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O PLENO EMPREGO E A INFLAÇÃO - Eugenio Gudin (13-9-68)
Entre um combate radical à inflação e o desejo de promover a euforia econômica e incrementar a taxa de desenvolvimento,
a opção do atual Governo foi clara. Optou pela segunda solução. Desde o segundo
trimestre de 1967 foram tomadas as providências para estimular a atividade econômica em todos os setores,
com resultados incontestavelmente satisfatórios. A produção tem aumentado tanto no
setor industrial como no setor agrícola, onde o maior suprimento de crédito ajudou as condições favoráveis do tempo a produzir
boas safras.
O fato de o Governo optar pela segunda opção não quer dizer que ele descure da inflação, mas, como não é possível atingir
simultaneamente os objetivos em parte contraditórios, a verdade é que, de um modo geral, a diátese inflacionária persiste.
Se eu fosse governo (o que para a felicidade geral da Nação não é o caso) teria adotado a outra opção. É de certa
forma uma vergonha para os governos da Revolução, em seu conjunto, não terem ao
fim de 4 anos eliminado a inflação. Mas não é por defesa dos brios da Revolução que eu optaria pelo combate a
Inflação e sim porque sua excessiva persistência exerce um efeito de perigosa
erosão não só sobre o Sistema Econômico, como sobre a Conjuntura Social e Política do país.
A inflação é o tormento permanente de mal-estar e das queixas dos consumidores (pelo Brasil afora) contra a alta irritante
e repetida dos preços; são as constantes solicitações, fundamentadas ou não, de
aumento dos salários; é o impacto repetido e desmoralizante das altas do dólar; é o clamor contra o déficit
orçamentário; é a distorção dos investimentos; é o desvio da poupança para as "letras
financeiras" de taxa tentadora (porque não separam a correção monetária) em vez do
investimento em ações; são as aparentes injustiças resultantes da incidência desigual da inflação sobre as várias classes
sociais; são as intervenções do Governo no sentido de "reprimir" seus efeitos;
é a erosão do capital de giro das empresas etc. É difícil obrigar o público a suportar esse
estado de coisas anos a fio.
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Já tenho mais de uma vez procurado esclarecer que o combate à inflação não exige medidas que promovam a depressão
econômica. Porque não há inflação quando a demanda monetária corresponde aos fatores de
produção disponíveis - equipamento e mão-de-obra. Ela resulta é de uma "demanda superior" à
quantidade desses fatores, que dá lugar à disputa para obtê-los, ao leilão, digamos, desses fatores.
Grosso modo, é assim. Mas há um detalhe muito importante a considerar. É que não é possível chegar a 'um total
aproveitamento dos fatores de produção', sem inflação. Uma 'taxa mínima de desemprego' e
de capacidade ociosa é indispensável no combate a inflação. A começar porque há em todos os países uma
'taxa de desemprego normal', resultante não só dos empregados que estão transferindo
de uma para outra ocupação, como porque a 'qualidade' ou 'espécie' do trabalho
oferecido não coincide com a do trabalho procurado. Pode haver uma grande procura por mecânicos, eletricistas e contabilistas,
que permanece insatisfeita por falta de oferta, como pode haver excesso de disponibilidade de mão-de-obra despreparada, para a
qual não há procura.
Nos Estados Unidos, a experiência tem demonstrado que quando se procura reduzir a taxa de desemprego a menos de 3,5%
os efeitos inflacionários logo se manifestaram. Não sei qual seria essa taxa entre
nós, mas acredito que seja mais elevada, devido ao grande excesso da oferta, em relação à procura, de
trabalho manual elementar.
O mesmo se aplica ao equipamento e maquinaria, sobretudo nos setores de infra-estrutura, como ferrovias, água, instalações
hidrelétricas, fornos siderúrgicos etc., onde uma certa margem de capacidade ociosa é inevitável, devido ao tamanho das
unidades. De outro lado, a elasticidade da procura dos diferentes produtos não é a
mesma; o aumento de disponibilidades monetárias não incide "uniformemente" sobre a demanda; em certos setores
essa demanda aumenta mais do que proporcionalmente e em outros menos do que em proporção, ou mesmo nada.
Não se pode ajustar a oferta e a procura de fatores de produção de modo a atingir ao pleno emprego integral, como um
carpinteiro ajusta os dois lados de uma porta ou uma gaveta. No sistema econômico, a linha
de ajuste é irregular; os dois lados da porta se afastam em certos pontos de 4%, 5% ou 10%,
enquanto em outros eles se tocam.
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Situação semelhante encontra-se na Política Salarial. Porque a melhoria da produtividade não é uniforme. Nas indústrias
onde o progresso tecnológico é mais pronunciado, pode a taxa de produtividade aumentar de 5% ou até de 10% em um ano, o que dá margem
para um aumento salarial correspondente. Mas é muito possível que nas indústrias de
produtos alimentícios, ou de tecelagem, por exemplo, a melhoria da produtividade tenha sido muito mais baixa; uma
percentagem uniforme de incrementos salariais resulta então em aumento de custos
e preços nestes setores. Em França, por exemplo, a produtividade média da indústria aumentou de 100 em 1958 para 134 em 1965;
os salários foram aumentados nesse período de 25% em termos reais, "inclusive nas
indústrias de alimentação" onde a melhoria da produtividade não foi além de 119. Os preços desses produtos subiram no período
de 100 para 120.
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Contra um combate mais radical da inflação, há um argumento triste sentido mas infelizmente de bastante realidade.
É o da interrogação que um governo faz a si próprio sobre a validade ou inutilidade de seu esforço deflacionário, isto é, receio
de que esse esforço venha a ser perdido, porque o próximo governo voltará a inflacionar.
Por mais "realista" porém que possa ser esse argumento de pessimismo e descrença, ele não deve ser acolhido. Nenhum
homem de governo, verdadeiramente responsável, pode aceitá-lo. Quando mais não
fosse porque o Brasil espera que cada um cumpra o seu dever.
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