Pensadores Brasileiros       

Artigos de José Osvaldo de Meira Penna

Período de 21/1/1998 a 15/10/2001
Total: 83 artigos
 

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Segunda-feira, 27 de novembro de 2000 

A direita, a esquerda e a sinistra 

É conveniente repetir cem vezes, para que entre no bestunto da Burritzia tupiniquim: a dicotomia Esquerda x Direita é uma criação artificial dos jacobinos da Revolução Francesa. Ela passou a ser aceita por comodismo oportunista, mas, no fundo, não possui conteúdo algum. Ao inaugurar-se a Convenção Revolucionária de 1792, os deputados mais radicais e apressados entraram no recinto da assembléia pela porta esquerda e, encontrando vagos os assentos desse lado, ali se sentaram. Os girondinos, mais displicentes, moderados e partidários de um regime representativo de modelo inglês, descobrindo então lugares vazios à direita da mesa do presidente, sentaram-se desse lado. A Droite permaneceu composta de liberais, que privilegiavam o primeiro termo do trinômio revolucionário Liberté, Égalité, Fraternité, ao passo que a Gauche, o lado dos assanhados e violentos, ia logo desencadear o Grande Terror de 1793/94 sob a liderança de Robespierre, no empenho exclusivo de fazer triunfar o segundo termo, igualitarista. Foi assim imposta uma ditadura terrorística que desequilibrou o regime, provocou a invasão estrangeira e conduziu ao império bonapartista, tendo como resultado a guerra civil, o genocídio da Vendéia e a conflagração européia: em suma, 1 milhão de mortos. Como só em termos de Igualdade perante a lei e, a rigor, de Igualdade de oportunidade, se pode pensar em justiça social, qualquer tentativa de assegurar artificialmente a uniformidade econômica só pode conduzir ao comunismo. 

O controle da produção pelo Estado gera, inevitavelmente, uma Nova Classe de dirigentes, encarregados de impô-la através de uma vasta burocracia que, automaticamente, evolui uma Nomenklatura de índole atrabiliária, destruidora e genocida. A fracassada "Conspiração dos Iguais" de Babeuf, reprimida em 1796, foi o primeiro exemplo de uma seqüência marcada pela Comuna de Paris, 1871; o Bolchevismo russo que se desmilingüiu em 1989/91; o Maoísmo, substituído pelo termo ambíguo "uma nação, dois sistemas" de Deng Xiaoping na China; o genocídio indiscriminado perpetrado por Pol-Pot na "Kampuchea Democrática"; e os dois melancólicos remanescentes da ideologia, a Coréia do Norte e a Cuba Fidelista. A primeira nos lembra o 1984, de Orwell, e a segunda a Revolução dos Bichos, em que "todos são iguais, mas uns mais iguais do que outros". Aliás, nesse último caso, estamos realmente diante de uma espécie de porco que se julga Napoleão. Se, ao socialismo totalitário, acrescentarmos o terceiro termo do trinômio mencionado, a Fraternidade patriótica cuja ideologia específica é o Nacionalismo, constatamos que 200 milhões de pessoas foram sacrificadas, no século 20, por esse sinistro e derradeiro produto das idéias de Jean-Jacques Rousseau, tal qual interpretadas pelos jacobinos franceses. 

A tradição mais legítima, que devemos ao parlamentarismo britânico, procura destacar três principais tendências sóciopolíticas: o conservadorismo tory; o liberalismo dos whigs; e uma terceira, igualitária, versão edulcorada do populismo, importado da França, mas envergonhado, que deu origem ao Trabalhismo. 

Ao estudarem a origem de nossas idéias políticas, notaram Paim e Ricardo Vélez que, em Portugal, no período semi-anárquico do século 19, com a guerra civil entre Pedro IV (nosso Pedro I) e seu irmão absolutista d. Miguel, três partidos se formaram, o liberal, o conservador e o que, adequadamente, foi classificado como "democratismo" - conceito totalitário elaborado em meados do século 20 pelos estudiosos do Comunismo e do Nazismo (Hannah Arendt entre outros). Comunismo e Nazismo são os dois braços inimigos do mesmo monstro homicida. O traslado para nosso país da velha dicotomia jacobina me parece não somente falso, considerando as origens autoritárias, jacobinas, positivistas e marxistas da ideologia brasileira, mas extremamente perigoso. 

Desde a ditadura de Floriano Peixoto (1891/94), vivemos sob as ameaças respectivas do Bonapartismo e do Jacobinismo - os dois extremismos de direita e esquerda implícitos no programa revolucionário da "Ditadura Republicana" de Auguste Comte e na "Ditadura do Proletariado" de Karl Marx, ambos ideólogos discípulos de Rousseau. Devemos retornar à tradição britânica do Império, que só admite a tensão entre conservadores e liberais. 

J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br

Compilado em 28/10/2001
Fonte: Vários sites na Internet

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