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O AMOR EXTERIORIZANTE E SEUS EFEITOS
Gustavo Corção
“Dois Amores – Duas Cidades, Agir, 1967, vol.II, 2ª parte, cap. IV”
1 - O conhecimento e o amor de Deus e das coisas
Para trazer mais uma contribuição ao problema do amor-próprio, e de sua influência cultural, devemos procurar na Teologia a solução para a seguinte pergunta aparentemente muito afastada da questão: por que será que Santo Tomás, depois de ensinar a superioridade da inteligência sobre a vontade, em princípio e na vida perfeita do céu, nos ensina depois que a perfeição cristã, neste mundo, consiste especialmente na Caridade, que é uma virtude da vontade, e não na Fé, ou no dom da sabedoria, ou na contemplação, que pertencem à ordem da inteligência? O texto seguinte, de capital importância para a vida cristã, tem também uma grande aplicação no problema que aqui nos interessa.
GARRIGOU-LAGRANGE: “A esta pergunta, Santo Tomás nos dá uma resposta das mais profundas e importantes para a teologia ascética e mística. Em substância nos diz o seguinte (Ia. , Qu . 82 , d. 3): ainda que uma faculdade seja, por sua própria natureza, superior a outra, como a vista para o ouvido, pode acontecer que um ato da segunda seja superior a um ato da primeira, como a audição de uma sinfonia é melhor do que a visão de um borrão colorido: assim também, embora superior por sua própria natureza (simpliciter), a inteligência é inferior à vontade, de um certo ponto de vista (secundum quid). Em relação a Deus, aqui neste mundo, o amor é melhor do que o conhecimento; em relação às coisas inferiores, porém, é melhor conhecer do que amar...
E de onde vem a superioridade do amor de Deus sobre o conhecimento e do conhecimento das coisas inferiores sobre o amor? Diz Santo Tomás no mesmo artigo da Suma, que vem do seguinte: a ação de nossa inteligência se faz pela representação, em nós, da realidade conhecida; a ação da nossa vontade, ao contrário, nos leva, nos compele para a coisa amada tal qual ela é em si. Por isso ensinou Aristóteles que o bem, objeto da vontade, está nas coisas, enquanto o vero, objeto da inteligência, está formalmente no espírito. Segue-se daí que para conhecer Deus, nós, de algum modo, o atraímos para nosso nível? E para representa-lo em nós temos de lhe impor o limite de nossas idéias bitoladas. Ao contrário, quando o amamos, nós nos compelimos, nos elevamos para Ele, tal como Ele é n’Ele mesmo. É melhor, portanto, amar a Deus do que conhecer; mas é melhor conhecer as coisas inferiores do que amá-las, porque conhecendo-as, nós as elevamos até nós, enquanto que, amando-as, somos nós que descemos a elas.”
(Perfection Chrétienne et Contemplation, ed. Vie Spirituelle, 1923, t. I, pp. 166 e 167.)
Por aí se vê que o amor de si mesmo voltado para o eu-exterior, ou amor-próprio, inferioriza o homem, puxa-o para as coisas inferiores. E também se vê o que será da cultura, ou da civilização, em que essa atitude do homem se generalizar. Como veremos adiante, o mundo moderno é um imenso quadro didático, demonstrativo da degradação do homem conseguida por quatro séculos de uma civilização polarizada na reabilitação do egoísmo. Ou melhor, e em tom esperançoso, o mundo contemporâneo oferece o espetáculo comovente de uma humanidade ansiosa por se desembaraçar das taras históricas deixadas pelo individualismo.
Antes de passar a outro parágrafo, onde cuidaremos das conseqüências do amor-próprio como átomo civilizacional, completemos o texto anterior com um termo de comparação que ficou omisso. E de Homem para Homem, será melhor amar ou conhecer? À primeira vista parece que agora se restaura a superioridade própria (simpliciter) do conhecimento, uma vez que o nivelamento anula o raciocínio que deu à vontade a supremacia. Melhor reflexão indica que devemos observar a variedade de ângulos possíveis na relação Homem-Homem. Em alguns desses casos, onde o homem objeto é considerado sob um ponto de vista especial e parcial, como é o caso do cliente para o médico, será melhor conhecer do que amar. Mas nas relações de pessoa para pessoa, como as que existem entre os membros da família e o grupo de amigos, ou mesmo nas relações onde o outro é visto como imagem e semelhança de Deus, é melhor envolvê-lo num conhecimento de amor, ou num amor compreensivo, mais inclinado para o amor propriamente dito do que para o conhecimento.
