Pensadores Brasileiros       

Artigos de José Osvaldo de Meira Penna

Período de 21/1/1998 a 15/10/2001
Total: 83 artigos
 

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NOVO SÉCULO, NOVA ORDEM GLOBAL

Jornal da Tarde, 10 janeiro 2000

J.O. de Meira Penna

A mudança de século e milênio estimulou o gênio futurista de muitos auto-proclamados profetas, que nos apresentam sua visão esplendorosa das coisas por acontecer. Ora, a verdade é que, com a deplorável exceção de nossa própria morte, nada sabemos de certo sobre o futuro. O futuro virá, nos termos dos Evangelhos, "como um ladrão durante a noite"... Há certos fenômenos, contudo, que parecem irreversíveis e que podem ser antecipados com alto grau de probabilidade. Um desses é a globalização. Nunca tive a sensação mais perfeita do que está ocorrendo em escala mundial do que ao assistir, na TV, as celebrações sucessivas da meia-noite de 31 de dezembro, em várias cidades, espalhadas pelas 24 faixas horárias do planeta. A primeira certeza que se impõe é a seguinte: o calendário mundial, mesmo em locais de outras áreas de cultura como Beidjing - onde o Novo Ano do Dragão ainda não começou, e em Jerusalém onde os muçulmanos terminavam o jejum do Ramadhan e os judeus comiam a primeira refeição do Shabat - é o calendário ocidental, dito Juliano, corrigido pelo papa Gregório XIII em 1582. É um sistema meramente convencional, destinado a comemorar o que se pretende seja a data aproximada do nascimento de Cristo. Que a convenção tenha aceitação universal, eis o ponto altamente relevante. Mas uma série de outras convenções, de origem ocidental, se universalizaram. Além do Calendário, a língua franca universal é o inglês e o alfabeto é latino, superando o grego, o cirílico, o árabe, o hebraico, o hindu, o tailandês, etc. Só sobreviverá possivelmente a escrita ideográfica chinesa, em virtude de seus méritos tradicionais, valor artístico e filosófico. Nesse sentido, paradigmática foi a iniciativa de Kemal Atatürk de adotar a escrita latina, que facilmente se adapta à língua da Turquia, com o propósito deliberado de prejudicar a leiturea do Corão e assim combater o Fundamentalismo exclusivista islâmico. O mesmo se dá com a quase universal aceitação do sistema métrico, oriundo da Revolução francesa e de tão magnífica simplicidade, junto com a medição da temperatura pelos centígrados do sueco Celsius, mais racionais do que o sistema do alemão Fahrenheit. O estranho paradoxo é que Grã-Bretanha e Estados Unidos, os países ditos mais "avançados" do mundo, sejam os únicos que ainda se recusem a adotar o sistema decimal.

A globalização é mais óbvia na área econômica. Não culpem só o Liberalismo e Livrecambismo de Adam Smith e Hayek por ela. Além dos interesses comerciais que inspiraram os homens a abrirem a Estrada da Seda na antiguidade, as viagens de Marco Polo e Piano Carpini à China no século XIII, e as de Vasco da Gama, Colombo e Fernão de Magalhães consolidaram efetivamente a globalização geográfica. A curiosidade humana e o sentido de universalismo humanístico implícito na primeira religião que se proclamou "universal" (o Catolicismo, do grego kath holon) tanto contribuiram para a extensão da visão de "Um Só Mundo" quanto o impulso natural de troca recíproca de mercadorias, imagens e idéias. A velocidade e extensão dos transportes e comunicações constitui, evidentemente, o grande fator de aproximação dos povos. São hoje a Informática e a Internet o que multiplica por mil a capacidade de intercomunicação global de todos os habitantes do planeta. Se possuo um Computador americano com um Monitor fabricado em Tijuana, um No-Break brasileiro e o Fax da Panasonic japonesa fabricado na China, não preciso saber se os fabricantes de tais produtos são budistas, brancos, ameríndios, monárquicos, comunistas, poligâmicos e que sexo, língua, cor ou nacionalidade possuem. Afinal de contas, contrariamente aos preconceitos da Esquerda, não precisa o senador Roberto Freire se preocupar se os Liberais, comemos criancinhas. Na verdade, criancinhas só estão sendo ocasionalmente comidas por camponeses da Coréia do Norte, que morrem de fome porque seu governo comunista não aceita a globalização. É este, em suma, o grande princípio-base do novo século e o desafio, também politico, que terá de enfrentar. Pois a Nova Ordem Espontânea Global se está estendendo independentemente da vontade de nossos governantes e sem que nos demos conta disso.

Compilado em 28/10/2001
Fonte: Vários sites na Internet

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