Pensadores Brasileiros       

Artigos de José Osvaldo de Meira Penna

Período de 21/1/1998 a 15/10/2001
Total: 83 artigos
 

Livros de J. O. de Meira Penna na Livraria Cultura

- Ai Que Dor de Cabeça!
- O Dinossauro
- Em Berço Esplêndido
- O Espírito das Revoluções
- A Ideologia do Século XX
- Utopia Brasileira

Procure o livro dos seus pensadores favoritos na Livraria Cultura!


Livros de J. O. de Meira Penna no Submarino

- Ai Que Dor de Cabeça!
- Decência Já!
- O Elogio do Burro
- Em Berço Esplêndido
- O Espírito das Revoluções
- A Ideologia do Século XX
- Utopia Brasileira

Procure o livro dos seus pensadores favoritos no Submarino!

A lição amarga do episódio de Calcutá, o espetáculo de miséria e humilhação da população chinesa em Xanghai sob ocupação nipônica, a amizade que eu mantivera com os jovens oficiais americanos do Regimento de Marines e o corpo consular aliado em Xanghai, a violência e arrogância explícitas dos ocupantes e o noticiário inicialmente alarmante das estrondosas vitórias dos japoneses no Hawai e Indonésia, Malásia e Singapura (cinco encouraçados americanos afundados em Honolulu e mais dois ingleses em frente à costa malaia), assim como a notícia do primeiro e considerável revés dos exércitos nazistas em sua ofensiva contra Moscou e Leningrad, em fins daquele mesmo ano de 41 - tudo isso fez-me, lenta mas radicalmente, mudar de campo nas minhas simpatias e expectativas quanto ao curso da guerra. Em princípios de junho já me sentia mentalmente mais alinhado com os anglo-americanos. Havia sido realizado um bem sucedido reide aéreo contra Tóquio, de puro efeito moral; e em Midway fora vencida a batalha naval decisiva da guerra no Pacífico: quatro grandes porta-aviões japoneses afundados. Naquele mesmo verão de 42, Stalingrado e El-Alamein reverteram o caminho que tomariam as hostilidades: o Eixo estava perdido. O que me preocupava era a sorte da Europa. Como intuitivo, minha angústia já sentira a problemática da Guerra Fria...

O primeiro período crucial na carreira e na vida foi, conforme se verifica, enriquecido por essas experiências da guerra e as emoções que a acompanharam. Um simples exemplo: tirei férias em Atenas em 1946, o país mal saira do conflito com as guerrilhas comunistas que continuavam a escarmentar o Norte, Macadônia e Trácia. De Atenas para Salônica, onde tomei o trem de volta a Istambul, fui num barco superlotado. Quinze dias depois, o mesmo barco, no estreito da Eubéia, bateu num mina e afundou: trezentos mortos. Tive um pânico cronologicamente às avessas... Mas o processo conflitivo se prolongou nos quarenta anos seguintes de Guerra Fria e deu origem à visão heraclitana que cultivei, de um mundo sempre cambiante e em confronto polêmico. Num de seus fragmentos, acentua Heráclito que "a guerra (Polemos) é pai e rei de todas as coisas, e de alguns faz Senhores e de outros Escravos". Nietzsche e Jung me chamaram a atenção para a relevância de Heráclito entre os pre-socráticos. Embora raros foram os aforismos que dele sobreviveram, são sempre significativos pelas idéias profundas que transmitem em linguagem algo hermética, criando um fascínio que igualmente me atingiu. Anos depois, me interessei por Darwin e a teoria da Evolução pela seleção natural. Os igualitaristas sociais de nossa época, que tanto falam nas teorias "científicas" do socialismo marxista, não parecem se dar conta que científico mesmo é a questão da concorrência vital e seleção entre formas e indivíduos desiguais. Escrevi então um texto, a que dei o título de POLEMOS, ainda não publicado, à espera de revisão e de Editor

Sobre esse tema uma citação de Hegel pode ilustrar algo em que bastante diversas foram minhas conclusões, frente à dialética absolutista da contradição do filósofo alemão. Recordemos a impressão decisiva que, sobre o jovem Hegel, deixou a visão espantosa de Napoleão Bonaparte, montado em seu cavalo branco e passando ao lado da cidade de Iena, onde Hegel então lecionava, após a vitória arrasadora sobre os prussianos. O Imperador dos Franceses se lhe agigantou na imaginação. Era uma espécie de personificação concreta do Geist que pretenderia posteriormente interpretar. "Cada homem singular não passa de um elo cego na cadeia da necessidade absoluta através da qual o mundo se constrói por si-mesmo (sich fortbildet). O homem singular somente pode elevar-se ao domínio (Herrschaft) sobre uma porção apreciável dessa cadeia, se descobrir a direção na qual a grande necessidade deseja mover-se e desse conhecimento aprender a pronunciar a palavra mágica (Zauberworte) que evocará sua forma (Gestalt)". De extrema presunção, a frase de Hegel interpreta corretamente nossa insignificância perante os acontecimentos da história, mas também explicaria por que motivo Voegelin acabaria descrevendo o sibilino pensador Idealista como um mestre feiticeiro de magia negra, de influência nefasta sobre a época moderna. Na verdade, nem eu, nem qualquer pessoa no mundo sabia ou sabe em que direção a "necessidade" hegeliana se iria movimentar, depois da guerra, e muito menos conheceria a palavra mágica do profetismo historicista. A idéia é aberrante! O que constitui a essência da história é, precisamente, sua imprevisibilidade, resultante da intencionalidade de milhões de atores nos eventos.

Minha "conversão estratégica" definitiva em direção a um projeto de "Nova Ordem Internacional" que só no fim deste século começa a se delinear, ocorreu em 1944/45. Eu já fora então removido para Ankara, na Turquia, que como capital neutra no meio do cataclismo concentrava uma elite do serviço diplomático mundial. Tive ali um esplêndido chefe que muito estimei e muito me ensinou, Carlos (Carlinhos) de Ouro Preto. De novo, alguns fatores pessoais, de natureza afetiva, contribuíram, junto com os puramente racionais, para um novo alinhamento mental com a sorte do Ocidente. A situação me enchia de perplexidades, resultantes da obrigação de externar uma opinião favorável ao papel da URSS na guerra ("our gallant Russian allies"...), em tão óbvia contradição com a obstinada postura anti-marxista. Mal podia esconder um sentimento de pânico diante da eventualidade da ocupação de toda a Europa e Ásia pelo Exército Vermelho. Mas era obrigado a guardar silêncio… Enfim, árduo é hoje naturalmente, para quem não foi contemporâneo dos eventos, avaliar a paixão com que se acompanhava então o noticiário da guerra e se "torcia" pelos diferentes lados da monstruosa contenda, a mais gigantesca de toda a história da Humanidade. Notai que o economista austríaco Friedrich Hayek, o pai do Liberalismo moderno, escreveu seu "O Caminho da Servidão" em 1944, manifestando suas perplexidades e ansiedade, em relação ao que se passava, semelhante àquilo que, difusamente, me perturbava no mais profundo de minhas cogitações. No entanto, só trinta anos depois eu iria ouvir seu nome descobrir essa obra, assim como a de Ludwig von Mises.

