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Segunda-feira, 3 de setembro de 2001
Papai Noel não existe!
Há poucos dias, revelando uma admirável paciência, franqueza e sobriedade, o ministro da Fazenda viu-se diante da penosa contingência de revelar aos excelentíssimos e atônitos senadores um fato para eles surpreendente, a saber: Papai Noel não existe! Anos atrás, num contexto menos dramático, o economista americano Milton Friedman, guru da renomada Escola de Chicago, já se expressara de modo semelhante, insistindo: "Não há almoço gratuito" (There's no free lunch). É verdade que, a nível individual, talvez a maioria de adultos não mais acredite na existência dessa figura simpática, de barbas brancas, manto escarlate e ar paternal, descendo uma vez por ano da chaminé, no Natal, para distribuir presentes aos necessitados, que somos todos nós.
Coletivamente, porém, o povo brasileiro sempre supôs que, retribuindo a amabilidade de Lhe concedermos nossa própria nacionalidade, Deus Pai Todo-Poderoso, em seu infinito amor, derrama benesses a todos aqueles que, nesta terra privilegiada e cheia de encantos mil, assim o homenageiam.
Afinal de contas, ter almoço gratuito não passa de um direito natural. A noção está implícita e explícita, desde 1988, na soberba Constituição dos Miseráveis do "Dr." Ulysses.
Devemos ser instruídos, sem estudar. Já nascemos tão inteligentes, que a educação é supérflua. Temos comida, sem trabalhar. Remuneração, sem emprego.
Riqueza, sem esforço empresarial. Garantia de liberdade e vida, sem um Estado de Direito. Segurança, sem policiamento urbano. Feriados constantes, pois ninguém é de ferro. E gozamos por lei de muitos outros benefícios suecos, para bem de todos e felicidade geral da Nação. A lei aqui vigora, sem mesmo necessidade de ser implementada e respeitada. A Constituição nos assegura até nossa tão preciosa saúde (artigo 196), eis que todo aquele que ficar doente sempre pode pedir liminar ou mandado de segurança ao Judiciário o qual, com a diligência e acessibilidade que o caracterizam em seus modestíssimos aposentos, a concederá com a maior presteza.
Papai Noel está sempre atento. Funciona preferencialmente na administração pública. É, conseqüentemente, uma mera proposição apofântica que qualquer governante, sobretudo se pertencer aos quadros do PT como, recentemente, bem salientou João Melão, pode proibir o desemprego, eliminar por decreto a pobreza, suprimir por MP o déficit público, banir a inflação, reduzir o déficit público enquanto aumenta generosamente o número e remuneração de seus servidores, e forçar o desenvolvimento nacional sem o perverso recurso reacionário ao trabalho, investimento, lucro e poupança da economia de mercado, eis que tal sistema perverso apenas caracteriza a burguesia fascista, reacionária e exploradora, vendida aos interesses imperialistas dos Estados Unidos da América.
A existência de Papai Noel explica, por exemplo, o prodigioso avanço das Alterosas, 50 anos de progresso em 5, mercê da inteligência excepcional de seu governador, assessorado por um vice tão notório pelos traços apolíneos de sua figura e a natureza impoluta de seu caráter. Torna inteligível por que, em Minas, possa um deputado, coitadinho, ganhar apenas R$ 80 mil de honorário mensal por sua extraordinária dedicação ao bem público. A folha de pagamento do funcionalismo federal cresceu, de 1995 para cá, de R$ 37 bilhões para R$ 64 bilhões - prova evidente que, intermediário da Omnipresença celeste, sempre atento está Papai Noel aos sofrimentos e excruciante penúria de tão fiéis barnabés. Vejam a escandalosa miséria dos Fundos de Pensão do Banco do Brasil e da Petrobrás, obrigados a sobreviver com o parco rendimento de R$ 8 bilhões ou R$ 10 bilhões que cada uma dessas instituições investe na bolsa, violando embora o voto de pobreza dominicana e franciscana que a esquerdigreja tem aconselhado em Opção Preferencial pela Burrice. E se 40% do PIB desta pátria amada, idolatrada, salve, salve, é recolhido anualmente, das classes produtivas para encher as burras do Tesouro, é por mera extravagância, eis que bastaria deixar dormir os Três Poderes da República que, de dia, o setor privado dará no duro, trabalhando, trabalhando, trabalhando.
J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br
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