as várias vezes em que os ditou preso a um leito no hospital. Simonsen jamais aceitou escrever em bases regulares sobre economia para nenhuma outra publicação além de EXAME. Essa fidelidade encontrou ressonância no imenso respeito - e agora imensa saudade - que nossos leitores e nós dedicamos a Simonsen.
Absurdo
"O Brasil é o único país do mundo em que o governo oferece aos mais variados segmentos da sociedade proteção contra a moeda que ele próprio emite."
Julho, 1993
Abertura (I)
"A reforma de comércio de que o Brasil precisa exige é coragem, com alguma habilidade de manejo na transição. Em casos semelhantes, a direita e a esquerda costumam unir-se, alegando que o governo pretende sucatear a indústria nacional e entregá-la aos estrangeiros. Na realidade (...), sucateia-se aquilo que já era sucata."
Fevereiro, 1990
Abertura (II)
"Abrir uma economia ao comércio internacional mantendo uma taxa cambial supervalorizada pode custar uma catástrofe econômica, como atestam inúmeras experiências, a mais recente sendo a do México."
Março, 1995
Aposentadoria
"A essa altura o governo só tem uma alternativa válida: mostrar claramente à população que há um conflito de interesses entre os aposentados e o resto da sociedade. Não se trata de fomentar uma luta de classes, mas de revelar uma obviedade aritmética. Num sistema previdenciário que funciona em regime de caixa os aposentados nada recebem pela sua contribuição no passado, a qual já se transformou em pó. Recebem, isto sim, pelo que os ainda não aposentados contribuem para o sistema, que hoje funciona qual cadeia da felicidade. Pagar mais aos aposentados, portanto, significa tirar mais contribuições do resto da população."
Janeiro, 1992
Batalha diplomática
"Falta-nos o bom senso da gestão macroeconômica, no que tange à palavra do governo, à dívida interna e externa, à inflação e ao crédito público. Estamos, aliás, numa batalha diplomática com o Grupo dos Sete. Segundo as fontes de Brasília, enquanto marchamos no passo certo, os sete grandes marcham no passo errado. O problema é convencê-los de que a capital do mundo é Brasília."
Maio, 1991
Bestialógico
"Há 50 anos distribuíam-se prêmios a quem conseguisse reunir o máximo de tolices em frases curtas. Lembro-me de uma sentença lapidar: 'Os quatro evangelistas são três: Esaó e Jacu'. Durante muito tempo o debate econômico no Brasil foi pontilhado pelas afirmações de igual quilate bestialógico. Felizmente, o padrão cultural melhorou bastante em nossos meios de comunicação e, atualmente, há apreciável nível de racionalidade em nossas discussões econômicas. Mas, de vez em quando, ocorrem algumas recaídas."
Agosto, 1994
Bulhões
"Um dos homens públicos mais eminentes de toda a nossa História. Conheci o doutor Bulhões em 1958. (...) Na época, eu era um engenheiro recém-formado de 23 anos, com especialização em engenharia econômica e, modéstia à parte, uma bela bagagem matemática. Na minha arrogância juvenil, estava convencido de que a solução de todos os problemas brasileiros seria providenciada pelos jovens economistas matemáticos, iniciados em técnicas desconhecidas pela velha geração, como a pesquisa operacional, a econometria e a cibernética. (...) A finura da personalidade de Bulhões conquistou-me de imediato, mas foi preciso algum tempo para que eu entendesse sua superioridade como economista."
Outubro, 1990
Congresso (I)
"O Congresso não é solidário com o presidente Fernando Henrique Cardoso nem com o Plano Real. Num primeiro impulso, tem-se a vontade de qualificar a maioria dos congressistas como um bando de irresponsáveis. Mas um mínimo de reflexão nos obriga a recuar. Afinal, as mesmas urnas elegeram tanto FHC quanto os atuais congressistas. O diagnóstico correto é que a democracia brasileira experimenta uma transição dialética, fruto do caos criado pela Constituição de 1988."
Abril, 1995
Congresso (II)
"Um mínimo de lógica exige que quem se elege com os votos de uma legenda fique obrigado a respeitar suas diretrizes e orientações. Isso para não falar de maiores avanços, como a adoção do voto distrital misto. O problema é que nos encontramos em posição semelhante à dos ratos assustados da fábula de La Fontaine: quem coloca o guizo no gato? A desejada reforma política depende de emenda constitucional que só o Congresso pode aprovar. E por que cargas d'água irão os parlamentares abrir mão do atual sistema que lhes dá tantas prerrogativas com tão poucas responsabilidades?"