Os quatro postos asiáticos com que iniciei a carreira, Calcutá, Xanghai, Ânkara e Nandjing, atrairam minha atenção para a filosofia e a história do Oriente. Fascinou-me, inicialmente, o pensamento chinês, em particular o Taoísmo. O Confucianismo, não obstante sua importância para a compreensão da estrutura social e moral da China e dos países que se encontram sob a égide da cultura chinesa, sempre me pareceu dogmático e autoritário. Representou realmente o pináculo de uma filosofia apropriada ao patrimonialismo burocrático - ou, se quiserem, ao "Despotismo Oriental" de Witfogel que tanto atenção desperta em Ricardo Vélez Rodriguez ... No Taoísmo encontro, ao contrário, um tipo de pensamento condizente com minhas preferências libertárias e com os princípios da "psicologia das profundidades" de Jung, a tudo isso juntando um toque de misticismo que sempre muito me agradou. Durante a estada na Turquia, foi a história do continente eurasiático o que me monopolizou a atenção. A princípio o relacionamento entre a história da Europa e os acontecimentos na Ásia, nos últimos três mil anos, parecem extremamente confusos. Mas pouco a pouco torna-se claro que, desde a Grécia antiga, choques e contra-choques, e influências mútuas fertilizam o terreno onde, nos séculos modernos, se manifesta o que hoje chamamos a Globalização.

Desse período no Oriente procedem os dois primeiros livros que escrevi, Shanghai, Aspectos Históricos da China Moderna (1944) com prefácio do embaixador Leão Veloso, velho "chinês" e então Secretário Geral do Ministério; e O Sonho de Sarumoto, o Romance da História Japonesa (1948). Essa segunda obra já aproveitava idéias da psicologia de Jung para a análise das lendas e mitos cosmogônicos, na tentativa de interpretação do caráter nipônico. Salientava a ambivalência na mentalidade dos japoneses, numa linha semelhante à que foi explorada por Ruth Benedict em seu livro The Sword and the Chrysanthemum, obra que teria tido influência decisiva no comportamento dos Estados Unidos em relação ao Japão no pós-guerra. O uso de uma velha lenda chinesa a respeito do relacionamento de pagens e concubinas da Corte imperial, à procura do Elixir da Longa-Vida em benefício do Primeiro Imperador Ch´in, com macacos nas ilhas do Sol Nascente - dando assim origem ao povo nipônico - levou-me a suspender qualquer divulgação do livro: simples medida de discrição e prudência diplomáticas. Eu tinha em vista a nova imagem que o Japão para si mesmo criara, após os traumas terríveis de Hiroshima, da derrota e da ocupação, comandada pelo pseudo-Xôgun MacArthur que lhe impuzera uma Constituição sob medida.

Esse o pano de fundo de minhas preocupações ao término da Guerra, com o bombardeio nuclear do Japão e a rendição do Império. Ao ser removido para Nanking (Nandjing), voltando à China, e pouco antes de deixar a Turquia, notei pequenos indícios que os aliados ocidentais se davam conta do desafio ao mundo livre lançado pela Rússia de Stáline. Foram a atitude do general Patton, que desejava ocupar a Tchecoeslováquia antes dos russos; o desembarque de tropas inglesas em Atenas antes mesmo do final da guerra, para evitar a vitória da guerrilha comunista na Grécia; e o célebre discurso de Churchill em Fulton, nos EEUU, em que lançou o formidável conceito de "Cortina de Ferro". Coração e cérebro procuravam coincidir com a aparente "necessidade histórica" hegeliana... Não era mais Spengler, era Toynbee que estava agora com a razão... E eram Toynbee e Spykman, um geo-político americano, que me dediquei a ler, enquanto me enfronhava na visão global, em escala secular e gigantesca, do relacionamento indireto da história da Europa com a história da Ásia oriental, através da Sibéria e do Oriente Médio, pelos hunos, os mongóis e os turcos.

Em março de 1947, o Presidente Truman proclamou a doutrina que levaria seu nome. Logo em seguida, foi lançado o Plano Marshall. Ao deter a expansão do poder soviético na Europa, o governo americano inaugurava o que veio a ser chamado de "Guerra Fria". A presença do encouraçado "Missouri" no Bósforo, para alardear o apoio que os USA concediam à Turquia de modo a que estivesse habilitada a resistir às pretensões de Stáline em relação aos Estreitos e às províncias orientais de Kars e Ardahan, limítrofes com a Armênia, consolidaram minha determinação de partir para um alinhamento mental com o Ocidente democrático sob liderança americana, contra o mais sério desafio totalitário que se sucedia ao do nazismo. Visitei em Istambul o barco famoso onde fora assinada a rendição do Japão.

Foi também por essa época que me dei conta do seguinte: com um PIB equivalente a 50% da produção mundial ao final da guerra, e o monopólio da bomba atômica, os EUA estariam habilitados a impor seu império sobre o mundo, se assim fosse o desejo do povo americano. Não tinham por que temer coisa alguma dos soviéticos. Por que então não foi erguido o "Império americano"? E por que a intelligentsia ocidental, inclusive a da própria intelectualidade yankee, se inclinava para o lado da ideologia totalitária de Esquerda, que simplesmente blefava em termos de poder? O mistério me atormentaria nos 50 anos seguintes...

Um pequeno episódio merece ser aqui relatado. Ele ilustra o terreno de combate que escolhera para participar do novo enfrentamento que, nos 40 anos seguintes - até a queda do Muro de Berlim e o colapso do Império soviético no annus mirabilis de 1989 - dividiria a Humanidade. Por volta de maio ou junho de 47, em Milão, na viagem de retorno ao Brasil em trânsito para Nanking, na China, fui apresentado a um colega que, com a mulher, se encaminhava para seu primeiro posto. Convidei-os para almoçar em frente ao Duomo e, durante toda a refeição, o futuro ilustre escritor, lexicógrafo e acadêmico Antonio Houaiss, era ele, o próprio!, fortemente apoiado pela esposa, defendeu com grotesco entusiasmo o direito da URSS de realizar, precisamente, aquilo que Truman tencionava impedir, valendo-se, como trunfo, do armamento nuclear em seu poder. Os argumentos do Houaiss seguiam ao pé da letra a "Linha de Moscou". Mas o que sobretudo me impressionou era a total indiferença com que recebia a contradição de meus argumentos, sustentados em quatro anos de vivência na Turquia e melhor conhecimento da história do que o revelado por aquela inteligência, de indiscutível brilho mas tão medíocre arcabouço ideológico. Duas vezes cassado pelos militares (em 48 e em 64), Houaiss terminaria a carreira como Embaixador "honoris causa", paraninfo de uma turma do Instituto Rio Branco, Ministro da Cultura e figura de proa da Academia Brasileira de Letras. Foi a primeira vez que obtive a oportunidade de constatar a inutilidade de toda discussão com marxistas. Era como se estivesse falando com marcianos: não existia uma língua comum. O estudo posterior que faria da ideologia, tema que nunca abateu em meu interesse, foi provavelmente inspirado por esse contato imediato do primeiro grau com um adversário de mente e aspecto extra-terrestre.