Mas em tudo o que fica dito neste parágrafo não pretendemos minimizar o conhecimento das coisas de Deus, nem pretendemos secar nas almas o bom amor pelas coisas menores: a irmã água, o irmão sol, e as demais personagens que costumamos envolver no nosso Benedicite. O amor e o conhecimento, as duas pontas de nossa alma, pelas quais tudo o que existe nos diz respeito, estão intimamente ligados. O amor procede do conhecimento, mas também move o conhecimento, e ama como bens próprios os bens do conhecimento.
Em cada circunstância, a ação conjunta tem de ser feita com boa ponderação da prevalência desta ou daquela potência, ou com a boa e verdadeira colocação de nosso amor, porque toda a nossa vida e nossa sorte depende do que julgamos ser o nosso tesouro, já que “onde está o nosso tesouro estará também o nosso coração”.
2 – Comparação dos dois amores
Insistamos na comparação dos dois amores. O amor-próprio, por causa do seu dinamismo exteriorizante, e portanto inferiorizante para o homem, produz a disputa de sucesso, de prestígio, de vanglória, e dos bens ainda mais exteriores e materiais que no dinheiro têm o símbolo de máxima condensação. Dessa perseguição de coisa nenhuma, ou de vento, como diz o Eclesiastes, sai toda a variedade de humanos desentendimentos, de inimizades e de crueldades sombrias e misteriosamente desproporcionadas com as motivações visíveis. Está aí o mundo. É só abrir um jornal, ligar um rádio, para receber a enxurrada de despropósitos que a humanidade vive fabricando.
Recentemente, nas perseguições e nas incríveis crueldades dos regimes totalitários, certas regiões deste pobre mundo tiveram a pretensão de competir com os demônios do Inferno. O sofrimento produzido tomou tais proporções, a dor atingida foi tão alucinante, a perversidade tão vertiginosa que custa crer que sejam humanas as entranhas de seus autores.
Olhando em outras direções vemos tomar nova feição o espetáculo do egoísmo: em lugar de tragédia temos comédia. Os guizos das vaidades de todas as espécies enchem de ridículo o mundo do homem. Às vezes em coisas de pouca monta e de dimensões familiares, outras vezes em questões que envolvem o governo dos povos, o alimento do faminto, a educação das crianças, a felicidade dos casais, com dimensões nacionais ou planetárias, o ridículo acompanha o homem, cerca-o, cola-se à sua alma, prende-se à sua sorte. E o pensamento oscila vertiginosamente sem saber decidir se tudo é guerra, ou se tudo é carnaval neste planeta bizarro que, não se sabe como, foi brindado com um inquieto bolor pensante.
O bom amor de si mesmo, preceito de caridade, colocado acima do amor do próximo, se entenderá um pouco melhor se o colocarmos na mesma linha do amor pelos outros, numa espécie de desdobramento de si mesmo. Pensemos assim: todos nós, ao longo da vida, nos ligamos mais a uns do que a outros, com gradações de afeto e de responsabilidade. Um dia seremos julgados pelo amor com que amamos. “A la tarde te examinarán en el amor.” E o Pai dos Céus nos perguntará o que fizemos de nossos filhos, o que fizemos de nossos amigos, o que fizemos de todos que dependeram de nós; e então, praza a Deus que nesse dia tenhamos resposta mais cabal que a de Caim: “Que tenho eu com a sorte de meu irmão?” E praza a Deus que também não tenhamos de dizer, nesse dia, o que está escrito no capítulo do Abade, na Regra de São Bento: “Não escondi no meu coração a vossa justiça, anunciei vossa verdade e vossa, salvação, mas eles não me quiseram ouvir.”
Ora, nesse dia, que antecipamos, o primeiro irmão, o primeiro filho, o primeiro discípulo, o primeiro próximo por cuja vida terei de responder com primeiríssima responsabilidade sou eu mesmo. E é nessa perspectiva, nada egoísta, que entenderemos melhor o que cada um é para si mesmo.