Abril, 1995
Controle de preços
"Os defeitos do controle de preços são conhecidos: podem provocar o desabastecimento dos mercados excitando o consumo e desestimulando a produção, aumentam a burocracia e o potencial de corrupção e, no mínimo, cartelizam os oligopólios."
Julho, 1994
Corrupção
"A indignação nacional contra a corrupção é fundamental para que cesse o maior estímulo ao crime, a impunidade. Mas punir não é o bastante. É preciso indagar por que a roubalheira no setor público chegou ao nível atual, certamente muito acima de qualquer paralelo histórico. A resposta se encontra num velho provérbio: a ocasião faz o ladrão. (...) Estamos na situação do indivíduo que vai à praia com um relógio de ouro, deixa-o no bolso de uma camisa esticada na areia enquanto dá um mergulho e se desespera, na volta, por ter sido roubado. Numa palavra, a corrupção no Brasil não é apenas resultado da impunidade e da dissolução dos valores morais, mas das tentações criadas pela própria organização do Estado."
Novembro, 1993
Crédito
"A situação de um país sem crédito assemelha-se à de um indivíduo que só consegue hospedar-se em um hotel se pagar as despesas por antecipação. Infelizmente, essa é a situação a que descemos na década de 80, culminando com as travessuras do Plano Collor."
Maio, 1991
Crescimento
"O crescimento econômico é um processo de destruição criadora, como já lembrava Joseph Schumpeter em 1913. Novos produtos e técnicas de produção desbancam os antigos, e o que é a última palavra em termos de modernidade em determinada época pode transformar-se em modelo de obsoletismo alguns anos depois. Isso significa que o progresso tecnológico cria seu coeficiente de desperdício, via depreciação acelerada dos antigos investimentos. A única maneira de evitá-lo é incorrer no custo ainda maior do obscurantismo - a recusa do progresso tecnológico. Imagine-se o que seria a humanidade se os governos do século passado tivessem resolvido proteger os fabricantes de velas contra a concorrência da lâmpada elétrica."
Março, 1990
Cubão
"Na década de 60, em plena Guerra Fria, os Estados Unidos tinham todas as razões para temer nossa adesão ao bloco soviético. Hoje, se quisermos soberanamente nos transformar num Cubão, o mundo encolherá os ombros."
Setembro, 1992
Desemprego
"No século passado, a grande preocupação dos marxistas era o desemprego tecnológico, provocado pelas novas técnicas de produção que substituíam trabalho por capital. O milagre do século XX, como hoje se reconhece, é que essas novas técnicas permitiram que o indivíduo mediano consumisse muito mais trabalhando muito menos."
Outubro, 1992
Dívida
"Se dívida externa fosse motivo para inflação, o Chile não estaria crescendo de 5% a 6% ao ano com altas moderadas de preços. (...) E, se moratória fosse solução, o campeonato mundial de inflação não estaria sendo disputado entre a Nicarágua e o Peru."
Dezembro, 1988
Economistas
"O desencanto nacional com os economistas é o resultado de confiar a direção da política econômica a profissionais com deficiências de formação. Cérebros brilhantes, mas sem o mínimo de conhecimento de Direito, Psicologia, Administração de Empresas e, sobretudo, sem noção da dúvida cartesiana. São todos eles bem equipados para se tornar assessores do governo. Mas ascenderam a posições de comando antes dos indispensáveis cabelos brancos."
Abril, 1991
Educação
"Se o Brasil quer efetivamente ingressar no Primeiro Mundo, não basta combater a inflação, coibir os cartéis e abrir a economia ao exterior. É preciso, antes de tudo, investir em educação, treinando os recursos humanos necessários para operar a nova era industrial, e valorizar a mão-de-obra nacional. Justiça seja feita, o governo não investiu pouco em educação nos últimos 30 anos. (...) O que houve foi uma queda vertiginosa na qualidade do ensino, ressalvados certos centros de excelência."