Muitas décadas ainda decorreriam antes que eu chegasse à conclusão de que, embora de bom senso a longo prazo fosse o caminho trilhado, não era exatamente aquele que a atmosfera "politicamente correta" do pós-guerra iria gerar. Continuando a lutar contra a corrente, adquiri simplesmente a reputação de "fascista" e passei a ser evitado como se portador de uma moléstia contagiosa. O Marxismo festivo dos "companheiros de estrada" contaminava profundamente a "intelectuária" ocidental e os brasileiros, talvez por força de nossa aguda sensibilidade, éramos presa fácil da Nova Ordem da Mentira que a tentação totalitária exercia. Sempre foram, aliás, aqueles que estavam infectados pela Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida à Ideologia os discriminadores, não os discriminados; os censores, não os censurados; os liberticidas, não ‘as vítimas da ditadura´; e os autores da violência, não os que sofriam torturas...

No Itamaraty, aliados ao nacionalismo que eu cultuara nos anos 30, a Esquerda ia aos poucos se apoderar das rédeas do poder. A casa ainda não caira nas mãos dos "barbudinhos" - mas não iria tardar. Seu nacionalismo, que julgo sincero, imaginara a maneira de obviar o crescimento do que julgavam ser o "detestável" poder do liberalismo e do capítalismo americano por uma hábil chantagem em que jogavam com as ambições imperiais do comunismo soviético. Talvez acreditassem mesmo na eventualidade de uma "Revolução Mundial"... A própria noção de Terceiro Mundo nunca deixou de me parecer apenas uma imagem dessa operação do "maquiavelismo dos pobres"... Contudo, alea jact est: no Brasil como no mundo já a sorte fora lançada... Entrementes, meus desapontamentos e perplexidades de 1937/54 se iriam repetir, com lastimável regularidade. Eles grandemente contribuiram para meu "amadurecimento" com a perda progressiva da virgindade mental, nas ilusões que o romantismo da adolescência havia gerado.

ENFRENTANDO O DINOSSAURO (Tyrannossaurus Leviathanicus Rex)

Lembro-me claramente do dia, em maio de 1945 e estando em Ankara, quando em mim principiou a emergir a convicção de que a Nova Ordem Internacional seria a de sociedades liberais e democráticas, em que teria o indivíduo preeminência, não a coletividade. O indivíduo concreto, não o Estado abstrato com milhões de cabeças. As décadas seguintes foram de angustioso enfrentamento com os desafios teóricos e práticos do poder político, na dúvida sobre se correta ou não se colocava minha intuição. E se essa Nova Ordem comportaria ou não uma liderança americana, sem a qual mergulharíamos, ou na anarquia ou sob a bota soviética? E se a América repetisse a experiência histórica da Espanha, da França, da Alemanha, da Rússia e da própria Grã-Bretanha em seu império ultra-marino, com a metamorfose do Imperialismo? Era a questão que me puz a debater e que se aguçou, posteriormente aos eventos de 1989/91 (queda do Muro de Berlim, Perestroika, desintegração do Império soviético, libertação da Europa oriental, crespúsculo do socialismo), com a Globalização liberal deste final de século.

De 1944 a 47, como já mencionei, estive na Turquia.. Ali conheci uma funcionária da Embaixada dos Estados Unidos com quem me casaria em 49 - depois de transpor alguns problemas burocráticos e religiosos. A legislação do serviço diplomático, na época com influência "dutrista", proibia o matrimonio de funcionários da carreira com cidadãs que não fossem brasileiras natas, repito natas - uma restrição que normalmente só afeta a nacionalidade do Presidentre da República. A legislação do State Department levantava objeções do mesmo estilo, embora menos restritivas. Essa intervenção do Estado na vida particular do cidadão atrapalhou-nos durante alguns anos.

Na China permaneci um ano meio como Encarregados de Negócios em Nanking (Nandjing), então a capital do governo dito "nacionalista" de Chiang Kaichek, o Kuomintang, e alguns meses em Xanghai, acompanhando as peripécias da Guerra Civil que terminaria com a vitória dos maoístas. Fui então transferido de volta ao Rio de Janeiro, partindo em abril de 49, quando as forças comunistas já se aproximavam daquele grande porto.

A viagem de navio de Xanghai ao Rio (a segunda que fazia, sete anos depois da primeira) durou três meses! Naquela época ainda se viavaja por esse meio confortável e civilizado, ainda que lento… Conheci a Tailândia, a Malásia, a ilha Maurício, o Kenya e a África do Sul e, em permanência de dez dias em Buenos Aires, tive oportunidade de assistir a uma recepção na Embaixada do Brasil onde, pela primeira vez, eram recebidos o general Perón e Evita - bela, magra, elegantíssima e já apresentando (mas "Don´t cry for me, Argentina!"…) os sinais da moléstia que pouco tempo depois a iria carregar. Em fins de 49, Dorothy e eu nos casamos, em cerimonia religiosa informal - para contornar a proibição formal do Dutrismo contra exogamia diplomática.

Dois anos na Secretaria de Estado (de meados de 49 a meados de 51), sem outras grandes novidades na carreira, cabe apenas mencionar dois eventos gravados na Anamnesis. Arrebentou, em fins de junho de 1950, a Guerra da Coréia, com a invasão da República da Coréia, apoiada pelos Estados Unidos, pelas tropas do Norte. Uma gafe cometida pelos soviéticos, que estavam boicotando as reuniões do Conselho de Segurança da ONU sob a alegação que o lugar da China estava sendo ilegalmente ocupado pelo representante de Chiang Kaichek, então refugiado em Taiwan, permitiu aos americanos obterem o apoio do organismo internacional, sem a eventualidade certa de um veto soviético. No Rio, a Escola Superior de Guerra estava em fase de formação e, imediatamente, solicitou ao Itamaraty a presença de um funcionário para explicar aos recém-designados estagiários o que se passava na Ásia oriental. A Divisão Política do Ministério, onde estava eu servindo, me indicou para a tarefa. Protestei, argumentando que não conhecia a Coréia, apenas a China e o Japão. "Não reclama, Peninha", contestaram-me:"Você que é "chinês" é quem esteve mais perto da península e é Você que fala". Foi assim que, pela primeira vez em minha vida, tive o ensejo de fazer uma conferência, e sobre um tema que me deram dois dias para estudar. Na própria ESG achei curioso que os militares presentes pareciam muito mais interessados em desvendar a questão da legitimidade ou não da Resolução do Conselho de Segurança, na ausência de um dos membros permanentes, do que no vasto quadro geopolítico e estratégico em torno do qual especulava o texto que eu havia elaborado. De qualquer forma, saí-me bem. O outro episódio curioso foi a posse no Catete do recém-re-eleito Presidente Getúlio Vargas. Em frente ao palácio, uma multidão colossal de petebistas, estivadores, favelados e carnavalescos cantavam uníssonos um Samba sobre o Velinho que voltava ao Poder (do qual iria ser derrubado, já morto, quatro anos depois). Eu estava designado para acompanhar o Embaixador da China (Taiwan) e, com dificuldade, alcançara o palácio através da multidão eufórica, barulhenta e fedorenta. Nunca me esquecerei do espetáculo. Foi provavelmente na ocasião que, sem querer, fiz a conexão entre o Leviathan e o Behemoth.

