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A descoberta do outro
[excerto]
Gustavo Corção
Uma tarde, na Rua do Ouvidor, uma velha caiu na minha frente. Ouvi o ruído surdo e impróprio duma rótula batendo no chão. Ajudei-a, vexado; ela levantou-se gemendo e olhando em volta com espanto: "Vejam só, tinha caído!" A rua toda pareceu-me subitamente parada e o tempo vencido por aquele encontro. Eu existia, eu era, com o testemunho da velha que me segurava no braço; entre nós se estabelecera um pacto que entraria pela eternidade. Mas a impressão foi logo destruída e a eternidade gastou-se em poucos segundos. O movimento da rua começou e a velha dobrou a esquina. Levava o seu segredo e o depoimento do meu; guardaria alguns dias uma mancha roxa no joelho; explicaria às filhas e às netas, com abundantes preceitos, como tinha caído, e na história confusa da velha eu estaria associado como um cavalheiro magro e vestido de brim. E quando a velha morresse levaria o último vestígio daquela cena desbotada; e depois ninguém mais saberia que naquela tarde nós dois nos tínhamos encontrado, eu e a velha.
In Corção, Gustavo. A descoberta do outro. Rio de Janeiro, AGIR, 2000, pág. 36-37.
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