Outubro, 1990
Emprego
"Em economia o objetivo da produção é satisfazer os consumidores, não gerar empregos. O trabalho, de fato, entra no passivo da equação da produção. Se fosse possível produzir sem fazer força, o único problema social seria distribuir o produto entre os indivíduos, tarefa que qualquer organização estatal cumpriria a contento. Diga-se, aliás, que esse conceito é tão idoso quanto Matusalém, pois Adão e Eva só foram obrigados a trabalhar depois que foram expulsos do paraíso, como ensina o Gênesis."
Outubro, 1992
Estabilidade (I)
"Um programa de estabilização, para ser bem-sucedido, precisa ser compreensível. Sua concepção tem de ser o encolhimento do Estado, em todas as suas dimensões. Por isso mesmo, deve respeitar os princípios de economia de mercado e, acima de tudo, respeitar o direito de propriedade."
Março, 1993
Estabilidade (II)
"É claro que todos devemos ser gratos ao Plano Real. Graças a ele saímos da inflação de quatro dígitos anuais, a qual projetava internacionalmente o Brasil como piada econômica. Mas daí a pensar que a nossa moeda é uma fortaleza inexpugnável vai muita pretensão. A estabilidade depende de uma reforma do Estado que o governo conduz com admirável eloqüência, mas discutível."
Setembro, 1995
Estado omisso
"O grande problema do Estado, no Brasil, não é o gigantismo, e sim o desbalanceamento. O Estado é omisso onde deve estar presente, mete-se onde não deve."
Setembro, 1994
Estados Unidos
"O que os Estados Unidos oferecem ao investidor internacional é a oportunidade de competir livremente numa economia com mais de 200 anos de tradição, de respeito às regras de mercado. Dentro dessas regras, os investidores podem até perder muito dinheiro, como aconteceu com os japoneses que compraram imóveis supervalorizados em 1985 a um dólar ainda mais supervalorizado. Só que os capitalistas aceitam os riscos de mercado, e por isso mesmo os japoneses continuam investindo nos Estados Unidos. O que não aceitariam é que o governo lhes seqüestrasse os ativos financeiros da noite para o dia."
Maio, 1991
FMI
"A ojeriza brasileira ao FMI é tão irracional quanto atribuir a cárie à cadeira do dentista."
Março, 1990
Friedman
"Curiosamente, toda a sua argumentação segue a linha keynesiana de pensamento, embora conclua que a intervenção do governo deva limitar-se ao controle da oferta de moeda pelo banco central. (...) Trata-se de uma regra de intervenção do Estado na criação de moeda. Mas, como a direita costuma aceitar que a emissão de moeda seja monopólio estatal e como Friedman postula que sua regra exclui qualquer outra forma necessária de intervenção do Estado na Economia, seu evangelho seduziu os crentes na eficiência incondicional do capitalismo puro."
Fevereiro, 1992
Fukuyama
"Num artigo que despertou grande polêmica, intitulado 'O Fim da História', Francis Fukuyama sustentou a tese de que as controvérsias sobre organização política e social se encerraram com o triunfo definitivo do liberalismo, depois do colapso do comunismo em 1989. Afirmações desse tipo sempre me fazem estremecer, lembrando o que disse lorde Kelvin há pouco mais de um século, depois de algumas descobertas notáveis da termodinâmica. 'Salvo pequenos detalhes, nada mais há a descobrir na física', disse lorde Kelvin, exatamente quando começava a gestação da teoria da relatividade e da mecânica quântica."
Novembro, 1991
Futebol (I)
"Uma das melhores soluções apresentadas consiste em reduzir o número de jogadores de cada time de 11 para 10. A prática do futebol-arte exige que os jogadores disponham de espaço para manobrar a bola. Acontece que, com os métodos modernos de preparação física, os campos oficiais tornaram-se pequenos para 11 jogadores. Basta ver como os jogos ficam mais bonitos quando o juiz expulsa um jogador de cada time. Uma solução alternativa seria aumentar os campos de futebol e manter os onze de cada lado, mas isso seria muito mais dispendioso."
Agosto, 1994
Futebol (II)
"O preceito filosófico de Nietzsche, segundo o qual os super-homens estão dispensados do cumprimento das leis por estarem acima do bem e do mal, não se coaduna com os princípios da democracia e do Estado de direito. Fica, por isso, o registro profundamente deplorável da passagem da delegação tetracampeã pela alfândega do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. A delegação deveria ter sido liberada imediatamente, ficando a bagagem retida para inspeção e posterior liberação, mediante pagamento do imposto devido, se fosse o caso. O que não se explica é a passagem 'no grito', possivelmente estimulada por algum telefonema do Palácio do Planalto."
