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OS ‘HASHISHIM’
*José Osvaldo de Meira Penna
Segundo o Aurélio, o termo assassino procede dos "comedores de haxixe" (uma espécie de maconha) que constituíram uma seita ismaelita, notável por seu pendor homicida, na Pérsia do século XI. Ramo heterodoxo do Xiismo, os "assassinos" eram seguidores de um fanático, Hasan ibn Sabbah, que, controlando fortalezas inexpugnáveis na Síria e no Irã, mataram em ataques suicidas o primeiro dos grandes sultãos turcos, Alp Arslan, e vários vizires – sendo finalmente eliminados pelas invasões mongóis. Eles herdaram do Xiismo uma crença extrema na obediência cega ou submissão (Islam). Na paixão e valor do sacrifício, com recompensa final no paraíso de bem-aventurança que o haxixe proporcionava, eram fortemente influenciados pelo maniqueísmo que os proclamava únicos servos do verdadeiro Deus, defensores do Bem e destinados a morrer numa "guerra santa" (jihad) contra todos os infiéis, cultores de Satã – que seríamos todos nós... No período entre as duas guerras mundiais, quando o Islam começou a ressurgir de séculos de modorra e declínio, muitos observadores, atentos ao fenômeno do nacionalismo árabe, apontaram para o fato que o próprio Islam é uma reação histórica dos povos do Oriente médio contra a civilização greco-romana, posteriormente cristã, que se estendera com as conquistas de Alexandre. Hermann Keyserling foi o primeiro a comparar o nazismo ao Fundamentalismo xiita. O reverso seria mais verdadeiro: o mesmo ódio, o mesmo pendor belicoso, assassino e suicida. Naturalmente, os povos orientais, turcos, indianos, indonésios, malaios ou chineses que, nos mil anos da expansão do Islam, se converteram à mensagem do Profeta, não herdaram a mesma tendência anti-ocidental porque seus inimigos pagãos eram asiáticos. Mas no coração do Fundamentalista xiita está o inextinguível rancor contra a Europa e tudo que ela representa. Só podemos explicar o furor irracional dos palestinos contra Israel porque é este uma cunha ocidental no próprio âmago do Islam: os judeus foram traidores que ensinaram a Maomé tudo que escreveu no Corão, mas recusaram a conversão que o Profeta lhes oferecia. A posse da Esplanada do Templo em Jerusalém é um símbolo da feroz ambivalência em relação à Cidade Santa das duas outras religiões, embora o único título que a ela possuam seja a lenda que Maomé a visitou, montado no cavalo alado Barak, para de Deus receber a Revelação. Mas não são as Mil e Uma Noites a obra de imaginação mais desvairada e o que de mais eminente criou a literatura árabe? Foi contudo a contaminação do Xiismo pelo dualismo iraniano e o maniqueísmo, acoplado com a paixão suicida dos que desejam vingar a morte de Hussein (ano 680), filho de Ali, o genro do Profeta, também assassinado pelas rivalidades políticas dos sucessores – o que explicaria essa fúria sanguinária dos sectários. Os dados históricos acima oferecidos procuram dar uma explicação religiosa e psicológica dos motivos pelos quais o Fundamentalismo islâmico se transformou no mais perigoso adversário do movimento de globalização econômica, política e cultural que se regista no novo milênio. Uma religião de cega "submissão" ao ímpeto assassino, como forma de cultuar o Deus da Verdade e eliminar os partidários do Grande Satã, não pode senão recorrer a esse tipo particularmente nojento de combate.
