Pensadores Brasileiros       

Artigos de Gustavo Corção

Período de 1953 a 30/3/78
(excluída a tese de 1947 e algumas entrevistas)
Total: 49 artigos
 

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A RESSURREIÇÃO 
Gustavo Corção 

No capítulo XV de sua primeira carta aos Coríntios, o apóstolo começa por recomendar que se mantenham firmes no Evangelho que transmitiu e que ele mesmo recebeu; e repete o que tantas vezes pregou: «que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Sagradas Escrituras; que foi sepultado, que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Sagradas Escrituras, que apareceu a Cefas, e logo após aos doze. Depois apareceu uma vez a mais de quinhentos, dos quais muitos ainda vivem, e finalmente a ele mesmo, aborto que não merecia ser chamado apóstolo por haver perseguido a Igreja de Deus». 

E daí, com veemência, começa o apóstolo a responder às dúvidas que parecem espalhadas na Igreja de Corinto por algum discípulo dos saduceus. Temos, nos versículos 12 e seguintes, a mais calorosa e patética pregação da ressurreição dos mortos: «Pois se de Cristo se prega que ressuscitou, como dizem alguns entre vós que não há a ressurreição dos mortos? Se não há a ressurreição dos mortos, então Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, vã é nossa pregação e vã é a vossa Fé. Seremos testemunhas falsas de Deus, porque contra Deus testemunhamos que Cristo ressuscitou, o que não seria verdade se não há ressurreição dos mortos. Porque, se os mortos não ressuscitam, Cristo não ressuscitou; e se Cristo não ressuscitou vã é vossa Fé e ainda estais em vossos pecados; e até os que morreram em Cristo pereceram. E se é só nas coisas desta vida que temos a esperança firmada em Cristo, somos os mais miseráveis de todos os homens!» (I Cor. XV, 12-19). 

Todo esse jogo de dúvidas das supostas é ardentemente desenvolvido por Paulo para concluir que as mais desgraçadas criaturas não são os homens que nunca ouviram o doce nome de Jesus e nunca ouviram as promessas de Deus. Não, os mais desgraçados dos homens são aqueles que receberam a palavra de Deus, que nela se alegraram e um dia, dando ouvidos às serpentes que andam no mundo, se acharam despidos, desarmados, despojados das esperanças do céu, como se tivessem sonhado e agora acordassem. Porque a vida, a vida presente, a vida conscientemente vivida reduz-se ao instante que medeia dois passos, toc, toc, ou entre duas pancadas do coração, tuc, tuc. Sonhamos a beatitude eterna na Terra dos Ressuscitados, onde o sol é a Glória de Deus, e acordamos, toc, toc, a caminho da morte. Então comamos, bebamos e coroemo-nos de rosas porque amanhã morreremos. Acaso algum sábio pretenderá criticar esta maneira de aproveitar o fugitivo presente? Então indique-nos outro que seja melhor, que seja mais nobre ou mais santo. Se Cristo não ressuscitou, se é vã a nossa fé, não há de ser ela mesma que nos poderá encher o fugaz presente marcado pelo metrônomo que é o coração. Se é vil enchê-lo de prazer, vão será enchê-lo de falsa sabedoria. Se Cristo não ressuscitou, se amanhã morreremos sem esperança de ressurreição, então a vida inteira se torna um pesadelo em que estamos perdidos, desamparados, sem sabermos o que fazer entre cada duas pancadas do coração. 

Que sentido terá então esta existência cuja consciência reprova e escarnece? Que sentido terá a vida desse monstro capaz de desejos tão altos, capaz de sentir o desejo da presença de Deus, ou na mais humilde das hipóteses, capaz de desejar esse desejo? 

E não é só no céu e depois da morte que colocamos a alegria de nossa esperança. Agora e aqui mesmo, entre um tuc e outro tuc do cansado coração queremos que nosso instante tenha dimensões de eternidade. Se Cristo não ressuscitou como Deus mesmo nos diz em Sua revelação, então tudo é vão e enganador, e nem podemos dizer que sonhamos e acordamos. Sonhamos e continuamos a sonhar. 

Mas o Apóstolo Paulo não era o que hoje se chama uma alma inquieta, ardente sim, mas ardente nas certezas da Fé, e só usou aqui o jogo das dúvidas para mostrar aos Coríntios que nessas vacilações nós nos tornamos os mais miseráveis dos homens. E por isso retoma logo o seu tom de apregoador do Absoluto: «Não. Cristo ressuscitou de entre os mortos como primícias dos que morrem. Porque, assim como por um só homem veio a morte, também por um só homem vem a ressurreição dos mortos. E já que em Adão todos morremos, em Cristo somos todos vivificados». 

E é a alegria exultante desta certeza que a Igreja canta na Festa das festas no ponto mais alto do ano litúrgico. O fruto desse júbilo litúrgico poderá ser o de acordar as almas preguiçosas que passam o ano inteiro vagamente alheias à esperança da ressurreição. Melhor fruto, porém, será o da confirmação enfática, festiva, daqueles que todos os dias vêem na missa a morte e ressurreição de Cristo, e em cada ato de sua vida põem uma ação de graças e uma confiança nas promessas de Deus. 

Os tempos turvados que vivemos são tempos de insolente confiança no homem, e portanto de desespero. Sim, é contra a Esperança que pecaram aqueles que se afastaram da Igreja e se entregaram de corpo e alma às preocupações temporais. Ainda que pareçam bem intencionados quando falam em direitos humanos, em terceiro mundo, em problemas sociais, logo se vê pelas infelizes soluções que escolhem a malícia do orgulho que se ergue contra Deus. 

Neste mundo, enquanto não ouvirmos a voz trovejante dizer: «Eis que faço novas todas as coisas», nossa bem-aventurança é a das lágrimas que choramos com saudades de Sião, nossa pátria verdadeira. 


“Ó tu, divino aposento, 
Minha pátria singular, 
Se só com te imaginar 
Tanto sobe o entendimento, 
Que fará, se em ti se achar 

Ditoso quem se partir 
Pera ti, terra excelente, 
Tão justo e tão penitente 
Que, depois de a ti subir 
Lá descanse eternamente.” 


O GLOBO Sábado, 21/4/73

Compilado em 3/11/2001
Fonte: Várias páginas na Internet
Principalmente a página Permanência

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