Pensadores Brasileiros       

Artigos de Eugênio Gudin

Período de 27/11/67 a 16/5/1977
(excluída a tese de 1947 e algumas entrevistas)
Total: 15 artigos
 

Livros sobre Eugênio Gudin no Submarino
- Princípios de Economia Monetária
- Reflexões e Comentários 1970-1978

Procure o livro dos seus pensadores favoritos no Submarino!
O sexto aniversário Eugênio Gudin O Globo

O social-capitalismo
Eugênio Gudin
O Globo, 10/4/72

Falando por ocasião do jantar comemorativo da Revista do Jornal do Brasil, referiu-se o Ministro Delfim Neto ao regime econômico predominante no Brasil em termos muito felizes dizendo:

"O que está acontecendo realmente com o Brasil é que ele finalmente perdeu a vergonha (podia alternativamente ter dito perdeu a covardia) de ser um país capitalista. A partir do momento em que o país passou a assumir essa condição, as coisas começaram a marchar muito mais naturalmente e melhor"

É que, por um misto de ignorância e de covardia, a palavra capitalismo passou a ter uma conotação sinonímica de regime retrógrado, desumano, perverso. Não se indagava da origem da expressão nem de seu significado original. A expressão capitalismo foi impropriamente cunhada por Marx, seu maior inimigo. Como se no regime que tem esse nome o fator capital fosse o elemento predominante, quando, como sabe qualquer economista, o rendimento oriundo do trabalho entra por cerca de 65% no produto e o capital por cerca de 10%. Mais ainda, o capitalismo que Marx invectivava era muitíssimo diverso do que hoje se entende pelo mesmo nome. Era de fato um regime desumano em que o proletariado era quase escravo, em que mulheres e crianças trabalhavam 10 e mais horas por dia, em que não havia sombra de legislação social nem imposto de renda apreciável. Hoje ninguém, por mais direita que seja, deixará de abominar semelhante regime.

O capitalismo de hoje, com suas classes operárias organizadas, dignificadas e participantes, é coisa inteiramente diferente. É o que poderia chamar de social-capitalismo.

As previsões de Marx, que eram simples extrapolações do que acontecia no seu tempo, foram inteiramente desmentidas. Em vez do empobrecimento das massas nos países capitalistas, verificou-se uma melhoria de padrão de vida, sem paralelo na história. Por isso é que na Conferência Internacional de Brissago, em 1961, eu tive ocasião de dizer ao professor soviético que dela participava, que eu só conhecia uma ditadura do proletariado, a dos Estados Unidos, e uma escravidão do proletariado a da Rússia. Basta dizer que nos EUA a melhoria de produtividade – e às vezes mais – é totalmente absorvida pelos aumentos dos salários. Em vez da quase subnutrição e do mínimo biossocial previsto por Marx na sua teoria da mais valia, o que se vê nos EUA é o operário dono de automóvel.

Não faz mal repetir os algarismos que tantas vezes tenho citado da evolução da remuneração do capital na primeira metade deste século nos Estados Unidos, país conhecido como a fortaleza do capitalismo:

Quadro Demonstrativo da Participação % no PIB dos EUA

 Anos  Trabalho  Capital
 1900 - 1918  57,0  19,6
 1919 - 1928  62,4  19,0
 1929 - 1938  65,6  19,2
 1940  63,9  14,0
 1950  64,3  9,8
 1955  68,8  9,9

Quadro Demonstrativo das Horas Semanais Trabalhadas e Ganho Real (1899-1900 base 100)

 Anos  Horas Semanais  Remuneração Real %
 1889 - 1890  60,0  90
 1899 - 1900  59,0  100
 1909 - 1910  56,6  116
 1919 - 1920  47,4  113
 1929 - 1930  42,1  134
 1939 - 1940  38,1  192
 1949 - 1950  40,5  248
 1955  40,7  286

Esses números provam mais do que quaisquer argumentos ou discursos.

O que há é uma grande covardia diante da moda de se dizer esquerdista, possuidor de idéias avançadas (conquanto indefinidas) e de sentimentos humanos.

Dessa espécie de esquerdistas ou progressistas é que disse George Bernanos, com muita propriedade:
"Os católicos de esquerda ou de extrema esquerda sempre me deram a impressão de uma retaguarda de caudatários da tribo marxista em marcha para a terra prometida", acrescentando: "Parece que já não há outra maneira de amar os pobres senão a de ser marxista."

O nosso atual regime sócio-econômico, que propus designar por social-capitalismo, a saber, adoção de processos capitalistas para atingir objetivos sociais, desenha-se bem nas várias instituições como INPS. FGTS, PIS, siglas já bem conhecidas.

Importa contudo não perder de vista que o sistema capitalista, da iniciativa privada, deve ter o lucro como incentivo ou melhor, como isca. Porque como escreveu o grande scholar J. Viner:
"Se porém a estrutura do sistema tributário é tal que o empresário tem que suportar todos os prejuízos que ocorram, só tendo direito a uma parte mínima dos lucros, se houver, ele dará então preferência a aplicações de renda fixa e não assumirá o risco das iniciativas que promovem o progresso econômico do País."

Sobre a eficiência dos processos capitalistas, comparados com os que clamam por melhor distributivismo, escreveu o Professor Robert Solow:
"Se compararmos dois regimes econômicos, um baseado na livre iniciativa e incentivo de lucro com taxa de progresso de 4% ao ano, digamos, e o outro de melhor distribuição de renda, com uma taxa de 2%, veremos, ao fim de alguns anos, que os pobres do primeiro sistema são mais ricos do que os remediados do segundo."

E o Professor Dewhurst observou que:
"De todas as grandes nações industriais, a que mais se tem apegado ao capitalismo privado é a que mais se aproximou do ideal socialista de prover a abundância em uma sociedade sem classes."

Q.E.D.

</TD></TR></TBODY></TABLE></TD></TR></TBODY></TABLE></TD></TR></TBODY></TABLE><!-- Barra divisória em 3D --> <TABLE cellSpacing=0 cellPadding=0 width="100%" border=0> <TBODY> <TR> <TD bgColor=#b0e6ed height=1><IMG height=1 alt="" src="../spacer.gif" width=1></TD></TR> <TR> <TD bgColor=#0000ff height=8><IMG height=8 alt="" src="../spacer.gif" width=1></TD></TR> <TR> <TD bgColor=#000000 height=1><IMG height=1 alt="" src="../spacer.gif" width=1></TD></TR></TBODY></TABLE> <P align=center>Compilado em 21/10/2001<br />Fonte:  <a href="http://www.rberga.hpg.ig.com.br/">Página do Professor Ricardo Bergamini</a> <P align=center><FONT size=2><a href="../">Voltar à página inicial</a></FONT></P> </body> </html>