Certo, o terrorismo não é unicamente islâmico. No cerne da cultura da esquerda jacobina romântica, gerada por esse outro falso profeta paranóico que foi Rousseau, está encravado o terrorismo. O Terror foi o produto da violência revolucionária da França de 1793. Tratava-se de purificar a humanidade, cortando a cabeça dos méchants, dos ricos e poderosos que oprimem os "miseráveis". Uma cultura xiita, propriamente ocidental, acompanha a evolução da democracia pela mão esquerda, literalmente sinistra, de mau agouro, funesta e mortal, da equação ideológica sob a qual vivemos. O terrorismo é sua arma predileta. Sobretudo agora que o poderoso suporte geo-político que o sustentava, a URSS, desmoronou de uma maneira menos ruidosa do que o World Trade Center. Terrorismo, o estamos descobrindo por toda a parte. O mundo saiu da Idade das Guerras para penetrar na Idade do Crime. Facção Vermelha na Alemanha, IRA na Irlanda, ETA na Espanha, FARC na Colômbia, Montoneros na Argentina, Che Guevara em Cuba e na Bolívia, e os asseclas do Marighela que o Exército Brasileiro desbaratou na década dos Setenta são versões diversas, de variada virulência, do mesmo fenômeno que Bin Laden representa no Oriente Médio. Vide o recente livro A Grande Mentira, do general Aguinaldo Del Nero (Edit. Biblioteca do Exército). Atualmente, o MST é o germe da nova transmigração. Lula, Chávez e Fidel já se apresentam como os patronos do novo Xiismo fidelista-bolivariano-tupiniquim. Não me admiraria se, caso sobreviva, seja o milionário saudita convidado para encabeçar o gigantesco "Foro Social" que o bigodudo governador gaúcho está planejando para o próximo ano. O "marketing" já está sendo preparado quando vemos uma locutora da TV-Cultura fazer a apologia da destruição do WTC, sugerindo que o "Grande Satã" está em declínio, eis que não consegue nem mesmo defender o coração de seu poder financeiro e militar contra sua própria "extrema-direita" – o que dá uma idéia, aliás, do tipo de informação que o MEC está fornecendo à juventude brasileira. O fato é que, em todo o mundo e não somente entre os palestinos, a esquerda sinistra, totalmente irracional, exultou com o golpe "mortal" dado ao "imperialismo"...
Mas examinemos agora a reação ao atentado. A democracia liberal sofre, infelizmente, de sua própria natureza tolerante. A impunidade é freqüentemente confundida com "direitos humanos". A explosão de criminalidade em nosso país resulta do próprio bom-mocismo governamental, sendo regularmente interpretado como resultante não da perversidade do criminoso, mas de vários alibis sociais e responsabilidade da polícia. O Mundo Livre sofre do mesmo mal. A imprevidência e falhas na segurança dos aviões demonstram que, se suas autoridades foram apanhadas "descalças" (with their pants down...), a culpa é do comodismo de uma próspera e pacífica população que não sofreu qualquer invasão estrangeira, desde a guerra de 1812.
Como vão os americanos reagir? Todos os potenciais inimigos dos USA já estão humildemente se ajoelhando, pedindo condescendência, inclusive o bravo Fidel! Bush fala ominosamente em retaliação. Mas retaliação contra quem? Contra a Argélia, com um governo militar que luta desesperadamente contra Fundamentalistas? Contra Gadafi na Líbia, cuidadosamente calado desde o bombardeio de 1986 contra seu valhacouto de piratas aéreos? Contra o Líbano, a Jordânia, o Egito, a Arábia Saudita, esta última terra natal de Bin Laden, todos aliados dos USA e sofrendo na carne os ataques de seus Fundamentalistas indígenas? Contra o Irã dos aiatolás, em luta interna de seu Presidente eleito contra os extremistas religiosos? Contra a Síria dos Hezbollah e do Jihad, inimiga implacável de Israel, mas sob nova liderança, mais moderada? Será contra o Iraque onde permanece o déspota presunçoso, duas vezes derrotado mas continuando a desafiar a OTAN com suas fábricas secretas de engenhos nucleares, biológicos e gazes venenosos? Contra o Turcomenistão e Kazaquistão, fronteiriços do Afeganistão? Contra o próprio regime machista mais detestável da área, o Taliban que apedreja mulheres, destrói monumentos budistas, mata a torto e a direito e acolhe o terrorista-mor? Provavelmente, este será "expulso" e se esconderá na região montanhosa mais inacessível do planeta, o Pamir. Como apanhá-lo? Vamos assistir, dentro em breve, a uma das mais extraordinárias novelas de aventura do cinema, a não ser que Kabul compre sua segurança, entregando o criminoso.
Em princípios do século passado, Theodore Roosevelt pronunciou uma frase famosa que, desde então, tem sido interpretada para denunciar o "imperialismo" ianque: "Fale de mansinho e carregue uma borduna!" Quem melhor conhece a história sabe que Cuba e as Filipinas foram por ele libertadas dos espanhóis e da arrogância colonial européia contida na Venezuela, Panamá e República Dominicana. Os que temem o poder hegemônico dos Estados Unidos ou crêem em seu declínio estão muito enganados. Na luta entre "o bandido e o mocinho", saiam da frente quando este se zanga. Genocidas como Lênine, Stáline, Mao Dzedong e Polpot escaparam da fúria. Hitler e Tojo não. O terrorismo é a nova forma, a mais covarde e horrenda de combate no novo século. Mas aguardemos o revide do xerife do Liberalismo e do Capitalismo global...
* O autor é Embaixador e Professor aposentado -- meirapen@zaz.com.br
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