Um amor assim colocado na perspectiva da obediência de um lado, e na do exemplo de outro, gera na alma um grande sentimento de valorização verdadeira, e por conseguinte fortalece a dignidade, incrementa o brio, encoraja a nobreza e todas as demais manifestações da dignidade, que têm certa semelhança material com as obras do amor próprio. Na atmosfera de empirismo em que vivemos, é fácil entender que muita gente confunda brio com humildade, altivez com orgulho, dignidade com arrogância, subserviência com humildade, e que até os educadores busquem estímulos de amor-próprio competitivo que julgam salutares para o brio e o sucesso na vida. O que já é mais difícil de entender é que isso ocorra dentro dos meios católicos que deveriam saber usar um pouco melhor o secular ensinamento da Igreja, dos Santos Doutores, sobre a malignidade do amor-próprio e sobre a eficácia purificadora da humildade. E o que espanta (se alguma coisa ainda pode causar algum espanto) é que no próprio meio da Ação Católica as moças mais bem intencionadas se deixem levar com entusiasmo às técnicas de “conscientização” dos humildes, que consistem precisamente em espicaçar o ressentimento do pobre! Quando as coisas chegam a este ponto, como vimos chegar, e quando os padres alvoroçados, os militantes de Ação Católica e os “intelectuais” não sabem mais discernir o detestável ressentimento do bom brio, nas mais elementares manifestações, como aconteceu no caso das famosas “cartilhas”, só podemos dizer com Léon Bloy “que le planisphère de la bêtise humaine est excedé.”
Muito educador, sobretudo nos meios influenciados pela filosofia adleriana, do sentimento de inferioridade, julgará que o amor-próprio, o amor competitivo e egoísta, é uma força da natureza capaz de produzir energia desde que saibamos capta-la e canalizá-la. É verdade que os dois amores têm simetrias vertiginosas, e que o amor egoísta imita os gestos do outro. Daí aquelas semelhanças atrás assinaladas, e até a variação semântica que dá ao amor-próprio, na linguagem vulgar, uma sinonímia de brio, dignidade, etc. Os moralistas e diretores espirituais, cada dia mais raros, saberão distinguir os dois campos, na medida em que não se deixaram contaminar pela moral burguesa, que hoje chamaríamos dialogante. Mesmo assim, nos casos particulares, freqüentemente se enganarão tomando o trigo pelo joio, ou reciprocamente.
O educador que espicaça o ressentimento, em vez de dilatar o brio, que encoraja o amor-próprio em vez de buscar as energias escondidas, mas certamente mais fecundas, da real dignidade, na verdade não educa; dopa seus discípulos, que ganharão talvez a corrida do dia, mas pouco adiante, na primeira esquina da vida, devolverão à sociedade os quilowatts de amor-próprio acumulado, e então tornará patente a fealdade monstruosa, a desolada infecundidade do egoísmo.
Um pouco de experiência, em si mesmo e nos outros, acompanhada de meditação e de oração, ensina a discernir melhor os dois amores, e a conhecer as malícias próprias do eu inflamado. Um dos primeiros sinais é a falta de objetividade, isto é, a falta de casta relação entre um sujeito e aquilo que tem de fazer, objetivamente. Nos casos mais alarmantes vê-se logo que tal indivíduo não está vendo nunca o objeto com esquecimento de si mesmo. Ao contrário, está sempre a se mirar no objeto como num espelho. E tudo, absolutamente tudo, será pretexto para uma projeção de si mesmo. Se o personagem é bem-sucedido, o amor-próprio se dilata e se enfeita em vanglória. Se é mal sucedido, se transforma em amargo ressentimento. E quem não consegue aplausos, prefere a irritação dos outros, prefere enfadar, aborrecer, embaraçar, do que passar despercebido. Dizia o adágio que a natureza tem horror ao vácuo. O amor-próprio tem horror à obscuridade. Prefere aparecer sob as espécies de importunação e da perturbação a desaparecer e passar sem ser notado.