No exterior novamente, em 1951, fui servir uns dez meses como encarregado de negócios em San José de Costa Rica e um ano em Ottawa, no Canadá. A Costa Rica foi um curto e agradável intermezzo: o pequeno país, que se intitulava "la Suiça centro-americana", é curioso porque, muito embora provinciano, se desenvolveu como uma democracia com alto índice de alfabetização e educação geral. Seu privilégio, na época colonial, foi ter sido isolada e pobre (embora denominado "costa rica") numa meseta montanhosa de bom clima onde se estabeleceram camponeses ibéricos. Não atraiu os burocratas espanhóis e a população local não tinha dinheiro suficiente para comprar escravos. Foi assim obrigada a trabalhar e preparar-se para o self-government. Eis o segredo do milagre!

No Canadá já fora promovido a Primeiro Secretário e estava oficialmente casado (isto é, no civil). Referência especial cabe a meu chefe em Ottawa, o embaixador Heitor Lyra, de quem me tornei também amigo e admirador, grande diplomata e historiador de alto gabarito moral e intelectual. Foi também nessa época que perdi meu Pai, um acontecimento que, como previne Freud, pode ser um dos mais pungentes na vida de um homem.

Só interessa, no entanto, aos fins deste livro à la recherche du temps perdu… - notar que tive uma experiência importante de perto de quatro anos como Conselheiro na Missão Brasileira junto as Nações Unidas (1953/56) em Nova York. Ali nos nasceram os dois primeiros filhos. Além dos inúmeros atrativos culturais e outros que nos proporciona a Big Apple, a vida na "capital do mundo" me ensejou a oportunidade de seguir cursos na Universidade de Columbia, e uma introdução valiosa ao problema das relações internacionais e criação de uma Nova Ordem Mundial.

A ONU se me apresentou, antes de mais nada, como uma extraordinária Vanity Fair, uma feira de vaidades e recinto da mais despudorada demagogia, com a luta de punhais na escuridão pelo prestígio e a promoção. Em poucos lugares do planeta tão flagrante é a expressão da tolice e irracionalidade da espécie humana. Não creio que a Organização internacional venha um dia a prefigurar um "governo mundial", como pensam alguns utopistas românticos. O Estado-mundial hipotético ou Confederação global do próximo século será, no meu entender, conduzido por uma espécie de Conselho de Estado de líderes das grandes potências, algo como os G-7 hoje configuram - numa hierarquia em que, no topo, se situará o Presidente americano - primus inter pares no Conselho Supremo da Humanidade. Estimo venha um estadista brasileiro a sentar-se, um dia, em tal Conselho - eis o máximo a que atinge minhas ambições patrioteiras… As Nações Unidas funcionariam, nessa perspectiva antecipatória, como mero recinto de assembléia geral parlamentar, no sentido literal da expressão (parlamentar - do francês parler, falar): um cenáculo para livre expressão dos anseios e preocupações da opinião pública global, em sua extrema diversidade linguística, étnica, religiosa, ideológica e cultural - levando em conta, evidentemente, que na "aldeia global" do futuro a facilidade de comunicação deverá engendrar uma Opinião Pública mundial como expressão máxima do Poder. O perigo do democratismo esquerdizante moderno reside precisamente nisso: é o único ponto em que podemos visualizar, com alguma potencialidade de correção o profetismo spengleriano de um Cesarismo de âmbito universal.

Num sentido ainda bastante primário, assim como tribuna da demagogia funcionava a Organização internacional nos anos 50. Em plena Guerra Fria, o delegado soviético era o notório Vischinsky, que foi o promotor dos célebres Processos de Moscou, utilizados por Stáline para se desfazer de todos seus antigos camaradas bolchevistas e limpar qualquer ameaça à sua sanguinária tirania. A palavra mais comum utilizada pela Sovietskaya Delegatzya era simplesmente nyet!, não, não (e veto no Conselho de Segurança) , enquanto o recinto da Assembléia Geral, do Conselho Econômico e Social e das Comissões Especializadas servia para as manobras mais servis e hipócritas do Terceiromundismo em formação - seduzindo os delegados mais incultos com a tentação do brilho populista. Salientavam-se alguns funcionários de carreira, melhores afeitos a esse tipo retórico e vulgar de "diplomacia parlamentar" a qual, no meu entender, possuía apenas o valor algo duvidoso de válvula de segurança verbal para as tensões do mundo em processo de globalização. Recordo haver assistido a um Chanceler brasileiro, funcionário de carreira por falar nisso, comportar-se com a empáfia superficial de pavão verboso, e cozinheiro obsessivo de sua panelinha política, desprovida de qualquer valor intrínseco, que tão bem caracteriza os "legislativos" mais populistas do Terceiro Mundo, particularmente da área latina que, sarcasticamente, no Itamaraty qualificávamos de Cucaracholândia. A Assembléia Geral da ONU era sobretudo um palco, um show em que os delegados, para si próprio e para seus respectivos países, procuravam simplesmente a glória da ribalta - através de manifestações demagógicas e auto-promocionais para consumo pela imprensa e TV, nacionais e internacionais.

Na época, estando o planeta ainda dividido pelo desafio do totalitarismo comunista, alguns dos principais paladinos dos "direitos humanos" eram, por exemplo, representantes de nações como a Arábia Saudita, o Afeganistão ou algum vago "cucaracha" - em que ainda sobrevivem a escravidão, a submissão das mulheres, o trabalho forçado de crianças, a violação dos direitos políticos dos cidadãos e o despotismo policialesco. Jamais consegui atinar qual o propósito de tal atividade, que se expressava através de "Resoluções", "Recomendações", "Relatórios", "Convenções Internacionais", Compte-rendus de Conferências e outros montões de monstruosa papelada que ia morrer nos arquivos de distantes repartições públicas. A utilização da ONU como agência turística e sinecura dos favorecidos pelos grupos de poder dominante, com o crescimento teratológico da burocracia internacional, eis outro aspecto negativo que não tardou a me impressionar pelo óbvio.