Agosto, 1994
Gênios
"Há dias um amigo meu brindou-me com uma pérola: país feliz é aquele cuja população desconhece o nome do ministro da Fazenda. A reflexão, profundamente sábia, lembrou-me de um princípio que aprendi há 35 anos, quando finalizava o curso de Oficial da Reserva da Marinha. Dizia-se então, pelo menos no Cruzador Barroso, que a Marinha havia sido inventada por gênios para ser administrada por imbecis, exatamente o ideal de uma estrutura de organização. O Brasil, ao que parece, complicou-se no caminho oposto: precisamos de gênios para desenrolar uma organização tecida por imbecis. É hora de partir decididamente para a simplificação."
Abril, 1992
Hayek
"Um dos pilares da doutrina liberal de Friedrich A. Hayek, o grande pensador austríaco, é a suposição de que o planejamento econômico, em nível internacional, seja incompatível com a democracia. Isso porque o planejamento exige que o governo tome decisões as quais os representantes do povo não foram preparados para tomar. Como de hábito, Hayek exagera, pelo menos se interpretado ao pé da letra. A política industrial do Japão, orientada pelo Miti, é uma forma de planejamento econômico que vem sendo aplicada há decênios sem nenhum prejuízo à democracia japonesa. (...) Onde Hayek tem razão é que o regime democrático não resiste a excessos de intervenção estatal."
Abril, 1992
Heterodoxos (I)
"No caso dos heterodoxos, a maior ingenuidade foi imaginar que a febre pudesse ser curada pela quebra do termômetro, ou seja, supor que o congelamento de preços pudesse liquidar a inflação. Se isso fosse verdade, a inflação teria sido banida dos dicionários de economia desde os tempos do imperador Diocleciano."
Novembro, 1988
Heterodoxos (II)
"O mal dos planos heterodoxos é que eles tentaram o milagre de conseguir, num mesmo dia, a estabilização dos preços e a retomada do crescimento econômico. Acabaram não conseguindo nem uma coisa nem outra."
Janeiro, 1994
Inflação (I)
"A sutileza que se precisa compreender é que nenhuma economia consegue funcionar competitivamente num ambiente de altas taxas de inflação."
Março, 1992
Inflação (II)
"O problema da inflação brasileira é que ela se tornou tão complicada que só consegue entendê-la quem praticamente nada mais faz na vida."
Agosto, 1993
Insensatez
"É preciso não exagerar no furor desindexante. A idéia de proibir toda e qualquer forma de indexação, sob o pretexto de não reativar a memória inflacionária, é insensatez jacobina. A indexação que levou o Brasil à hiperinflação não foi a de contratos a longo prazo, mas a de salários, taxas de câmbio e ativos financeiros a curto prazo. E, por mais fé que se tenha no Plano Real, é ingenuidade querer passar uma borracha em nosso passado inflacionário: o povo brasileiro não sofre de amnésia."
Março, 1995
Inversão
"Sonegação fiscal existe em toda parte do mundo. Só que os sonegadores, quando apanhados em flagrante, vão para a cadeia, como ocorreu nos Estados Unidos com a bilionária dos hotéis Leona Helmsley. Aqui, sonegação chega a ser aplaudida em nome do desperdício dos impostos pelo Estado."
Março, 1990
Jatene
"Depois de nomeado ministro da Saúde, Jatene se arvorou em tributarista. Nesse campo, a sua competência é tão comprovada quanto a do secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, em matéria de cirurgias de pontes de safena. (...) O ministro Jatene pleiteia mais recursos para a saúde. Só que o mesmo argumento se aplica a todos os demais ministros. Em termos per capita o Brasil gasta pouco em saúde, como gasta pouco em educação, em apoio à agricultura, em ciência e tecnologia. Isso reflete apenas o fato de que a renda per capita do Brasil é baixa."
Agosto, 1995
Juros
"Por que então os juros são tão altos no Brasil? A resposta é simples: com moratórias, seqüestros, tablitas e vetores dos cinco choques heterodoxos, o governo arruinou o seu crédito."