Antes de produzir, por soma e multiplicação, as grandes discórdias, as guerras, os campos de concentração, as experiências totalitárias, o amor-próprio se manifesta, desde os pequenos grupos, como o principal obstáculo à realização de uma tarefa comum. Dificulta a colaboração, justamente porque tende a isolar as pessoas na ocupação daquele primeiro e principal objeto, que é o eu-exterior, por assim dizer posto na soleira da alma, a impedir a saída de gestos generosos. O egoísta e vaidoso faz mais empenho em impor suas idéias, seu estilo, suas opiniões, do que em conseguir um resultado objetivo, ainda que esse resultado objetivo seja extremamente importante para ele, e até mesmo quando esse resultado corresponde a uma de suas paixões. A paixão principal está na soleira da porta de sua alma. Ele não sabe colaborar, não pode colaborar, porque o trabalho comum tem a propriedade de ocultar a parte de cada colaborador. Ah! cremos poder dizer que não há exercício mais cansativo, no mundo, do que os atritos do nada de um com o nada de outro.
Mas não se esgotam, nessa área de infecundidade e da incapacidade de cooperação, as manifestações mais agudas e as conseqüências mais dramáticas do amor-próprio. Às vezes, como bem assinalou Erich Fromm, a projeção do egoísmo toma aspectos exteriores de altruísmo, e de solidariedade, que ainda são mais alarmantes do que as manifestações anárquicas anteriormente assinaladas. O desamor interno, sob o disfarce do “não ser egoísta ou individualista” se transforma, diz Erich Fromm, “num dos mais poderosos instrumentos ideológicos para suprimir a espontaneidade e o livre desenvolvimento da personalidade”. Não hesitaríamos em dizer que esse altruísmo ou essa solidariedade produzidos pelo ressentimento se transformam nos mais eficazes processos de degradação humana. A história recente do Comunismo e do Nazismo aí estão para ilustrar o terrível desamor dessa espécie de amor. Marcel de Corte, numa carta escrita recentemente, ex abundantia cordis, queixava-se dos católicos que pactuavam com o comunismo nesse amor abstrato que é o disfarce do mais implacável ódio pelo homem de carne e osso jamais visto na história! E Santo Tomás (De Malo, Qu. 2, a.3, sol.2, 3) diz que todos os pecados são desvios e perversões do mesmo Belo Amor. O drama da humanidade, nas suas tentativas de um mundo melhor, reside nessa semelhança ou nessa simetria dos dois amores. O mau amor, abastecedor dos infernos, guarda sempre algum traço daquela semelhança com o Belo Amor. Porque, na verdade, não há ódio, se por ódio se entende a procura do mal como mal. Ninguém faz mal aos outros por ódio aos outros, e sim, primeiramente e principalmente, por se estimar a si mesmo desregradamente: e é nisto que consiste a suprema maldade do homem.
3 – Napoleão ou pulga?
Os efeitos paradoxais do amor-próprio vêm da instabilidade interna criada pela falsa postura da alma. A posição falsa cansa, e pede outra posição falsa no extremo oposto. Daí a oscilação do erro e do mal. Ou a dialética interna. “Sou Napoleão ou pulga?” pergunta-se a si mesmo Raskalnikoff. Oscilações de tamanha amplitude revelam um coração ulcerado, um eu inflamado. E esse ferido quer logo ferir. O amor-próprio projeta no mundo exterior o seu desentendimento íntimo, sua íntima amizade. Quer o mundo à sua imagem, e os deuses à sua semelhança. A primeira vítima da hostilidade do amor-próprio é o pobre ser angustiado que foge de si mesmo precipitadamente e tropeça em si mesmo.
O Homem-Exterior é antes de tudo um desequilibrado, de passo incerto e incerta vontade, que vive entre Napoleão e a pulga. Na primeira análise superficial o figurino psicológico produzido pela moral burguesa é o da obesidade espiritual, é o do personagem instalado no mundo, bem plantado nas pernas ou bem assentado nas nádegas. Já se disse que o burguês típico da civilização individualista é o homem estabilizado, seguro de si mesmo. Isto será verdade, mas meia-verdade. A outra metade da história mostra-nos o contrário. No seu magnífico estudo sobre os sentimentos de inferioridade, o Dr. Oliver Brachfeld define o advento da burguesia, nos começos do século XV, como uma procura de segurança; e mostra o atingimento antitético dessa mesma civilização, quatro séculos depois, num clima de insegurança que tem proporções de pânico. O mesmo autor, generalizando o fato, conforme a tendência da psicologia adleriana, lança a idéia de um “complexo de Gulliver” pelo qual cada um de nós tende a oscilar entre a condição de gigante entre liliputianos, e a condição de anão nas terras de Brobdingnag.