Meu velho pendor, mais revolucionário do que reacionário, pela autenticidade me pôs frequentemente em conflito com meus "chers collègues" estrangeiros. Atritos sérios com colegas e chefes da Missão tiveram um preço mais pesado. Um portentoso antigo catedrático de direito constitucional da USP e ex-Ministro da Justiça, presente durante curto período como membro da Delegação à Assembléia Geral, a quem fui designado para servir como assessor, chegou a ponto de denunciar-me como "suspeito de comunismo e getulismo" (isto em 1953, sendo Getúlio Vargas Presidente da República!), porque tentei por todos os meios, lícitos e mesmo ilícitos, impedir que ele pronunciasse, em francês quase incompreensível, um bestialógico de retórica ultra-nacionalista - que considerei capaz de comprometer com o ridículo o prestígio da Delegação brasileira. Indo frontalmente contra o que já era então "politicamente correto", ele acusava a ONU de ser o novo "Império do Mundo", encarnação do mal, ponta de lança de uma conspiração global contra o Brasil (cui bono? seria o caso de nos perguntar) e violadora da sagrada soberania dos Estados Membros. Foi certamente um dos mais paradoxais contenciosos em que me meti durante aquele período.

Também pela primeira vez estava servindo numa repartição, altamente competitiva, em que se multiplicavam as oportunidades de tensões, conflitos de natureza ideológica, rivalidades profissionais e a natural erosão de todo relacionamento entre chefe e subordinados. As ciumeiras, os ressentimentos, as intrigas, a formação de "panelinhas" eram escolhos que devíamos enfrentar e deles procurar escapar, sem ferimentos graves. O atrito mais grave que registrei foi com o colega, o mesmo precisamente, o antigo Presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito a que me referi mais acima, a propósito do episódio da "Intentona" de 27 de novembro de 1935. Nossas relações principiaram a deteriorar-se quando ele, declaradamente de "esquerda", forneceu ao velho borocoxó, catedrático da Faculdade de Direito da USP, os argumentos requeridos para denunciar a ONU como imperialista a partir do texto do artigo 2º, § 7° da Carta, o que assegura a absoluta integridade e soberania dos Estados Membros e é, por conseguinte, aquele que mais frequentemente é violado. O oportunismo, hipocrisia e lambujerm do colega é o que me exasperou, a ponto de chegar às vias de fato... Ele, além disso, me atingira no que era o péché mignon de todo diplomata que se prese, a vidade de melhor falar francês do que ele, baseada nos meus estudos em frança e no resultado do Concurso de 1937 que fizera.

Muita oportunidade tive de aprendizagem nesse terreno, sem sempre saber aproveitar os ensinamentos. Em matéria de "política como arte", minha incompetência se tornava fragrante... Pela primeira vez, ja com perto dos quarenta anos, comecei a me dar conta que nem tudo seria um mar de rosas na carreira que escolhera. Não era um "bom diplomata", no sentido ambivalente que o termo comporta (). Não deixei, porém, de ali estabalecer sólidas amizades com alguns colegas que, nos anos seguintes, me acompanhariam pelos diversos degraus da carreira: Henrique de Souza Gomes, João Frank da Costa, David Silveira da Mota e Sizínio Pontes Nogueira.

A experiência seguinte foi mais criativa. De 1956 a fins de 59 fui Diretor da Divisão, posteriormente Departamento Cultural do Itamaraty - cargo que me proporcionou contatos do maior interesse com personalidades da literatura e das artes brasileiras e estrangeiras, ao tempo da construção da Nova Capital. Enquanto trabalhava na Missão em Nova York, eu havia frequentado a Universidade de Columbia, naquela cidade, cuja biblioteca colossal me concedeu a oportunidade de coleta de dados para o primeiro livro de alguma relevância que publiquei em 1959, "Quando Mudam as Capitais"- uma análise crítica de história e geopolítica, juntamente com o pano de fundo cultural, de quinze grandes cidades que foram localizadas, planejadas e edificadas no decorrer dos milênios, nos cinco continentes, para servirem como sede de governo (Akhetaton e Alexandria, Constantinopla, Peking, Nara e Kyotô, Madrid, Versailles, S.Petersburgo, Washington, Ottawa, Pretoria, Nova Delhi, Ankara e Canberra). Desse trabalho e da posterior convivência com o empreendimento de construção de Brasília, resultou meu entusiasmo pelo projeto de transferência da capital brasileira pois considerava o Rio de Janeiro, pelas peculiaridades de sua presença à beira-mar e seduções das belas praias tropicais, como criador de uma atmosfera hedonista imprópria para a seriedade da função governamental. Até hoje estou convencido desse argumento, assim como da importância da transferência da administração federal para o interior do país do ponto de vista do estímulo que exerceu sobre o desenvolvimento do Planalto Central e centro-oeste do país. Entretanto, em vários textos escritos na época sobre o tema insisti na idéia esperançosa que a transferência da capital teria o efeito indireto de reduzir o tamanho e poder da burocracia monstruosa que guarnece o poder federal. Meu liberalismo incipiente já se manifestava em tais expressões de desgosto com o Dinossauro, assim desmentindo aqueles que, quarenta anos depois, ainda me consideram um "cristão-novo" do Liberalismo.

A visita de algumas personalidades ilustres ao Brasil, como Lin Yutang, Aldous Huxley e André Malraux, o convite para a qual de mim partira, assim como a colaboração na presença de grandes nomes das artes, arquitetura e crítica de arte modernas, Alexander Calder por exemplo, Gropius, Enzo Tange, Philip Johnson e outros arquitetos ilustres, todos interessados no evento inédito que foi a construção da nova capital do Brasil, facultaram-me um contacto direto com o Presidente Juscelino Kubitschek. Criei sincera admiração por esse político. Embora para alguns péssimo administrador dos dinheiros públicos, JK se destacou na história como extremamente aberto em matéria de relacionamento com personalidades eminentes do mundo artístico e cultural, e transmitiu ao Brasil seu invencível otimismo no momento crucial em que se iniciava nossa revolução industrial e emergíamos como potência econômica. Em que pesem seus defeitos, foi um dos grandes Presidentes que teve o Brasil.

Antes de terminar meu comando do Departamento Cultural, ocorreu a Operação Pan-americana (OPA) promovida por J.K., a conselho de alguns de seus assessores e do empresário poeta Augusto Frederico Schmidt, com o alegado benemérito propósito de atrair o interesse do governo de Washington no sentido de nos conceder ajuda adequada, acelerando nosso desenvolvimento, juntamente com o do resto da América Latina. Foi um fracasso. Teria servido contudo de inspiração para a Alliance for Progress de Kennedy, outro fracasso. Um dos argumentos para persuadir os americanos da conveniência de contribuir para nossos esforços foi dos mais estranhos, como um tiro que sai pela culatra. O Embaixador Schmidt, numa reunião com delegados americanos, lembrou-se da declaração que Kruschov havia feito, algum tempo antes, anunciando a seus adversários capitalistas que, em breve, a URSS os iria "enterrar" e que, em 1970, doze anos depois aproximadamente de seu discurso, a produção industrial soviética iria sobrepujar a americana. Uma palhaçada em suma. Schmidt anunciou que estudos de um "laboratório de pesquisas econômicas" do Itamaraty, comandado pelo embaixador Miguel Osório de Almeida, havia de fato confirmado, com dados informatizados, a correção dessas projeções dos russos. Os americanos evidentemente não gostaram da brincadeira. Não me parece, de fato, de boa diplomacia, anunciar a um vis-à-vis com quem se negocia que, "se Vocês não me derem dinheiro, eu me passo com armas e bagagens para o campo de seus inimigos". Em matéria de maquiavelismo, é um recurso de chantagem que me parece excessivamente primário. De qualquer forma, foi também por ocasião da OPA que me senti mais discriminado e excomungado por meus colegas, embora muitos deles amigos, por motivos exatos que nunca atinei mas que, indiscutivelmente, deviam ter origem em discrepâncias de natureza político-ideológica. No mesmo momento, Araújo Castro era promovido a Ministro, pouco depois a embaixador, tornando-se então Ministro do Exterior em curto período do crepúsculo do governo Goulart e terminando a carreira, na chefia de nossas duas maiores missões, ONU e Washinton, onde morreu. Foi nesse posto que lançou o slogan retórico até hoje cultuado pelos seus discípulos barbudinhos, assim como pelos militares de linha dura que dele inicialmente desconfiavam: "O Brasil está condenado à grandeza!".