Setembro, 1989
Keynes
"Sacudiu a análise econômica com uma mensagem absolutamente nova - a de que as forças de mercado funcionam eficientemente no nível microeconômico mas não garantem o pleno emprego. (...) Como todo eclético, Keynes despertou a ira dos radicais de esquerda e de direita."
Fevereiro, 1992
Lacerda
"O mais temível tribuno que o Brasil conheceu no pós-guerra. (...) Mau economista, mas grande artista."
Outubro, 1990
Língua ambígua
"Um problema sério é que o português falado no Brasil está se transformando numa língua sintaticamente ambígua, não apenas no âmbito das famílias mais pobres mas até das classes mais abastadas. É proverbial a história do turista brasileiro que alugou um carro em Portugal e perguntou a um transeunte: 'Esta estrada vai para a Espanha?' Ao que o espirituoso lusitano respondeu: 'Não sei, excelência, mas se for nos fará muita falta'. O português tinha toda a razão, pois uma estrada não vai para lugar nenhum, quem vai é o automóvel. O turista não teria sofrido a gozação se não comesse preposições e perguntasse: 'Por esta estrada se vai à Espanha?' "
Outubro, 1990
Lua-de-mel
"Temos de voltar a mudar o sinal do saldo comercial (...). Sem dúvida, temos capacidade produtiva para operar essa transformação (...). Mas isso exige uma visão do casamento além da lua-de-mel, ou seja, uma abordagem bem menos festiva sobre o que seja um programa de estabilização monetária, até agora apresentado à opinião pública brasileira como sendo um mar de rosas (...). A passagem para a estabilização costuma exigir uma transição recessiva, para que empresários e assalariados recondicionem seus reflexos, parando de reajustar preços e salários pela inflação passada. Ou seja, para usar o economês brasileiro da moda, desindexando os neurônios."
Março, 1995
Lula
"O problema de Lula é que sua formação escolar é limitada, suas idéias econômicas são primitivas e sua experiência administrativa, inexistente. E os quadros do PT, embora reúnam intelectuais responsáveis, são paupérrimos em economia e administração pública."
Setembro, 1994
Matemática na escola
"O ensino de matemática requer cuidados especiais. É um absurdo tentar iniciá-lo pela teoria dos conjuntos, que os matemáticos só desenvolveram na segunda metade do século passado. Para uma criança de 10 anos, o conjunto vazio é uma abstração sem o mínimo sentido prático. O caminho natural é o da evolução histórica do conhecimento, começando pelas quatro operações e pelas noções de geometria, sempre ligadas à resolução de problemas práticos cotidianos."
Outubro, 1990
Milagres
"Não há milagre nem em física nem em economia, e a fatura do Carnaval tem de ser paga na Quarta-feira de Cinzas."
Março, 1995
Moeda aviltada
"O governo, até a recente introdução do real, de tal forma aviltou a moeda que emitia que os falsários desistiram de imprimir cruzados, cruzeiros ou cruzeiros reais, pois o crime não compensava nem nas mais amplas condições de impunidade."
Novembro, 1994
Monarquia
"O rei é a alternativa entre o presidente emasculado e o ditador potencial. O que se exige do rei é que ele represente com dignidade o Estado. Seus poderes, evidentemente, devem ser limitados como em qualquer monarquia moderna. E o soberano deve ser o guardião dos símbolos e das tradições nacionais. A vantagem é que, para desempenhar essa função, o rei não precisa disputar verbas eleitorais nem se comprometer com sindicatos ou grupos econômicos."
Janeiro, 1993
Nação moderna
"Uma nação moderna procura alcançar seus objetivos percorrendo o caminho mais curto entre dois pontos, e não voando de São Paulo para Tóquio, com escalas em Lisboa e Buenos Aires. A palavra-chave, produtividade, corresponde à lei do mínimo esforço."
Fevereiro, 1990
Nem lá nem cá
"O Brasil não é hoje nem uma economia capitalista nem socialista. É a economia do susto, na qual meia dúzia de iluminados muda as regras do jogo de um momento para o outro, mas com uma tendência sistemática: o poupador merece ser punido. Mais ainda, com uma regra de política tributária: quem se opuser ao arbítrio do Executivo sofrerá devassa fiscal. Regra devassa, pois afinal todo suspeito de sonegação merece ser fiscalizado. E que insinua uma postura ainda mais devassa: quem elogiar o governo não precisará pagar impostos."
