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A UNÇÃO DE BETÂNIA: CAPITALISMO OU SOCIALISMO?
Jornal da Tarde 23.8.99
J.O de Meira Penna
Tenho, em ocasiões anteriores, tentado argumentar que os Evangelhos de modo algum conduzem a uma interpretação, de teor socialista, da Caritas, o que quer dizer do amor como a mais alta virtude. Em primeiro lugar, Cristo repetida e taxativamente proclamou o caráter satânico do poder político. No que diz respeito à economia, poderíamos arguir na base do episódio conhecido como a "Unção de Betânia" que figura no Evangelho de João (12:1 a 8) de modo um pouco diverso, porém mais clara e pormenorizadamente do que em Mateus (26) e Marcos (14). Em Lucas 10:38 e 7:36 é descrito diferentemente. No meu entender, Cristo explicitou seu ensinamento social ao ouvir, em casa de Marta, Maria e Lázaro, as palavras intempestivas de Judas Iscariotes. Recordemos o que ocorreu. Judas reclamou porque Maria havia derramado um perfume de puro nardo, caríssimo, para ungir os pés do Senhor. "Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários, para dá-los aos pobres?", perguntou Judas. Um denário - a antiga moeda romana que representa a raiz etimológica de nosso “dinheiro” - correspondia a um dia de trabalho, de maneira que o perfume derramado ou desperdiçado seria mais ou menos equivalente a um ano de salário mínimo. Judas, o traidor como é acoimado pelo evangelista, manifestava-se como um autêntico "teólogo da libertação". Jesus lhe respondeu então: "Deixai-a... pois os pobres sempre os tereis (e quando quiserdes podeis lhes fazer o bem), mas a mim nem sempre tereis"...
Vemos como o epísódio é relevante para uma apreciação dos fenômenos econômicos de um ponto de vista social. O relacionamento entre as atitudes de Marta e Maria na ocasião (Lucas 10:38) também tem sido amplamente discutido. Na “Sociologia da Religião” de Weber, a primeira interpretação do caso é atribuída ao místico medieval alemão Meister Eckart. No Brasil, creio que é na obra de Vianna Moog, “Bandeirantes e Pioneiros” (1955), que mais apropriadamente foi utilizado para uma apreciação filosófica da questão levantada - considerando, aliás, que o livro do escritor gaúcho constitui uma das mais relevantes contribuições à sociologia brasileira. Pois de fato Vianna Moog salienta a importância, no catolicismo, da figura simbólica de Maria de Betânia (a segunda Maria, sendo a primeira, Nossa Senhora, a Mãe de Cristo, e a terceira Maria Madalena), assim como a de Marta no protestantismo. No relato evangélico, percebendo Maria sentada aos pés do Senhor, Marta, “que é toda atividade e trabalho, não se sofre que não interpele: Senhor, a ti não importa que minha irmã me deixe assim sozinha a fazer o serviço? Dize-lhe pois que me ajude”, recebendo de Jesus a seguinte admoestação: “Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas. No entanto, pouca coisa é necessária... Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada”, pois não só de pão vive o homem.
Se tal é o caso, poderíamos classificar as três personagens reunidas em casa de Lázaro, em Betânia - um subúrbio a leste de Jerusalém e passagem necessária para a capital da Palestina - como simbolizando, respectivamente, Judas o socialismo marxista; Maria, o catolicismo, e Marta, a ética protestante descrita por Weber ou, conforme a interpretação de Vianna Moog, representativa da alma “ativíssima que mais se afana no cuidado da casa que no cuidado de edificar-se pela contemplação”. Em poucas palavras, eis a lição a ser tirada: acontece que a pobreza pode hoje ser eliminada pelo desenvolvimento capitalista, como o foram o canibalismo, o acompanhamento na morte, o sacrifício do primogênito, a escravidão, o duelo ou a varíola, de tal modo que protestos de "justiça social", do tipo que Judas externou nesse episódio, não mais se justificam, apenas representando uma espécie de “traição” ao verdadeiro espírito do Cristianismo. Maria de Betânia configura, por outro lado, o misticismo e amor à liturgia mais característicos do Catolicismo, ao passo que a atitude dinâmica e utilitária de Marta se poderia interpretar como expressiva da ética pragmática e intramundana dos puritanos anglo-saxões, preocupados com o trabalho e a “administração da casa” (oiko-nomia).
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