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O sexto aniversário Eugênio Gudin O Globo
TRAÇO COMUM AO MARXISMO E À IGREJA
20/5/68
Se há traço comum aos processos da Igreja e do Marxismo, esse é, sem dúvida, o de criticar, censurar, invectivar, 'sem
jamais indicar a solução construtiva'.
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Marx foi um profeta de largos vôos pelo campo da evolução histórica social e política de cada país e do mundo inteiro. Sua
colaboração de muitos anos no"New York Daily Tribune" (depois "New York Herald
Tribune"), como sua extensa correspondência com Engels, estavam repletas de previsões detalhadas sobre as
futuras depressões, revoluções e guerras.
Mas de uma coisa ele sempre se absteve deliberadamente: descrever o funcionamento e a operação da economia socialista, tal
como ele a concebia. Não há em sua alentada produção uma página sequer sobre como
funcionaria a formação de preços em regime socialista. A direção da economia na Rússia Soviética tem
sido seriamente dificultada pela ausência de uma teoria da repartição dos recursos, a
qual poderia ter-lhe sido suprida, ao menos parcialmente, pela tão desprezada economia burguesa.
A adesão doutrinária a determinados princípios da doutrina marxista, especialmente a recusa dogmática
de usar sistematicamente a taxa de juros nos cálculos econômicos, para assegura
uma repartição racional dos fatores escassos representados pelo capital, diminuiu a eficiência e reduziu a
produção soviética em relação ao que poderia ter sido ("BERGSON - The Economics
of Socialist Planning"). Tanto isso é verdade que os economistas soviéticos estão
agora fazendo entrar a taxa de juros em seus cálculos e planos, se bem que "mascarada e pela porta de serviço", como bem diz
Haberler. (Zeitschrift für Nationalokonomie" - 1966).
A obra de Marx é de 'Crítica' - crítica monumental pela extensão, amplitude e vigor - 'ao sistema capitalista'. Suas grandes
afirmações - ambas amplamente desmentidas pela experiência - de que nos países
capitalistas os salários reais demonstram uma tendência secular para o declínio e de que as depressões têm uma tendência secular
a se tornarem cada vez mais graves são obra de pura crítica. Em matéria de construção, quanto ao tipo de sociedade e de economia
que deveria
substituir a que ele batizou de "capitalismo", nem uma palavra.
* * *
A Igreja Católica, na fase atual de sua evolução também prima pela ausência de sugestões construtivas. "La Critique est
facile, l'art este difficile."
Nunca me esquecerei do discurso do Santo Padre Paulo VI, perante as Nações Unidas, no outono de 1965, o qual eu tive a fortuna
de ouvir diretamente em Nova York: "Pas de Guerre; Finie La Guerre; Jamais Plus de Guerre", era o "leit-motiv" da oração do Santo Padre,
que falava em francês. Mas a um amigo que estava a meu lado e que tem muito melhores
credenciais do que eu junto à Igreja eu dizia: "Pergunte, por favor, a Sua Santidade o que se deve fazer no caso de
um inimigo que invade o país da gente para ali implantar, pela força das armas,
um regime de escravidão e de sociedade anticristã". Deve deixá-lo fazer? Sem oposição? Sem resistência? Devem os países da Europa
Oriental, dominadores traidora e militarmente pela União Soviética, bater palmas
ao dominador?
* * *
O que é a "Populorum Progressio" senão uma constante afirmação de que a miséria é o produto do egoísmo e da maldade humana?
"Se 'a terra é fértil para suprir a cada um dos meios de sua subsistência' e os instrumentos de seu progresso, 'todo
homem tem, portanto, o direito de nela encontrar tudo', quanto lhe é necessário...
etc."
Está bem. Mas como suprir a cada um "os meios de subsistência e tudo quanto lhe é necessário" se a Produção dividida
pelo número, não raro explosivo, da pressão demográfica, é insuficiente para prover às
necessidades humanas? Mesmo se a Repartição do Produto fosse uniforme, caso em que desapareceria a poupança, base do investimento
e condição essencial ao progresso, isto é, à erradicação da miséria.
Iso a Encíclica não diz. Nem aflora a preliminar de saber se a pobreza é um problema de distribuição ou de produção.
Tampouco aborda a questão de controle de natalidade, como meio de reduzir o divisor que
esmaga.
Nem parece se dar conta de que o contraste entre o luxo exibicionista e a pobreza, por irritante que seja, é
um fenômeno de diminutas dimensões para que sua eliminação pudesse dar solução aos
problemas.
A tônica no "direito que a todos assiste" não é construtiva, se não se indicam os meios de tornar efetivo esse direito.
É um caso semelhante ao da moeda-papel, que eu propus chamar de 'Direitos de Haver' mercadorias ou serviços. Mas para que esse "direito
de haver" possa ser exercido é 'preciso que existam ditas mercadorias e serviços', isto é, que tenham sido produzidas.
Crítica sem base construtiva, venha de onde vier, da Igreja, do marxismo ou de alhures, é não só estéril como intelectualmente
desonesta.
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