4 – “Noche oscura”
Queremos neste parágrafo esboçar uma idéia que outros, se a acharem digna de estudo, poderão desenvolver. Há no mistério da fissura interna uma principal opção onde parece estar concentrado o trágico de nossa condição. Temos de escolher entre a obscuridade de Deus e a claridade da criatura. Para nós, Deus é obscuro e a criatura é clara. A experiência profunda de purificação interior, a procura de nosso próprio espírito para domínio e integração de nosso ser exterior, tem de ser feita como quem se abandona, se desprende, ou como quem confia e aceita um salto dentro da escuridão. Os autores espirituais, em sua hiperbólica linguagem — tentativa de exprimir com palavras claras as experiências de um saber noturno e incomunicável — mostram o conhecimento de si mesmo como a descoberta do nosso nada diante do tudo de Deus. Santa Catarina de Sena não se cansa de fazer esta declaração meta-metafísica: eu sou aquela que não é.
Para exprimir o fato da contingência do ser criado, em face da a-seidade do Incriado, ou melhor, para exprimir a experiência vitalmente realizada de tão tremendo confronto, os místicos põem a tônica de nosso ser no nada que ainda trazemos em nossa composição de potência e ato. Ser e não ser, être-avec-néant, ser que não é tudo o que é, que pende, depende, nossa alma tem entretanto a capacidade de receber um princípio de vida divina que a torna apta a entrever aquele confronto entre o tudo de Deus e o tão pouco da criatura. Ora, é na direção dessa experiência que se situa o conhecimento verdadeiro de si mesmo. Em direção oposta àquele amor que se inclina para as coisas inferiores, como quem se agarra aos rebordos de uma janela, ou de um precipício, o verdadeiro amor de si mesmo tem de realizar, de algum modo, em algum grau, a experiência da noite escura. É por essa porta de abismo que a alma sai à procura de seu Belo Amor:
Em una Noche oscura
con ansias en amores inflamada,
oh dichosa ventura!,
sali sin ser notada,
estando ya mi casa sosegada.
(San Juan de la Cruz, Subida del Monte Carmelo.)
Mas essa experiência tem de ser feita na luz da Fé, ou na seqüela de Nosso Senhor Cristo Jesus. Por nós mesmos, pelas forças naturais, no estado e nos compromissos que temos, que tem nossa natureza e nossa pessoa, não seremos capazes de tamanho empreendimento. Só colheríamos cansaço e confusão.
“Eis o que acontece, quando o homem tenta descobrir em si essa realidade nuclear, esse tudo que tão fortemente se destaca, essa fonte de vida, centro do ser, substância da alma; eis o que acontece quando o homem tenta descer com suas lanternas e suas cordas — aliás, descer ou subir, por que não? — à procura da fina ponta de si mesmo; e quando se abaixa, se curva, se debruça — ou se alça na ponta dos pés, por que não? — à procura do seu nome antigo que Herzeleide levou e que só Kundry conhece; ou à procura da pupila que vê sem ser vista, a não ser nos outros, no enigma, no espelho dos outros; quando investiga enfim o lugar onde se condensa e se solidifica, em toda a sua maravilhosa e rica espessura, aquele tudo que a tudo se opõe frontalmente, que se separa do outro tudo objetivo, disperso, difuso, pitoresco, que se espalha desordenadamente, como um luxo de universo supérfluo e emoldural — eis o que acontece, eis o que encontra esse audaz aventureiro: ‘Silêncio, escuridão e nada mais.’
