Pensadores Brasileiros       

Artigos de José Osvaldo de Meira Penna

Período de 21/1/1998 a 15/10/2001
Total: 83 artigos
 

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- O Dinossauro
- Em Berço Esplêndido
- O Espírito das Revoluções
- A Ideologia do Século XX
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DO QUE ESTAMOS SOFRENDO

Jornal da Tarde 01 novembro 1999

J.O. de Meira Penna

No importante editorial de segunda-feira 4 do corrente, sob o título “Do que nós vamos morrer”, o JORNAL DA TARDE denunciou, em tom irônico mas tanto mais contundente, a hipocrisia e desfaçatez dos juízes do Supremo e particularmente um deles que, num exibição de cinismo pouco comum, se queixou de “ter que vender o automóvel novo recém comprado a prazo”, se não fosse, “judicialmente”, desmontada a iniciativa do Executivo de descontar uma parcela dos vencimentos do funcionalismo público, na tentativa de re-equilibrar as contas públicas, ameaçadas pela crise da Previdência. A 13 do mesmo mês, apreciei um outro editorial, do Sr. Alípio Severo, que se refere em tom tragicômico à “mãe de todas as crises” que estamos atravessando. O professor universitário descreve como sempre temos vivido “à beira do abismo”, comentando com toda pertinência que essas crises são de natureza política e só indiretamente afetam nossa existência como cidadãos privados. Como aposentado, que se exprime hoje nessa categoria de privacidade e vive há 62 anos às custas do erário, inicialmente como diplomata, depois como professor de universidade federal e agora como beneficiário do sistema, quero juntar-me aos perplexos com o presente estado de coisas. Confesso mesmo que, observador engajado, em determinados instantes tão fortemente irritado me sinto que passa pela minha cabeça a frase ouvida de um colega mais velho, lá por volta de 1938 quando por concurso entrei na carreira: “o ideal é viver longe do Brasil mas a custa dele”... Por que não me juntar ao mais de um milhão de outros brasileiros que, fartos de sofrerem com as mazelas relatadas, já daqui se foram para praias mais civilizadas? Como muitos outros, fico nauseado ao diariamente ler nos jornais e assistir na TV a um noticiário quase que exclusivamente dedicado à explosão de criminalidade, à corrupção, inépcia, desordens nas ruas, manifestações grotescas da burritzia tupiniquim e cenas aberrantes como a do bispo católico, com um quepe ridículo na cuca asinina, se juntando a uma multidão de baderneiros na Praça dos Três Poderes, e a de um ex-presidente da República, notório por sua debilidade mental e falta de compostura, que intenta por métodos grotescos torpedear o processo de privatização de estatais.

Entretanto, vejam bem minha pergunta: o que os editorialistas denunciam são atos do governo, mas o que é o governo? O entranhado personalismo brasileiro, o concretismo afetivo de nossa tradição cultural - a que dedico 500 páginas de análise psicológica no livro que acabo de publicar, “Em Berço Esplândido” - definem o governo como sendo Fulano ou Beltrano. O Sr. Parsifal Barroso, velho político que conheci há anos, esclareceu-me o problema ao relatar sua experiência quando chegou a um lugarejo do sertão do Ceará e ouviu os caipiras se apressarem aos gritos “Lá vem o governo! Lá vem o governo”! Existe uma incapacidade inata de nossa gente em compreender o Governo como uma entidade abstrata, uma instituição de que somos responsáveis e composta não só de Três Poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, mas de doze mil outras entidades estaduais e municipais autônomas, todas elas igualmente divididas e em grande parte anarquizadas. Vê-mo-lo como uma espécie de “pessoa” trancendente. O Governo é um Papai-Mamãe que nos vai garantir a subsistência, contanto que voluntariamente a ele nos integremos como dependentes. O professor Severo fala sarcasticamente nas eternas e deploráveis vicissitudes de nossos governos, nossas presidências, inúmeras “repúblicas”, regimes e constituições. No entanto, não é a instabilidade o que caracteriza nossa estrutura política propriamente dita, é sua fantástica estabilidade. Há 62 anos que religiosamente recebo meu contracheque no fim do mês e, sólido como o Pão de Açucar, este, salvo episódios passageiros, jamais cessou de crescer. O verdadeiro regime do país é o Patrimonialismo. O Patrimonialismo pode ser definido como a existência de uma classe privilegiada de dez e doze milhões de pessoas, com outros tantos dependentes, todos assegurados em seus “direitos adquiridos”. Alguém então se admira que o Ministro Presidente do Supremo pode comprar automóvel novo e o Ministro da Fazenda não pode alcançar o equilíbrio fiscal?

Compilado em 28/10/2001
Fonte: Vários sites na Internet

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