Março, 1991
Opinião
"Para a maioria da opinião pública, bom governo é o que resolve brilhantemente os problemas fáceis, não o que encaminha boas soluções para os problemas difíceis."
Março, 1992
Paradoxo
"Como compreender que numa economia capitalista os empresários peçam congelamento e o governo se recuse a implantá-lo? A situação lembra a do marido sádico e da mulher masoquista: ela pedia histericamente para apanhar, ele cruelmente se recusava a bater. A distorção de comportamento é o resultado da expectativa de choque, que leva as empresas a aumentar preços ainda que à custa da queda de vendas e lucros. Decretado o choque, as empresas desovarão os estoques ao preço que lhes convier e realizarão os lucros. Meses depois, começará tudo de novo."
Novembro, 1991
Parlamentarismo
"O principal mérito do regime parlamentar é que, ao dissociar a figura do chefe de Estado da do chefe de governo, torna possível uma condição ideal: a de que o governo dure enquanto for bom, substituindo-se sem traumas no momento em que deixar de bem servir. (...) No Brasil, parlamentarismo com eleição direta para presidente é a certeza da repetição da década de 60, quando o plebiscito de 1963 determinou o retorno do presidencialismo."
Janeiro, 1993
Plano Collor
"O Plano Collor, como se sabe, foi obra de meia dúzia de economistas extremamente leais e dedicados, mas de um idealismo infenso à dúvida cartesiana, e absolutamente opacos em matéria de noções elementares de Direito. O plano deu com os burros n'água por se esquecer de dois requisitos fundamentais para o funcionamento de uma economia de mercado: a importância do crédito público e a relativa estabilidade das regras do jogo. Constatado o fracasso dos fins, era inevitável a contestação da constitucionalidade dos meios."
Junho, 1991
Plano FHC-2
"A principal virtude do plano FHC-2 é ter sido feito à imagem e semelhança de seus autores: é um plano civilizado, sem tablitas, congelamentos, confiscos ou outras manifestações de hidrofobia."
Dezembro, 1993
Plano Real
"A despeito de seus efeitos e imperfeições, o plano recém-lançado é o melhor de todos os que o antecederam."
Março, 1994
Planos
"É inútil pensar em novos coelhos saindo da cartola, com congelamentos de preços, prefixação etc. O melhor plano para o Brasil é comprometer-se a não mais fazer planos por dez anos."
Janeiro, 1991
Potencialidades
"Ninguém ignora as potencialidades do Brasil. Mas, se potencial significasse prosperidade, a Índia seria o Japão."
Maio, 1991
Pragmatismo
"Economia é assunto que precisa ser abordado por líderes pragmáticos, imbuídos de preceitos éticos, mas nunca fanatizados por ideologias."
Fevereiro, 1992
Presidencialismo
"No Brasil, não é democracia, mas uma ditadura de prazo determinado. (...) Só deu certo com presidentes militares. Como a democracia não pode reservar a presidência para os generais, conclui-se que no Brasil ela não é compatível com o presidencialismo."
Janeiro, 1993
Primeiro Mundo
"Para ingressar no Primeiro Mundo, o Brasil precisa compreender um ponto fundamental: o que mais distingue um país desenvolvido de um subdesenvolvido não são seus recursos naturais, nem mesmo a qualidade de suas elites, mas a solidez e a eficiência de suas instituições. (...) Sistema eficiente é aquele que corrige automaticamente os erros humanos e por isso mesmo dispensa homens providenciais. (...) No Brasil, a opinião pública cobra dos governantes medidas providenciais, particularmente de dois deles - o presidente da República e seu ministro da Economia."
Março, 1992
Privatização
"A urgência da privatização resulta de uma equação financeira na qual o único ingrediente ideológico é a aceitação da propriedade privada dos meios de produção, próxima da unanimidade depois da derrubada do Muro de Berlim e do colapso do império soviético. Para recuperar o seu crédito, o governo brasileiro deve passar um período pagando taxas de juros elevadas, até que a lembrança dos calotes se dissipe da memória dos agentes econômicos. Nesse período, o ideal é que a dívida seja a menor possível. É isso, de resto, o que se recomenda a qualquer devedor sujeito a juros altos com um vasto portfólio de ativos. A comparação relevante é entre a economia de juros e o que o governo deixa de receber de dividendos pela privatização. Em qualquer dos casos já testados, a comparação é francamente favorável à venda das estatais."
