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Segunda-feira, 15 de outubro de 2001
Globalização e ódio antiamericano
J. O. de Meira Penna
O trágico episódio do terrorismo em Nova York serviu para revelar a ambivalência dos sentimentos que cercam os EUA em todo o mundo. De um lado, a vida americana oferece um paradigma de aplicação universal, particularmente para os jovens que imitam a moda, o tipo de diversão e as extravagâncias da modernidade. Basta um cowboy de jeans no Ohio colocar o boné com a pala para trás e, logo, do Acre a Sumatra e da Patagônia a Ucrânia, toda a mocidade imitará a novidade. O cinema e a tevê tudo globalizam, o bom e o mau. Os EUA são o maior foco de imigração e o vórtice de irradiação de modelos do mundo. Milhões de estrangeiros, dos quais de 3 milhões a 5 milhões de clandestinos já votaram com os pés seu "americanismo" incoercível, expatriando-se para o indigitado país da "arrogância imperialista", do "intervencionismo agressivo", do capital, do lucro, das bolsas de valores e de outros "abusos de violência e obscenidades" de que é acusado. Com o trauma de 11 de setembro, a polarização se acentuou e não só em nosso país. Juntamente com manifestações quase universais de simpatia, Tio Sam também é moralmente agredido pelas multidões globalmente afeganizadas, de gatos-pingados histéricos, maltrapilhos, vociferantes e celebrando a macumba ritual de queimar a bandeira americana. É como se expelissem sua própria ignorância, impotência e miséria, tornando-se imediatamente objeto da prestimosa atenção da comunicação eletrônica, inclusive da CNN. Já vivi 14 anos em países da Ásia, mas de repente enfrento, numa ruela imunda de Peshawar, um endiabrado haxixim de turbante, aos gritos Allahu Akbar!
A polarização que menciono tem a vantagem de definir posições. A Veja de 3 de outubro registrou, adequadamente, o vírus que infecta os reacionários, transformando demagogicamente a vítima do terror em culpada do crime mundializado. No londrino Sunday Times (Estadão de 30 de setembro), uma análise extremamente perspicaz é feita por Bryan Appleyard da questão "Por que Eles Odeiam a América", na mesma linha, aliás, do eminente historiador Paul Johnson. A curiosidade é que os que se manifestam contra a globalização globalizam instantaneamente, pela Internet global, os boatos, as calúnias, os insultos, a desinformação e as mentiras de autoproclamados "analistas políticos", talvez um grego da Beócia ou um beócio da tevê contra cultura.
Nenhum compreende que "direita" ou "esquerda" grega, brasileira, americana, sudanesa, hondurenha, indonésia, ou o que seja, se inflamam por um único objetivo: fechar seus respectivos países ao mundo global. Todos são "talibans" de espírito... Na verdade, a cambada que vomita slogans, os bovinos franceses que abominam o McDonald's, as vacas loucas gaúchas mobilizadas por seu chefão bigodudo, ou o povaréu agitado que consome heroína em Seattle ou Davos, todos são motivados por um mesmo impulso.
O antiliberalismo, conforme diagnostica o professor inglês David Henderson, é o milenarismo utópico coletivista do novo milênio. É a esperança de não ser assediado pela cacofonia vertiginosa de todas as procedências, a nostalgia da pequena comunidade fechada e "solidária", dentro de suas tradições originadas na alta Idade Média. É o atraso da aldeia perdida nos confins do Piauí ou nos áridos píncaros do Karakorum, o cárcere privado voluntário de quem se alimenta da inveja e do ressentimento, essa reação emotiva do "homem do rebanho", inferiorizado e babando ódio contra o rico, o inteligente e o poderoso. Do homem que teme a liberdade e a mudança. Em suma, a oposição ideológica que hoje divide o mundo é a que opõe a sociedade aberta à sociedade fechada, machista, desconfiada, cruel, fanática na sua "submissão" à ordem patriarcal (Islã). O assassino é, de fato, um ressentido que usa o único método de luta por suas idéias dogmáticas. A nossa, a sociedade aberta, é uma só, é mundial e nela coabitam homens e mulheres de muitas raças, religiões, convicções, opiniões, práticas, instituições e organizações diversas. E porque é livre é vulnerável. Por isso um muçulmano pode entrar em Roma, construir sua mesquita na frente da nossa embaixada em Washington ou orar na Esplanada do Templo em Jerusalém, enquanto um brasileiro católico, um americano protestante ou um judeu russo não podem entrar em Meca.
J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília
e-mail: meirapen@zaz.com.br
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