“Deixara para trás, pendurados em invisíveis, cabides, os meus títulos exteriores. Que me importava a mim, nessa experiência decisiva, ser professor da Faculdade de Filosofia, padrão O? Que me importava toda a série de pequenas conquistas e de grandes malogros que fazem a fisionomia exterior de minha vida? Sou brasileiro, eleitor, vacinado, autor de um trabalho sobre as integrais de Bessel, membro do Clube de Engenharia, proprietário, meio poeta, e agora canceroso. Todos esses predicados juntos não dão um sujeito. Cercam-no, penduram-se nele, ou melhor, realizam-se nele. Mas o sujeito oculto, o sujeito que se procura, e que às vezes inventaria suas exterioridades com um olhar melancólico de velho fidalgo meio desmemoriado, que percorresse de uma sacada do solar os seus domínios invadidos pela hera e desfigurados pelo abandono – onde está ele, esse sujeito? Machuquei ontem o meu dedo. Mas o dedo, com todas as suas ligações vivas, parece-me distante, exterior, como um pau-de-cerca derrubado, que o triste dono deste solar arruinado calcula como e quando consertará.
“Recuando, descendo cada vez mais fundo, abrindo caminho entre as disparatadas coisas exteriores, pergunto em voz alta: — Onde está a sala do trono no castelo encantado de mim mesmo? De escuridão em escuridão, de silêncio em silêncio, atravesso com medo os meus recessos.
“Esta sala, em doce penumbra amarela, é o gabinete da Memória. Mas eu não sou a minha memória. Se é por ela que tenho noção certa de minha própria continuidade: se é por ela que cumpro hoje o que ontem prometi; se é por ela, em suma, que meu eu abre caminho no tempo, não é nela que minha alma consiste. A memória é um registro; é qualquer coisa que recebe, passivamente. Mas nesse museu de coisas antigas e truncadas há um personagem que passeia, um ladrão, um arrombador que dirige de repente sua lanterna-surda para um cofre esquecido. Ou há um prisioneiro melancólico que folheia um álbum. É verdade que a memória tem manifestações involuntárias, uma espécie de movimento browniano que nos traz, da ebulição interior, muita coisa que quiséramos esquecida. Há lembranças que esbarram, que vêm ao encontro do arrombador. É um museu encantado, uma loja feérica de antiquário em que os objetos se agitam, dançam, mudam de forma e de cor, sem que o proprietário consiga dois minutos de ordem e de boa arrumação. Ali estão, por exemplo, numa nitidez derrisória, trinta e tantos números de telefones, datas de aniversários, endereços, fórmulas algébricas, nomes de autores; mas onde é que puseram o sorriso de minha mãe?
“Não, a memória não é o meu centro; eu não sou a minha memória. Também não sou minha imaginação; essa câmara de projeções combinadas, que superpõe espetáculos, que aproxima vulcões, estrelas e rosas, apesar de toda a sua atividade, de sua inventiva espontaneidade, não é o centro de minha pessoa. Eu não sou a minha imaginação.
“Recuando mais, e deixando apagadas as luzes da memória e da imaginação, apalpo-me desesperadamente, e não me encontro. Nesse instante de pesadelo, perco o pé, fico a oscilar entre um tudo e um nada. Uma composição inaudita, que, no seu criptograma, o filósofo chamou être-avec-néant, dá-me vertigens. E caio. Despenco no vazio. Acordo gritando. E agarro-me onde posso, numa gárgula, num pára-raios, num peitoril de janela deixada aberta por esquecimento; isto é, agarro-me no meu título de professor, firmo os pés com segurança nas boas coisas exteriores que me tocam, que me escoram, dizendo-me, na linguagem dos contatos mudos, que eu existo, ao menos assim, por fora.”
(Lições de Abismo, Agir, pp. 297, 301.)
5 – Os “ismos” e o desprezo de Deus
Agora vamos percorrer algumas linhas-de-história de uma civilização que realizou a experiência do nominalismo e da moral do interesse, ou do Homem-Exterior, até sua exaustão, até as conseqüências que constituem hoje nossa perplexidade e nossa angústia. A priori poderíamos prever as características dessa civilização que aceitou a filosofia do aviltamento da inteligência, e que promoveu a reabilitação do amor-próprio. Vamos encontrar no Individualismo a realização histórica da exteriorização do homem. Os diversos resultados dessa civilização estão compendiados nos ismos do século XIX. O resumo de todos é o que Santo Agostinho previu: amor sui usque ad contemptum Dei.
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