Novembro, 1989
Proer (I)
"Se o Banco Central subitamente fecha as portas de uma instituição financeira cuja boa saúde atestava até a véspera, quem garante que outros bancos aparentemente sólidos não estão fadados ao mesmo destino? (...) A criação do Proer e a administração do caso Nacional-Unibanco são o resultado de idéias claras. Falta apenas explicá-las melhor."
Dezembro, 1995
Proer (II)
"É necessário pôr ordem nas estimativas sobre quanto custará o saneamento do sistema financeiro aos cofres públicos, já que a chutometria em circulação segue a lógica do samba do crioulo doido. (...) O ministro Pedro Malan foi a única autoridade que, até agora, deu a resposta correta: esse custo só será conhecido quando se realizarem todos os ativos do Banco Nacional (...). Infelizmente a declaração do ministro não inspira manchetes sensacionalistas."
Dezembro, 1995
Reaganomics
"Se Keynes estivesse vivo, talvez desse uma grande gargalhada."
Fevereiro, 1992
Receita
"Em matéria de política fiscal, o Brasil precisa, inicialmente, de grande reestruturação capaz de liquidar o déficit público. Para isso é necessário adotar medidas de efetiva austeridade, e não apenas símbolos cosméticos. Não basta aumentar a receita: é preciso cortar o pessoal supérfluo, sem o que nenhum programa de ajustamento conseguirá o mínimo de credibilidade. Também é essencial aumentar o nível de eqüidade do sistema de tributação. Só que, para tanto, o objetivo deve ser enriquecer os pobres, e não afugentar os ricos - pois, no mundo moderno, o capital migra com muito mais velocidade do que a mão-de-obra."
Agosto, 1989
Reformas
"É bom não esperar milagres das reformas constitucionais propostas pelo governo Fernando Henrique Cardoso. As reformas da ordem econômica, aprovadas em 1995, são importantíssimas para ampliar o programa de privatização, mas não liberam saldos fiscais. A reforma tributária, por enquanto, não passa de um título à busca de um enredo. Ela pouco pode colaborar para a formação de poupanças, já que não há espaço para aumentar a carga tributária bruta, que já alcança 31% do PIB. A reforma da Previdência é apenas uma reforma defensiva. Ela não substitui o regime de repartição pelo de capitalização, como a que se fez no Chile, mas apenas tira o regime existente da rota da insolvência. Mais promissora é a reforma administrativa. Em suma, estamos muito longe de elevar a poupança interna ao ponto de podermos crescer sustentadamente 7% ao ano."
Janeiro, 1996
Salários
"Os sindicatos precisam aprender que aumentos de salários repassados aos preços são um jogo de soma zero, em que se aumentam os ganhos nominais sem nenhum acréscimo do salário real. E que tentativa de elevar o salário real além do acréscimo de produtividade leva fatalmente ao desemprego."
Dezembro, 1989
Soberania
"É preciso sepultar a superstição infantil de que a aceitação das regras internacionais de negociação agride a nossa soberania. Que somos soberanos, é assunto que se decidiu em 7 de setembro de 1822. Só que do outro lado da mesa também estão interlocutores soberanos. Isto posto, ou se chega a um acordo, ou nos isolamos do resto do mundo cantando o Hino Nacional. Nesse sentido, nosso poder de fogo é limitado, mas podemos usar a força da lógica."
Março, 1990
Sociólogos
"Se os sociólogos de esquerda impuserem a opinião de que a pobreza justifica a marginalidade, a precipitação será semelhante ao esvaziamento do Rio de Janeiro. Com medo dos marginais fogem os turistas, os capitalistas e todos os que poderiam gerar empregos para aqueles que foram lançados na marginalidade."
Outubro, 1991
Tempos de inflação
"Calcule-se quanto se gastou, em percentagem do PIB, discutindo-se macroeconomia tupiniquim, inflação inercial, tablitas, congelamento de ativos financeiros, preços etc. (...) O grosso da discussão ocupou os diretores das companhias não-financeiras, que na época gastaram rios de dinheiro contratando consultores econômicos e dedicando o tempo que poderiam destinar à melhoria da produtividade das suas empresas a debates estratosféricos. Tudo isso sem falar no tempo dedicado à leitura dos jornais e de opiniões de consultores econômicos. É possível que de 20% a 25% do PIB tenha sido desperdiçado nessa brincadeira, o que explica o nosso mergulho na estagflação."