Ao terminar a década, fui promovido a ministro de segunda classe - promoção que constitui a etapa mais árdua de avanço na carreira. A escalada me obrigou, após haver sido "bigodeado" duas dúzias de vezes por colegas mais "moços" na Lista de Antiguidade, a recorrer com extremo desagrado a um pistolão imbatível, o da então Diretora do Museu de Arte Moderna, esposa do dono do jornal "Correio da Manhã" e prestigiosa amiga do Presidente da República, Niomar Muniz Sodré Bittencourt. Contrariando, porém, as más línguas - que foram ouvidas e repetidas até nos jornais - a promoção não resultara da publicação de "Quando Mudam as Capitais". Como disse um dos intrigantes: "ele escreveu sobre Brasília sem falar em Juscelino". Não escrevera, na verdade, pelo simples motivo que Brasília não era o tema principal da obra, e fora ela composta antes de 1956, quando JK anunciou sua intenção de levar o governo federal para um novo local no Planalto Central.

Fui servir como Cônsul Geral em Zurique de 1960 a fins de 63, quatro anos. Durante o período, tive oportunidade de seguir os cursos no C.G. Jung Institut de psicologia, naquela cidade suíça. Eu conhecera, muito rápida e superficialmente, o próprio professor Karl Gustav Jung em 56, numa ida oficial à Suíça, em cuja ocasião aproveitei para uma rápida excursão à residência de verão do grande psicólogo em Bollingen, um castelo "feito à mão" junto ao lago de Zurique. Ao frequentar o C.G. Jung Institut, aprofundei-me na análise pelo método que, segundo os princípios da escola, conduzem ao Processo de Individuação. Como figura central do complexo do Eu, deve a consciência procurar alcançar o Selbst, o Si-mesmo escondido no âmago do Inconsciente. A experiência junguiana foi da maior relevância em minha vida e no desenvolvimento da própria estrutura de pensamento, cuja expressão procuro alcançar nestas páginas. Mas duas décadas ainda iam passar antes que as tumultuosas Paixões da Alma, de que tratava Descartes, chegassem a um mínimo de controle pela Razão. Serenidade mesmo, talvez só a alcancemos no Céu...

Uma experiência particular no estágio suiço se destaca na memória, a propósito do desenvolvimento de meu pensamento. É comum nas biografias que se mencione um momento crucial de inspiração que determina a evolução ulterior, espiritual ou intelectual, da pessoa atingida por tal "iluminação". Casos famosos foram o de São Paulo no caminho de Damasco; o de Agostinho na visão de Óstia; o de Jacob Boehme ao ser ofuscado pelo reflexo de um raio de sol num pedaço de metal, enquanto trabalhava na sua profissão de sapateiro; o de Descartes quando teve seus três sonhos famosos ao dormir "dans un poèle"; a de Rousseau ao ler o anúncio do concurso proposto pela Academia de Dijon enquanto passeava pelo bosque de Vincennes, em Paris; o de Nietzsche, em Sils-Maria, a que se refere brilhantemente ao descrever o valor da intuição para a criação filosófica - isso só citando alguns exemplos. Muita gente muito menos inspirada a realizar grandes obras do pensamento igualmente regista seu "mito" particular, no sentido de uma imagem decisiva que sintetiza toda sua "cosmovisão". Aristóteles deve ter experimentado um desses momentos especiais, em sua vida, quando nos revela, num dos fragmentos autobiográficos que dele herdamos, que "quanto mais me encontro comigo mesmo e solitário, tanto mais me torno um amante do mito". A palavra "mito" sgnifica, em tal contexto, uma imagem, fábula, "estória" ou relato sintético de algo de excepcional importância existencial.

O meu "mito" tomou forma por volta de 1961 ou 62, depois de leituras de várias obras de Jung. Cuido de destacar um texto de seu "Psicologia e Alquimia" em que descreve o sentido do símbolo da cruz +. Esse é também sinal de adição matemática, indicador de um ponto geográfico e arquétipo quadrangular em torno do qual se desenha uma mandala. Entre os dados da anamnese que o símbolo evoca se encontrava a referência de Lúcio Costa ao desenho fundamental de Brasília, lido em seu projeto para o Plano Piloto, de dois eixos que se cruzam em ângulo reto, indicando o local no Planalto Central onde seria construída a nova capital. O ponto importante contudo, na imagem mitológica, é a teoria de Jung sobre as quatro funções da consciência, dispostas em dois pares do opostos perpendiculares, Intuição X Percepção, Sentimento X Pensamento (Fig.1). Eu acabava de ficar fortemente impressionado - não chego a dizer, traumatizado - em minha análise com o Dr. Carl A. Meier (um dos principais discípulos de Jung, a que farei referência pouco mais adiante), ao descobrir que era o lado afetivo, e não o lado intelectual, que servia de componente subsidiário da intuição, função dominante, em atitude introvertida, no "complexo" psicológico característico de minha psique consciente. A qualidade "metafísica" da imagem da quadratura do círculo mandálico, para a qual minha atenção auto-analítica havia também sido atraída, configurava um símbolo complexo de totalidade e de tensão no esquartejamento efetuado pelos arquétipos em conflito. De um ponto de vista "religioso", como poderei me expressar, a Cruz no círculo continha ainda uma evocação da sentença de Kierkegaard de ser o Cristianismo a cruz do pensamento humano, tendo a palavra "Cristianismo" uma conotação de pano de fundo inconsciente na vivência de nossa Cultura ocidental, tão seriamente ameaçada (inclusive no Brasil que sofria da crise posterior à renúncia de Jânio e culminaria em março de 1964). Isso, mesmo no caso de pessoas agnósticas ou sofrendo de dúvidas em matéria religiosa. O desenho que resume a intuição mítica, na fig. 1, foi criado naquele momento de meditação. Altamente aprofundada ao subir as encostas que, em Herrliberg - um subúrbio sobre o lago de Zurique, onde residia, separavam nossa casa da estação ferroviária onde todas as tardes desembarcava, procedendo da repartição consular na cidade onde trabalhava - a visão foi aquela de que deixo aqui estas breves indicações: o meu "mito" particular, cujos traços pertinentes serão desenvolvidas na medida das necessidades destes ensaios.

