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28 de maio de 2001
A "NOVA ELITE PREDATÓRIA"
*J.O. de Meira Penna
O deputado José Genoíno me desculpará se uso o título de seu artigo do dia 19 para algumas considerações filosóficas. Por coincidência, estive lendo o livro de meu amigo Mário Guerreiro, "Ceticismo e Senso Comum", assim como algumas das "Investigações Filosóficas" de L. Wittgenstein. As duas obras me recordam a época em que, servindo na China, me interessei por certos aspectos do pensamento de Confúcio a respeito da Doutrina da Retificação dos Nomes. Confúcio, Wittgenstein e o professor de filosofia na UFRJ se preocupam com a lógica, o Senso Comum e a análise precisa do sentido dos termos e proposições usadas – razão pela qual me despertou a curiosidade de descobrir o significado exato do termo "elite predatória".
O ilustre parlamentar, que é um dos mais brilhantes representantes da Oposição, usa corretamente a noção weberiana de Patrimonialismo. Ela corresponde à preferência de nosso grupo liberal para designar o sistema de governo que herdamos da Colônia e em virtude do qual uma "elite", recrutada dentro do próprio onipotente Estado autárquico, usa esse poder para se apropriar privadamente dos recursos públicos. No sistema racional-legal que configura a democracia liberal, tal apropriação é designada como corrupção. Infelizmente, logo em seguida na sua disquisição, o vibrante petista abandona a linguagem de Weber para adotar a de Marx, e todo o arrazoado vai por água abaixo, inclusive pelo recurso da falsificação de dados. Sua Excelência acusa o "capitalismo predatório" de ser responsável pelo "desastre" das privatizações, insinuando que os consumidores, que somos todos nós, fomos prejudicados ou extorquidos pela alta de preços e tarifas. Ora, numa "investigação filosófica" devemos não apenas obedecer exatamente ao sentido das palavras, à lógica e ao bom senso, mas à prova empírica. É aí que, em particular e genuinamente, se estrepa o admirável petista. Há alguns anos, uma linha telefônica chegava a custar US$5,000 e a comunicação entre o Rio e S.Paulo era às vezes impossível. O preço do aço caiu e as transações bancárias também desde quando foram privatizados bancos estatais e siderúrgicas. A qualidade das estradas melhorou. Cessou a inflação. Os portos, que se haviam tornado os mais caros do mundo quando controlados pela "elite predatória" de estivadores, estão pouco a pouco reduzindo o "custo Brasil" no comércio internacional. A própria ameaça de "apagão", alvo predileto da histeria oposicionista, resulta não da privatização, mas de sua ausência na geração hidro-elétrica e no abastecimento das termo-elétricas pelo gás da Bolívia. Se procurarmos, um por um, os ítens em que fracassa a economia brasileira em crescimento descobrimos a mão do Estado, sempre intervencionista, inepto, imenso e corrupto. A "elite predatória" não é nova. É política, antiquíssima, colonial, reacionária e simbolizada no primeiro documento "patrimonialista" de nossa história, a carta de Pero Vaz de Caminha, pedindo emprego a el-Rey Dom Manuel. A ela pertencem os partidos que persistem na grita contra a tendência mundial à globalização. A economia brasileira é ainda uma das mais fechadas, burocratizadas e estatizadas do mundo. Ilustre deputado Genoíno: como V.E., que é marxista, explica o sucesso da China, senão pelo extraordinário desenvolvimento de suas "áreas especiais" costeiras onde foi adotado o livre mercado capitalista? Como interpreta o desaparecimento da URSS, o acelerado crescimento americano, o sucesso dos países europeus e asiáticos menos socializados? Todos eles repudiaram a "elite predatória" burocrática gerada pelo próprio Estado cujos vícios V.E. aliás tão bem descreve. Pontificava lord Acton em axioma memorável: "o Poder corrompe, o Poder absoluto corrompe absolutamente". Quando um Estado patrimonialista controla 40% do PIB (da ordem de 300 a 400 bilhões de dólares) com impostos, a administração direta e suas estatais, a carniça é grande demais para não despertar o apetite orçamentívoro do Dinossauro. Portanto, caro deputado, analise melhor em que consiste, onde se localiza e como se recruta a "elite predatória" brasileira: talvez V.E. a ela também pertença...
* O autor é Embaixador e Professor aposentado <meirapen@zaz.com.br>
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