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Segunda-feira, 16 de abril de 2001
A novilíngua tupiniquim
Orwell inventou o termo "novilíngua", em sua famosa distopia, para designar o tipo de idioma especial que o Estado totalitário impõe no sentido de coibir a liberdade dos cidadãos até mesmo no uso da linguagem que desejem. Não é de estranhar, portanto, que um deputado do PC do B, esquecendo-se do suposto "internacionalismo" básico de sua doutrina, queira agora, mais uma vez em nossa história republicana, determinar a maneira como devemos falar - só usando termos politicamente corretos. Essa mania intervencionista, com uma sucessão de "reformas ortográficas", é de tal ordem que, depois de 65 anos do hábito de escrever, sou ainda obrigado, freqüentemente, a consultar o dicionário como resultado de resquícios, depositados na memória inconsciente, da ortografia de minha infância. A mais ridícula de todas as "reformas" foi a que suprimiu o k, o w e o y no momento exato em que, em Brasília, a Novacap dava a um dos bairros projetados, aquele precisamente em que resido agora, o nome de Parkway. O ímpeto nacionalista dos calhordas da política e da burocracia está sendo, exasperadamente, colorido de xenofobia, dirigida em particular contra a língua franca (O.K.?), expandindo-se no novo mundo globalizado - o que quer dizer o inglês.
Se o ilustre parlamentar (de parliament, inglês) realizar seus propósitos, receio que seremos obrigados a nos comunicar por gestos. Nem mesmo os idiomas indígenas servirão. O próprio tupi-guarani, falado outrora em São Paulo, é de procedência paraguaia. As outras tribos, existentes ao tempo da indigitada "Descoberta" (não seria a palavra detestável?), ainda hablan centenas, talvez milhares de Spräche diversos. D'accord, a língua oficial é o português, artigo 13 da Constituição dos Miseráveis do "Dr." Ulysses! E o que fazer então com as centenas, talvez milhares de palavras árabes? Sem alfândegas e almoxarifados, dammit!, o próprio governo não poderia funcionar. Vamos destruir a medicina e a incipiente ciência brasileira porque usa termos principalmente gregos, e foi toda importada? E a matemática que se vale igualmente de álgebra e algarismos árabes? Abandonar toda a tecnologia igualmente importada, automóveis, aviões, eletricidade, telefone, todo o forró (for all, inglês)? E excluir a música, porca miseria, porque inteiramente corrompida pelo italiano?
Numa orquestra (grego) ou numa ópera, não haveria mais maestro, piano, violino, trombone, sem falar no oboé (hautbois), que é francês, e naturalmente tambor (árabe). Arre (provençal), quem imagina expurgar a missa do amém, das aleluias e dos hosanas (termos hebreus)? O autor da sugestão é realmente um ben-zonah ou, pelo menos, um teólogo (grego) da libertação (latim). A agricultura seria privada do açúcar, do álcool e do algodão (árabes), assim como do café (qahuyê, turco) e, nas fazendas (espanhol) e chácaras (quéchua), não se mediria mais em alqueires (árabe). Nas cidades não veríamos mais bondes (bond, inglês) nem taxis (grego, pelo alemão).
Ninguém comeria mais chocolate (asteca) e como se poderia o povo divertir sem o futebol (football) e o grito exuberante de goooool (goal)? Exu (iorubá) entraria em campo para desfazer a feitiçaria (fétiche, francês).
Em suma, o que desejo salientar é que, desde sempre, o fenômeno de globalização progressiva da Humanidade vai enriquecendo os idiomas locais com palavras importadas (serigote, sehr gut, alemão de Santa Catarina), do mesmo modo como nosso próprio povo se formou com imigrantes de todos os continentes, índios da Ásia, negros africanos, europeus de todas as origens, além dos próprios portugueses já originariamente mestiços, e sírio-libaneses, japoneses e coreanos de mais recente extração, uma "raça cósmica", como diria o grande ensaísta mexicano José Vasconcellos. Na verdade, a língua configura, como acentua Hayek, uma Ordem Espontânea do mesmo tipo do que o Mercado capitalista. Suas únicas regras são as gramaticais, precisamente as que tantos congressistas, especialmente do Nordeste, desprezam. O remédio é deletar o responsável pela idéia da novilíngua, com um download pela toalete (francês) do W.C. (inglês). Ciao...
bye,bye!
J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br
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