Depois dos quatro anos de Zurique (1960/63), fui embaixador por curto tempo na Nigéria. Passei um ano em Lagos, no intuito não só de conquistar uma embaixada, ainda que comissionado, mas como preparação para um eventual exílio caso a tribo do Jango, Brizola & Cia. fosse bem sucedida em seu projeto insosso de transformar o Brasil numa imensa Cuba. A experiência pouco aprazível nesse país africano em formação, sempre à beira da anarquia e da luta tribal, serviu-me pelo menos para esclarecer minha própria postura diante da questão racial no Brasil. O capítulo "Preto no Branco" da obra "Em Berço Esplêndido" (1972) resume a tese, de inspiração junguiana, que traduz minha abordagem dessa problemática social tão importante para nosso país. O centro de minha experiência nigeriana foi a comunidade dos Brazilian Descendants. Era a composta, no seio da nação iorubá da Nigéria ocidental, pelos descendentes de escravos que haviam retornado à terra de seus antepassados após a Abolição. Muito úteis aos ingleses que então se estabeleciam como colonizadores naquelas bandas africanas, por serem cristãos e terem experiência como artesãos, formavam uma espécie de classe média que se articulou durante o estabelecimento em Lagos (o próprio nome é português) e ali enriqueceu. Antonio Olinto e Ademar Ferreira da Silva, campeão olímpico, ambos adidos culturais à embaixada, muito contribuíram para minha compreensão do papel dos africanos na formação do complexo cultural brasileiro.

Só voltei à pátria amada, idolatrada, depois da Contra-revolução de 64, cujo fácil triunfo acolhi com entusiasmo. Frequentei então durante dez meses a Escola Superior de Guerra (1965), no período áureo dessa instituição civil-militar. A tese que, segundo os preceitos da Escola, lhe submeti ao final do curso, transformou-se num livro, "Politica Externa - Segurança e Desenvolvimento" - creio que a primeira monografia, na Brasiliana, dedicada inteiramente ao tema da nossa política exterior. Não me trouxe certamente popularidade entre os colegas. O maior elogio que recebi, um único comentário e apenas de um deles, é que eu tinha muita coragem ao escrever um livro como esse... Nem vantagens me granjeou junto às autoridades que se convertessem em benefícios imediatos para a carreira. Posteriormente, exerci as funções de Secretário-Geral adjunto para a Europa Oriental e Ásia (66), sendo Juracy Magalhães Ministro de Estado e o embaixador Manuel Pio Correa Secretário Geral. A promoção a Ministro de Primeira ocorreu em retribuição a esse esforço. Diria que foi o período brilhante, o único de minha carreira, o mais satisfatório também do ponto de vista de meu relacionamento com a situação política reinante no país.

No período militar de 63 a 80, confiança e aprovação integral só depositei mesmo em Castello Branco. Depois do Curso Superior de Guerra de 65, convenci-me que o grande mérito dos generais-presidentes foi haverem drasticamente repudiado, logo de início, o surgimento de qualquer liderança carismática que, essa sim, de armas na mão, nos teria conduzido a perigosas aventuras, como aconteceu com muitos de nossos vizinhos. Já na ESG e em 67, quando Castello foi substituído por Costa e Silva, me havia reconciliado com a idéia que a solução militar "instrumental" a nossos problemas, no sentido de Oliveira Viana e Carlos Lacerda (na perspectiva do que dele ouvira no seminário da Columbia University aludido mais acima), não iria funcionar. Parece-me que Castello foi a única personalidade da política do momento que teria compreendido as nefastas consequências do personalismo patrimonialista brasileiro. Em 67, as ambições discordantes eram imensas: Lacerda e J.K., além dos derrubados pelo levante de 64, e um punhado de quatro estrelas verde-oliva, competiam na pretensão de alcançar a suprema magistratura. Por falta de apoio de seus colegas de arma, Castello não pôde realizar o projeto de, naquele mesmo ano ou talvez em 68, se houvesse permanecido no governo, presidir ao que, finalmente, só se efetivou em 85: a eleição indireta de um sucessor civil, com alguma legitimidade. Um qualquer dos políticos que ele imaginava teria permitido, já no novo período, encaminhar a nação para o "milagre econômico" do quinquênio seguinte. Em vez disso, tivemos Costa e Silva, de fim melancólico; depois Médici que, pessoalmente sem grandes luzes, conduziu soberbamente o "milagre"; em que pese a brutalidade da guerrilha urbana e da repressão policial-militar; e, em seguida, o prussiano Ernst von Geisel que, ao merecer os aplausos por levar adiante o projeto de Abertura, o comprometeu indelevelmente com seu monstruoso estatismo e o desastre do "pacote de Abril" que deformou o federalismo.

Mas o que julgo haver sido a falta fundamental do regime militar foi não haver então realizado a reforma política que tanto se impunha, como até se hoje se impõe. Em seu "A Ordem Política nas Sociedades em Mudança", bem acentuou Samuel Huntington - o prestigioso filósofo político da Escola de Governo de Harvard a quem tive o prazer de ouvir num seminário naquela Universidade, de que participei em meados dos anos 80 - que, "no mundo em modernização, quem controla o futuro é quem organiza sua política". Na verdade, o grande mistério da história política das nações sempre me pareceu residir nesta questão. Sempre devemos avaliar em que me medida interagem os episódios estocásticos, de pura sorte; o fundamento psico-cultural e a decisão coletiva consciente, expressa pelas urnas, no resultado final da dialética entre a vontade governamental e os acontecimentos imperativos. O destino nos tem sido ingrato. É um dos aspectos mais intrigantes do mistério acima referido que certas nações só excepcionalmente encontrem os líderes que merecem, melhores do que elas próprias, enquanto outras são favorecidas, como ocorreu, por exemplo, no episódio da Revolução Gloriosa, na Inglaterra; ou com os "Pais Fundadores" no momento da Independência dos Estados Unidos; ou ainda na segunda metade do século passado na Argentina, com homens como Sarmiento e Alberdi, pelo gênio oportuno de seus governantes.Ao contrário, nem a França ao tempo da Revolução de 89, nem a Alemanha na década dos trinta, gozaram da mesma sorte excepcional - o que foi desastroso para as duas nações e para o mundo. Eis por que a pergunta clássica de nossa geração e de quase todas as anteriores, "que país é este?", nunca encontrou resposta satisfatória em nossa mente. É no âmago do próprio espírito desta nação que jamais conseguimos penetrar, nem adequadamente com ela nos corresponder.

