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A família e o papa
01/10/97
O papa vem mostrar que a mais permanente das estruturas humanas de direito natural é a família
A visita do papa ao Brasil tem sido exposta de variada maneira pela mídia sem que se realce o núcleo da missão pastoral que o traz até nós, que é a valorização da família.
Nos dias atuais, essa instituição natural _e de direito natural_ tem sido atacada, de forma direta ou sub-reptícia, como se representasse uma instituição do passado.
Apesar de a Constituição brasileira dedicar um capítulo inteiro à valorização familiar _pouco examinado pelos constitucionalistas e bastante adulterado pelos que não acreditam no casamento, na responsabilidade paterna e na família_, muitos formadores de opinião, mais do que a sociedade, insistem em que há uma nova visão da liberdade sexual sem responsabilidade, que termina por atingir a família.
O papa vem ao Brasil exatamente para mostrar que a mais permanente das estruturas humanas de direito natural _e um sacramento para os católicos_ é a família, visto que as crises de costumes, de idoneidade, de moral por que o mundo passou e passa são incapazes de atingi-la, tendo sido sempre possível revalorizá-la, mesmo quando aparentemente não havia recuperação.
Ao longo dos meus muitos anos de magistério, mantive constantemente conversas com meus alunos sobre sua vocação matrimonial e profissional, sobre o mérito e a luta de seus pais em educá-los para que sejam seres humanos dignos e enfrentem a vida, com o objetivo de alterar os padrões pouco sadios de ''conivência'' e ''conveniência'' vigentes.
O que é admirável _e até hoje me comove_ é ver que a grande maioria dos jovens tem ideais elevados, deseja ter uma família sólida, espera casar ''para sempre'' e sofre quando vem de casais separados ou nota que seu ambiente familiar se deteriorou. Há na juventude a esperança permanente de que sua vida venha a ser diferente daquelas destruídas, muitas vezes, pelo egoísmo paterno e a intenção de não cometer os erros de seus pais.
Aqueles que vivem no seio de uma família em que todos lutam por mantê-la, apesar das dificuldades e incompreensões, são sempre os mais otimistas. No combate pela preservação da família, aprenderam a valorizá-la, a valorizar os sacrifícios do pai e da mãe para educá-los; aprenderam aquele amor verdadeiro que nasce não da busca individual de felicidade à sua maneira, mas do esforço por dar melhores condições aos outros.
O papa vem mostrar que esse é o verdadeiro caminho da felicidade. Quem busca muitos direitos sofre mais. Somente no ambiente familiar quem está disposto a ajudar os outros a crescer é que é realmente feliz.
Tem mais quem precisa de menos, dizia o fundador da Universidade de Navarra; e é mais feliz no ambiente familiar quem tem mais deveres que direitos, pois sabe tornar seu lar luminoso e alegre, apesar das dificuldades por que passe.
Aqueles que buscam no casamento apenas a sua própria felicidade e acham que seus familiares devem estar à sua disposição terminam por ser, nessa busca egoísta e tresloucada de auto-realização, profundamente infelizes e frustrados. Quem age de forma oposta e está disposto a ter espírito de serviço é sempre incomensuravelmente mais feliz.
Num mundo de opressões, de violências, de rancores, de angústias, vem o papa dizer que a paz começa na família e que todos aqueles que a valorizam têm mais condições de ser felizes na vida do que aqueles que buscam a felicidade material e pessoal a qualquer custo. Num mundo de ódios, vem o papa pregar a paz. Num mundo de desamor, vem pregar o mais sublime amor humano, que é o amor familiar.
Ives Gandra da Silva Martins, 62, advogado tributarista, professor emérito da Universidade Mackenzie e da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, é presidente da Academia Internacional de Direito e Economia e do Conselho de Estudos Jurídicos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo.
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