Dezembro, 1991
Tortura refinada
"Se o governo quer aumentar a arrecadação fiscal, não basta pôr meia dúzia de sonegadores na cadeia. É preciso também simplificar a vida do contribuinte, minimizando a burocracia necessária para calcular e pagar impostos - e até para facilitar a fiscalização. Nesse sentido, a declaração de ajuste do imposto de renda da pessoa física com mais de uma fonte pagadora é um dos mais refinados instrumentos de tortura inventados pela Secretaria da Receita Federal."
Maio, 1990
URV
"A URV foi inventada como uma espécie de noivado, instituição hoje fora de moda, mas muito respeitada em meus tempos de juventude. Era o período em que os namorados, transformados em promitentes esponsais, se encontravam em liberdade vigiada na casa dos pais da noiva e adjacências para se habituar à futura vida matrimonial e, em particular, amortecer o choque da noite de núpcias. Ou, para usar uma analogia mecânica, conseguir o que fazem as curvas de transição nas estradas, as quais evitam que o passageiro sofra brusca variação da força centrífuga quando entra ou sai de uma curva."
Abril, 1994
Zélia, Collor e Marcílio
"O início do governo Collor foi devastador, e por boa razão: o presidente encantou-se com as teorias de um pequeno grupo de economistas de passado marxista, dando-lhes carta branca para que construíssem a seu modo o novo capitalismo brasileiro. Partiram daí para a aplicação da primeira lição prática de marxismo, o calote oficial. (...) Com a nomeação de Marcílio Marques Moreira em substituição a Zélia Cardoso de Mello, Collor tentou livrar-se da contradição econômica de seu projeto."
MEMÓRIAS DO PROFESSOR
Histórias do ex-ministro Mário Henrique Simonsen
Algumas vezes, nos encontros que jornalistas de EXAME tiveram com Simonsen, lhe foi feita a pergunta óbvia: por que não escrevia um relato de suas memórias? "Minha trajetória é extremamente desinteressante", respondia. A demonstração de que não se tratava de modéstia fingida é que jamais escreveu suas memórias. Preferiu divertir-se contando fragmentos de sua vida a pequenos grupos.
Amostras de lembranças suas recolhidas nos últimos anos por nosso chefe no Rio de Janeiro, Lauro Jardim:
Sobre o presidente Ernesto Geisel. (Geisel, de quem foi ministro do Planejamento, foi provavelmente o homem que Simonsen mais respeitou em sua vida.) "Ele imprimia um tom de voz muito alto. Muitas vezes gritava. E eu gritava de volta. Ele só discutia assim. Parecia uma ópera."
Sobre os tempos em que, ministro de Geisel, seus telefones eram grampeados pelo SNI, chefiado então pelo futuro presidente João Figueiredo. "No primeiro sinal de um barulho estranho na linha, eu pegava o bocal do telefone e, bem de perto, escandindo as sílabas, dizia: 'Figueiredo, filho da p...'. Tempos depois, numa solenidade no Planalto, o Figueiredo me pegou pelo braço e me pediu: 'Pára de falar aquelas coisas pelo telefone. Não é nem por mim, não. Mas é que quem ouve são os sargentos'."
Sobre ser ministro. "A vida de um ministro da Economia é 10% destinada ao trabalho técnico e 90% destinada a impedir que os outros destruam esse trabalho."
Sobre os cigarros, que calculava ter fumado 800 000 e que estariam na origem do câncer e do enfisema que o mataram. "Sinto falta de tê-lo nas mãos." (Em janeiro de 1996, Simonsen participou de uma reunião do conselho de administração da Souza Cruz, do qual era integrante fazia 25 anos. Saiu de lá com um maço de Free escondido no bolso do paletó. Alguém notou. Respondeu Simonsen: "Que é isso? Estamos numa companhia de cigarros, não vamos fazer propaganda contra".)
Sobre seus pendores musicais. "Às vezes me pergunto por que não transformei minha aptidão musical em profissão. Provavelmente porque nasci e morei no Brasil. Se tivesse nascido em Viena, é possível que minha história fosse diferente." (Quando escrevia em casa, Simonsen tinha o hábito de pôr óperas para tocar em volume altíssimo.)
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