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Uma Visão do Mundo Contemporâneo (trecho do livro)
MAIOR CULTURA*
Miguel Reale costuma, em seus livros, apresentar os diversos sentidos da palavra "cultura", cuja abrangência torna-a praticamente sinônimo de "civilização". Em seu último livro, "Paradigmas da Cultura Contemporânea", apreende a filosofia universal, à luz da cultura, no que denomina de "historicismo axiológico" ou "experiencialismo transcendental". A dimensão superior do homem, portanto, encontra-se na captação da cultura para processá-la perante a vida.
Em outras palavras, a cultura, que pressupõe a educação e que não prescinde da evolução (somatória de conhecimentos específicos ou genéricos não sopesados de forma universal), representa a última etapa do conhecimento, visto que sua aquisição compreende o posicionamento daquele que a adquire perante todos os fenômenos da humana experiência, em dimensão coerente e orgânica.
O erudito pode não ser um homem culto. O culto será necessariamente um erudito e este, que possui educação, só dará o salto de qualidade que a cultura exige quando souber integrar harmonicamente seus conhecimentos.
O homem do século XX em média é mais culto que o do século passado e pode adquirir a cultura corri mais facilidade. Cada vez mais editoras e empresas que trabalham com informática buscam simplificar sua aquisição, tornando matéria pertinente a tratados própria de manuais, o que facilita o acesso à cultura, mesmo aos menos inteligentes, desde que esforçados.
A visão de conjunto que a cultura permite é hoje realidade acessível a um contingente tão grande de pessoas, que praticamente quem se educa pode chegar ao estágio cultural com facilidade.
Nas bancas acadêmicas e concursos cada vez mais os examinadores dão menor importância à somatória de informações ofertada pelo candidato ao título – que já não pressupõe mais a pesquisa cansativa e orientada - e maior a originalidade do enfoque, ao toque pessoal do candidato em relação ao tema abordado.
Qualquer criança tem hoje acesso, via internet, a qualquer biblioteca de qualquer universidade, já não precisando freqüentá-las. A informação é alterada com tal rapidez que o acúmulo num trabalho acadêmico muitas vezes é até desmerecedor, porque representa ter o candidato todo o acesso aos bancos de dados informatizados, sem que a avaliação adequada de decantação do nível de informação obtido seja possível, se excessiva. Em outras palavras, a cultura deixou de ser para o homem ordenado do século XX estágio de conhecimento apenas acessível aos mais habilitados, mas é hoje estágio de fácil acesso, em que a ordem e o método superior podem prevalecer sobre a inteligência, se esta for brilhante mas desorganizada.
Ora, o homem do século XX/XXI, à medida que ganha esta visão universal das coisas, do indivíduo e da sociedade e não encontra oportunidades para exercer sua vocação superior, torna-se um frustrado, um rebelado, um revoltado e se exerce, em alguma escola ou universidade, a função magisterial, um veiculador de suas frustrações à juventude que deseduca e, muitas vezes, deforma. Se trabalha num jornal, deixa seu ressentimento transparecer, procurando no fracasso dos bem-sucedidos, a cuja queda dá ressonância maior, justificar um pouco o seu próprio fracasso.
Ocorre que as pessoas mais cultas não são necessariamente as mais bem-sucedidas materialmente, mas têm um poder de formar opiniões mais forte que os bem-sucedidos. Um Tales de Mileto, que demonstrou poder ganhar dinheiro com seus conhecimentos, embora este não fosse o maior objetivo de sua vida, ou Sócrates, que não dava atenção aos bens materiais, não são a regra. E a revolta nas dificuldades que enfrenta para cuidar da família, dos filhos, de gerar oportunidades para os que constituem o seu meio é tanto maior quanto mais vê mediocridades triunfarem, exibindo seus sorrisos e seu bem-estar material em revistas especializadas em exaltar o sucesso material dos que têm dinheiro ou sucesso, mesmo que a ética não tenha sido o caminho seguido para os adquirir.
Na maioria dos casos, o culto é um formador de opinião que vive em dificuldades e se revolta contra o homem bem-sucedido, que considera inferior no plano cultural e que, por esta razão, lhe causa inveja. E sua revolta quase sempre é alcandorada por uma sensação de que, ao combater o forte, está defendendo o fraco, o injustiçado, o insuficiente, quando, em verdade, o seu combate ao forte, a sua crítica, a sua alegria com a queda dos poderosos são apenas a exteriorização da real inveja por não ter tido ou aproveitado oportunidades ou por não ter talento para aproveitá-las, sem perceber que seu fracasso, muitas vezes, decorre de sua própria imobilidade, apesar de culto, mais do que da sua falta de oportunidades.
O certo é que a casta dos bem-sucedidos, na maior parte das vezes, não inclui os cultos, que são cada vez mais numerosos. E, na casta dos sucedidos, na maior parte das vezes, não se incluem os oportunistas incultos, o que torna a revolta maior e seu poder de destruição da opinião relevante, em face da frustração pessoal.
Em outras palavras, o culto não bem-sucedido, mesmo que se apresente como defensor dos seus iguais e malsucedidos, é alguém que tem influência formativa, mas que, se alimentando do ódio contra os que foram melhores que ele, gera problemas sérios à estabilidade social pelo acesso que termina tendo aos meios de informação e formação.
O culto é quase sempre alguém que está contra todos e principalmente contra os detentores do poder e os ricos, abraçando quais quer teses que possam combatê-los, mesmo que deletérias e corrosivas. E seu enorme poder de destruição tende a crescer.
* In: Uma Visão do Mundo Contemporâneo, São Paulo, Pioneira, 1996, pp. 70/73.
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