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A CNB do B, O PAPA E A "FRATERNIDADE"
Jornal da Tarde 22 março 1999
J.O. de Meira Penna
Há pouco mais de cem anos estava em moda o Marxismo que lançou o uso do termo "capitalismo" e sustentou sua perversa teoria de inevitável conflito entre capital e trabalho. Tentando superar essa falsa dicotomia, o Papa Leão XIII lançou sua encíclica Rerum Novarum em 1891. E João Paulo II, em 1991, relembrando a intenção do antecessor na sua Centesimus Annus, adaptou a doutrina da Igreja às "coisas novas" que ocorreram desde então, inclusive o fato histórico, extraordinário, que foi o colapso do comunismo, o declínio fatal do socialismo marxista e a globalização liberal. Ora, na era dos aviões, da Internet, TV e telefones celulares, a relevância desses eventos demora anos para ser absorvida pela cuca obdurada de muita gente. A Campanha recentemente lançada pela CNB do B, sob o pretexto de "resolver a crise", ignora não só a realidade do mundo moderno mas as próprias palavras de Sua Santidade. Uma das "coisas novas" infelizmente não previstas no "Centésimo Ano" é a desobediência pelos bispos brasileiros de um mandamento fundamental: obediência. Os Jesuítas não apenas não lêm as encíclicas, mas encabeçam o movimento para se tornarem a ponta de lança intelectual do Marxismo brasileiro Quando, há 460 anos, foi fundada pelo militar espanhol Iñigo (posteriormente Santo Inácio) de Loyola, o propósito da "Companhia" de Jesus era tornar-se uma verdadeira milícia disciplinada, absolutamente fiel ao Santo Padre cujas ordens devia obedecer ac cadaver. Ora, renovando com a velha tese do profeta barbudo que lançou o Manifesto Comunista de 1848, Dom Raymundo Damasceno, Secretário-Geral da dita CNB do B, começa seu manifesto de 1999 opondo Capital e Trabalho como se o primeiro, longe de representar simplesmente capital acumulado, fosse responsável pela questão fatídica que levanta: "Sem Trabalho - Por Quê?" Vejam bem, pode o Capitalismo brasileiro, em sua infância abandonada e atormentada, ser responsável pelo grande número de pessoas que não trabalham? A confusão entre "emprego" e "trabalho" é deplorável. Há muita gente sem emprego, não dúvido. Aqueles que não trabalham, porém, são preguiçosos, doentes, aposentados ou, mais provavelmente, têm um emprego público... Trabalhar é uma atividade necessária e uma virtude. Todo aquele que deseja trabalhar sempre encontra o que fazer, nem que seja tomar conta de sua casa como fazem as mulheres, construir essa casa em regime de mutirão, ou procurar emprego numa "empresa" onde os empresários certamente muito têm que trabalhar para não falirem sob o peso da concorrência e dos impostos. Contrariando as exortações papalinas, Dom Damasceno prossegue com idéias do Boffe, entrando em assuntos de política que não são de sua alçada. Deblatera contra o mercado e o "sistema conhecido como neoliberalismo". E, ao invés de obedecer a seu superior hierárquico, o Papa, criticando o Marxismo; atacando os excessos da intervenção estatal na economia (intervenção da qual teve o Papa a dura experiência na Polônia); e defendendo a propriedade privada dos meios de produção e uma sociedade de trabalho livre e livre empresa (que é, precisamente, o propósito do neoliberalismo) - toma uma posição equivocado quando reprova o que denomina "capital meramente especulativo" e pretende, falsamente, que "a técnica está se sobrepondo à ética". Esse conceito desprovido de sentido pois é precisamente graças às técnicas modernas de produção capitalista que o desenvolvimento se acelera e são sobrepujados o desemprego e a pobreza. Todos os ilustres prelados da CNB do B ignoram solenemente que o país hoje mais próspero, com menos desemprego (abaixo de 5%, que é o mínimo normal) e capaz de criar 18 milhões de novos empregos nos últimos seis anos é, justamente, os Estados Unidos. A vibrante economia americana é paradigma do indigitado neoliberalismo. Mais deplorável ainda que os preclaros sacerdotes falem em "pecado social". Ora, não existe tal coisa. Jesus se referiu (em Marcos 7: 23/ 27) à origem puramente individual do pecado. E, acentuando que é de "dentro do coração" que vêm esses males, não da sociedade, condenou (ouçam bem!) "roubos, ambições desmedidas, malícia, difamação, arrogância e insensatez".
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