Pensadores Brasileiros       

Artigos de José Osvaldo de Meira Penna

Período de 21/1/1998 a 15/10/2001
Total: 83 artigos
 

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Segunda-feira, 30 de abril de 2001 

Entrevista com Karl Marx 

J. O. de Meira Penna 

Uma amiga minha, a escritora e socióloga da Universidade de Londrina Maria Lúcia Victor Barbosa, conseguiu o furo extraordinário de uma entrevista com Marx. Não o dos jardins ou os das comédias burlescas, mas Karl, o próprio. 

Maria Lúcia já revelou os termos principais do encontro em artigo. 

Permito-me aqui acrescentar pormenores que não constam da conversa. A maneira como o famoso guru da esquerda se apresentou, com botas à moda Bush e Fox, calças jeans de grife e camiseta com dizeres "Always Global"; e seu pedido de Coca-Cola, hambúrger e lanche no McDonald's já são, por si, surpreendentes. Mas algumas das opiniões do barbudo, de cabeleira branca desgrenhada, merecem ênfase especial. 

Comentando sobre a camiseta, Marx logo explicou que sempre foi a favor da interdependência geral das nações e crítico da estreiteza e exclusivismo nacionais. A soberania nacional se tornou impossível no ambiente cultural e com os progressos milagrosos da tecnologia, como aliás já salientara no primeiro documento que o tornou notório, o Manifesto de 1848. Na época, ele tinha apenas 30 anos. 

A professora londrinense se espantou com o desconhecimento desse documento por parte dos inúmeros discípulos que o alemão de Treves congregou no Brasil. Tudo que ele dizia cuidadosamente anotado por Maria Lúcia, Marx imediatamente retrucou: "Nunca fui marxista, Gott sei dankt! Grande número de meus princípios foram deturpados... Mediante a exploração do mercado mundial, que está hoje inteiramente globalizado como previ, a burguesia deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo global... Mas também a produção intelectual de uma nação se converte em patrimônio de todas. Veja, justamente, o que ocorreu com meus próprios escritos em alemão e inglês. Não admiro que o inglês se esteja transformando em língua franca. É fácil e extremamente prática. Foi por isso, aliás, que fui morar em Londres. Para dizer com franqueza, pensei até em Nova York, para um de cujos jornais contribuí. Na época da guerra com os mexicanos, fui francamente do lado dos americanos... Eles representam o progresso. Sou contra o atraso e superstições desse lixo de povos que andam por aí, quase duzentos hoje em dia, e não me cansei de escrever a favor do desenvolvimento de todo o planeta... Sem esse desenvolvimento as condições para a emergência do socialismo não ocorrerão..." 

A professora Victor Barbosa ousou interromper: "Herr Marx, o sr. ainda acredita no triunfo final do socialismo? 

Marx: O Imposto de Renda e sobre as heranças, a educação primária gratuita, a extensão universal do voto e a mecanização da indústria, com a informática e os robôs, representam inovações no modo de produção que eu não podia prever na época em que redigi Das Kapítal. Aliás, eu mesmo não consigo mais ler esse livro enorme. É chato. Muito chato. Mudei de opinião desde então. 

As conquistas socialistas já foram, em grande parte, realizadas pelo capitalismo. Pensei que ele era tardio. Hoje, não penso mais assim. O capitalismo está iniciando vida nova com a globalização, dita liberal, e graças aos métodos democráticos dos americanos que o mundo inteiro está adotando. 

ML: Então me fale sobre sua nova visão do mundo... 

Marx: A globalização que eu previ... insisto que fui um dos primeiros a prevê-la, transformou o mundo. Meus ex-discípulos, Lenin e Mao, por capricho e arrogância, não prestaram atenção no ponto essencial de minha doutrina. A revolução nunca poderia ser feita num país atrasado nem por camponeses (camponeses russos e chineses, imaginem, tudo que há de mais reacionário no mundo!)... e, muito menos, pelo Lumpen. 

ML: O Lumpen? 

Karl: Certo, o Lumpen... essa corja de intelectuários ressentidos e à cata de empregos públicos que aquele outro suposto discípulo meu, Antonio Gramsci, um corcunda neurastênico da Sardenha metido a hegeliano, propôs como devendo conquistar o poder hegemônico e encabeçar a Revolução... 

ML: Então, professor, quem o senhor pensa que vai dirigir o novo movimento revolucionário global? 

Marx: Ora, é óbvio! São os técnicos, os empresários criativos, homens como Bill Gates. Tenho a maior admiração por ele! O futuro está em suas mãos... E me diga, frau Barbosa, já lhe pedi: aqui servem cerveja alemã, a Kaiser?" 

J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br

Compilado em 28/10/2001
Fonte: Vários sites na Internet

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