Pensadores Brasileiros       

Artigos de José Osvaldo de Meira Penna

Período de 21/1/1998 a 15/10/2001
Total: 83 artigos
 

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3 de abril de 2000 

Maniqueísmo, ignorância e mendacidade

J. O. de Meira Penna

Numa de suas obras principais, A Nova Ciência da Política, atribui Eric Voegelin a Dario Hystapis, o xá que fundou o império persa no século V a.C., a primazia de um fenômeno ominoso que perdurou até nosso século. Após haver sido integrado à civilização ocidental, ele constitui, na verdade, a essência da ideologia, essa “religião civil” de nossa época. Trata-se da iniciativa do rei Aquemênida de atribuir a si próprio a defesa do Bem e da Verdade, projetando sobre seus adversários, quaisquer que fossem, a pecha de serem os defensores da mentira e do mal. A origem dessa dicotomia ética aplicada à política se encontra no próprio dualismo original da religião dos iranianos, desde que seu fundador, Zarathushtra ou Zoroastro, cindiu em dois a divindade, concedendo a Oimudz ou Ahura, o “grande satã”, deus do mal e da mentira. O dualismo transcendente tomaria uma forma mais pronunciada nos ensinamentos de um outro profeta, Mani ou Manichaeus, que viveu 800 anos depois e influenciou as seitas gnósticas de princípios de nossa era. Fundador de uma religião conhecida como maniqueísmo, Mani contaminou de mitologia mágica dualística todas as heresias que ameaçariam a ortodoxia católica na Idade Média, Cátaros, Albigenses, etc. Não nos esqueçamos que S. Agostinho, o maior filósofo cristão, professou o maniqueísmo em sua mocidade, a tal ponto que muitos críticos reconhecem em sua teologia reminiscências do dualismo ético, tão entranhado agora na mente humana que é difícil dele nos libertarmos.

Foi Agostinho, no entanto, quem melhor desenvolveu a interpretação correta que S. Paulo fez do Evangelho de Cristo, segundo a qual é em nós mesmos que devemos procurar a oposição entre o Bem e o Mal. No maniqueísmo, ao contrário, somos nós, seus professos, donos da verdade e da justiça, enquanto detestáveis são aqueles que não pensam como nós porque portadores da maldade e da mentira. É fácil avaliar a importância dessa psicopatologia na postura do ideólogo moderno, fiel ao cego dogmatismo de suas estapafúrdias doutrinas e sempre disposto a acusar o mentiroso, injusto, perverso e egoísta seus adversários. A dialética do Bem e do Mal que o maniqueímo provoca leva o alegado defensor da Verdade a recorrer a qualquer instrumento para eliminar o Outro. A faca do assassino (do árabe, hashishim, comedor de haxixe), os fogos da inquisição, o Gulag e Auschwitz, a bomba terrorista da “guerra santa” dos aiatolás, o tiro na nuca no porão da KGB e o paredón para punir o traidor vendido aos interesses, tornaram-se banais em nossa época. Orwell descreveu magnificamente o “duplo-pensar” totalitário que justifica o crime. O ideólogo pensa estar defendendo a justiça e a verdade de tal modo que a prisão moscovita se transforma em “amorzinho” (Lubianka) e o genocídio é a justa recompensa dos “capitalistas burgueses”. Voegelin descobre traços do processo psicopatológico que cinde a realidade histórica, necessariamente complexa e cinzenta, na simplicidade dualística do branco x preto ou, como se prefere hoje dizer, da “esquerda” e da “direita”. O nazismo e o marxismo, em suas várias vertentes, são as manifestações mais clamorosas da enfermidade mental. Claro. O nacionalismo xenófobo se tornou, porém, a partir da 1a Guerra Mundial, a expressão coletiva mais banal da esquizofrenia paranóica. A corrupção da verdade em seu posto, a Grande Mentira dialética, é também suscetível de ser diagnosticada como Pseudologia Epidêmica ou Pseudodozia Fantástica. Assim como o católico atribuía ao protestante todos os males, o nazista os atribuem aos judeus, o marxista aos liberais e o latino patrioteiro aos americanos.

Compilado em 28/10/2001
Fonte: Vários sites na Internet

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