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Segunda-feira, 4 de setembro de 2000
O novo livro eletrônico
Na aurora da História era a transmissão do pensamento efetuada exclusivamente por via oral. Até a época dos gregos e romanos, ainda se respeitava essa forma restrita de comunicação - sendo o cultivo da memória importante não só na retórica, mas para a transmissão da cultura. Platão ainda a isso se refere no Phaedrus (274). Recordemos que três dos homens que maior influência exerceram sobre a Humanidade, Sócrates, Gautama Buda e Cristo, nada escreveram. A primeira grande revolução cultural foi a invenção do livro pelos egípcios. A segunda, como se sabe, teria ocorrido originariamente na China, mas só em meados do século 15 teve impacto universal, com Gutenberg (+1468). Entre outras coisas, a tradução e impressão da Bíblia teve como resultado a Reforma Protestante, simplesmente.
Estamos agora no limiar do terceiro desses grandes saltos culturais, o texto eletrônico - ou seja, na tela do computador e sua transmissão e venda via Internet. Na década de 60, Marshall McLuhan profetizou a globalização da transmissão eletrônica com o desaparecimento do livro. Na realidade, o que está ocorrendo é um enriquecimento, barateamento e universalização dos processos mais avançados, sem prejuízo das formas escritas anteriores. O fato que nos comunicamos pela Web não impede que continuemos a conversar e ler livros - um método muito prático e confortável demais de manuseio para ser abandonado. Na Biblioteca Pública de Nova York, 10 milhões de contatos por e-mail são registados mensalmente, contra 50 mil livros emprestados. O próprio Bill Gates confessa que avanços tecnológicos radicais terão de ser inventados antes que possa a telinha substituir tudo aquilo que podemos trabalhar numa folha de papel.
De qualquer forma, as editoras, as livrarias e as bibliotecas devem preparar-se para grande declínio proporcional diante dos avanços da Web.
Falando da "Próxima Revolução nos Livros" na New York Review of Books de 27 de abril, Jason Epstein, admitindo embora que a publicação de livros é uma atividade artesanal mais do que um negócio convencional, confessa que os publishers mais famosos, Random House, Knops, Doubleday, Putnam, Scribner, enfrentam problemas sérios, eis que todos os livros não podem ser best sellers - obrigando-os a se integrarem a grandes corporações cujos lucros dependem de outras atividades. Pior ainda é a situação no mercado livreiro.
Os gastos de infra-estrutura são cada vez mais elevados, de maneira que a solução se encontra nas grandes redes de venda pela Internet como a gigantesca Amazon. Mesmo uma rede tão prestigiosa quanto a Barnes & Noble suplementa a precariedade das lojas pelo recurso à eletrônica. Sobreviverão as editoras universitárias para livros especializados e filosóficos. Um autor de enorme produtividade de best sellers estilo "terror", Stephen King, resolveu de outro modo. O homem escreve, imprime, encaderna e vende seus livros em casa, com telefone, Internet e uma Xerox Document Binder 120.
No Brasil, embora ainda em menor escala, o mesmo fenômeno se está registando. O brasileiro pouco lê e a sobrevivência do livreiro individual se faz precária. O crescimento explosivo do computador é uma solução. As grandes redes como a Saraiva, a Siciliano, a Nobel se expandem - enquanto sobrevivem as editoras clássicas quando apoiadas por outras empresas ou sustentadas por um ramo ou título particular. Exemplo: a Nova Fronteira que vive do dicionário Aurélio. Ora, essa situação dramática cria problemas para quem, modestamente como eu, deseja publicar suas obras. Estou, conseqüentemente, recorrendo às editoras eletrônicas. Já dois títulos publiquei por uma pequena empresa pioneira do Rio. Ai que Dor de Cabeça! é um opúsculo leve de 55 páginas contendo "alguns dados informativos e sugestões para aqueles que sofrem de enxaqueca". E Urania é uma espécie de romance de ficção científica onde, em tom satírico, discuto a conquista do espaço, discos voadores e ETs, e a Pluralidade ou Singularidade dos Mundos Habitados. Podem ambos ser encomendados por e-mail à editor&papelvirtual.com.br. A vantagem do sistema é o baixo custo de investimento e resultante baixo preço de capa. Estou negociando com uma recém-fundada editora eletrônica de São Paulo, www.ieditora.com.br, relacionada com as Livrarias Nobel, para que acolham três outros títulos de minha autoria. Um campo enorme de possibilidades está surgindo. Aproveitem!
J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br
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