Entrentanto, também é verdade que jamais perdi as esperanças secretas sobre seu futuro, conservando certo otimismo sobre a maneira "natural", ou o "jeito" para a solução dos conflitos, que nos permitiram regularmente superar sem grande violência ou transtornos as frustrações que as crises sucessivas provocam em nossa existência coletiva. Meu relacionamento com o Brasil jamais foi de natureza racional, foi antes intuitivo e afetivo. Um otimismo que se mantem, não obstante a dura experiência histórica, vivida por mais de meio século de observação engajada, de alcançarmos um dia, por uma sorte imprevisível, aquele momento mágico definido por Huntington. Será que um dia organizaremos adequadamente nossa política?

. Não é o governo, é a iniciativa privada, deixada às suas próprias condições, que nos pode levar para o Primeiro Mundo. O fruto das sucessivas dores de cotovelo, desilusões e frustrações ideológicas, ao assistir ao fracasso de tentativas várias de "arrancar do poço" a nação, superando a estrutura arcaica do clientelismo, do Estado paternalista e do regime patrimonialista incapaz e corrupto, herdado da época colonial, me inspirou no trabalho de análise psicológica ou interpretação do caráter brasileiro que empreendi na obra "Em Berço Esplêndido". Publicada em primeira edição em 1972, foi seguida de várias outras, explorando o mesmo filão: "Psicologia do Sub-Desenvolvimento", "O Brasil na Idade da Razão" e "Utopia Brasileira". Uma reedição ampliada e atualizada que conjuga esses quatro livros está atualmente no prelo. Roberto Campos gosta de citar nosso admirável Eugênio Gudin quando confessou, já com perto de cem anos de idade, de haver sido continuamente traído pela amante que sempre tão apaixonadamente amou, sem lhe poder corrigir a entranhada irresponsabilidade e caprichosa afoiteza.

A conclusão final a que cheguei é que, sem uma base moral, uma sociedade não pode funcionar adequadamente. Muito menos pode uma economia prosperar. O Estado de Direito (rule of law) num regime democrático, é condição necessária, não é condição suficiente para servir de argamassa a uma sociedade. A noção é vulgar. Precisamos não apenas de leis escritas mas da Lei moral. Preguiça, passividade, impunidade, romantismo, bom-mocismo, que mais devemos superar? Érico Veríssimo reparou, muito corretamente que é, "nessa simpatia, nesse nosso bom-mocismo... que reside nossa desgraça como nação". A idéia que as sociedades se erguem sobre uma Ordem moral está implícita no grande edifício filosófico que foi construído na Grécia pelos pre-socráticos, a escola de Sócrates com Platão e Aristóteles, de onde passou para o Cristianismo, mormente através de Agostinho de Hipona. Na Bíblia, tanto entre os Profetas hebraicos quanto nos Evangelhos e nas Epístolas de São Paulo, se proclama não será mais a Lei gravada na pedra, mas a que está inserida no coração... Recorde-se então as sábias palavras de Edmund Burke. Ao definir essa exigência, o grande orador liberal britânico avisava que "os homens estão preparados para a liberdade civil na proporção exata de sua disposição a controlar seus próprios apetites com cadeias morais… A sociedade só pode existir se um poder de controle sobre a vontade e os apetites for colocado em algum lugar; e quanto menos houver desse poder dentro de nós, tanto mais haverá fora de nós. Pois está ordenado na eterna constituição das coisas que os homens de mente destemperada não podem ser livres. Suas paixões forjam suas próprias algemas". É uma citação célebre que gosto de repetir… Em seus "Quatro Ensaios sobre a Liberdade" (de 1969), Isaiah Berlin lembrava Aristóteles em conexão com a definição do que seja liberdade negativa. Para Aristóteles, como seres morais só estaríamos no gozo perfeito de nossa liberdade quando agimos de tal modo que os fins morais possam ser tão completamente realizados quanto possível. O ponto me parece evidente pois numa sociedade absolutamente entregue à anarquia, o crime naturalmente prosperará e não poderemos gozar da oportunidade de liberdade que uma sociedade ordeira proporciona. Quando no Rio ou em S.Paulo deixamos de sair à rua, à noite, por medo de sermos assaltados, nossa liberdade está sendo coibida pela situação hobbesiana que ali se manifesta.

A meditação sobre esses temas de indiscutível relevância conduziu-me ao enfrentamento com os dilemas da Ética, que aos benevolentes leitores submeterei a seguir. Não posso, todavia, deixar de aqui mencionar um velho e querido amigo e colega, Mário Vieira de Mello. Lá fazem disso quarenta anos que Mário me apresentou, numa tarde radiosa em que percorríamos o Alhambra de Granada, quando em viagem que juntos pela Espanha e Portugal realizávamos com nossas respectivas, o esboço da obra que publicaria sob o título "Desenvolvimento e Cultura". Nesse trabalho, hoje injustamente pouco lembrado, ele coloca a problemática brasileira em termos claros de rígida sistemática platônica. Inspirada sem dúvida no "existencialismo" de Kierkegaard, qual seja na Alternativa "Ou Isto ou Aquilo" (Enten Eller) que o triste dinamarquês propôs entre o Estético e o Ético - com uma terceira opção ocasional e transcendente para o Religioso - a tese de Mário sobre a "questão do Brasil" é, basicamente, de ordem moral. Muitos outros pensadores compatriotas já disso se hão dado conta, Gustavo Corção por exemplo, sem talvez esquecer os dois Prados, Paulo e Eduardo, Sérgio Buarque de Holanda, Tobias Barreto, Jackson de Figueiredo, Miguel Reale e alguns dos "católicos conservadores" do passado. Estou convicto que, sem o saber, foi esse substrato moral que igualmente me atraiu, na adolescência, à arregimentação artificial do movimento integralista. Mais recentemente, outros pensadores nos acompanham na convicção da preeminência do elemento moral. Menciono particularmente o grupo que, com Antonio Paim à frente, veio a constituir a Sociedade Tocqueville, fundada em 1986. A mesma urgência de descobrir uma hipótese satisfatória foi o que me conduziu, por sugestão de Màrio, à leitura de Eric Voegelin, à sua "Nova Ciência da Política" e à "Ordem e História", monumento extraordinário com seus alentados cinco volumes.

A antinomia da atitude estética contra a atitude ética pode parecer demasiadamente radical e eu próprio não condeno, hoje, o esteticismo brasileiro. Nele não reside, certamente, a fonte única do mal. Considero-o, pelo contrário, um elemento enriquecedor de valores preciosos na linha do "dionisismo" de Nietzsche, para nossa eventual contribuição à cultura global. Há nele potencialidades de renovação do culto da Beleza e da Forma que nos vem da Grécia, do Renascimento italiano e da herança francesa, pendor que Hermann Keyserling, no final dos anos vinte, já anunciava com simpatia em suas "Meditações Sul-Americanas".

Sob a inspiração do daimon de Sócrates - ou do Lúcifer gnóstico que nos seduziu com a fruta do conhecimento do Bem e do Mal - lançaremos sugestões esparsas em torno da problemática dos comportamentos numa perspectiva ética. Mas antes de penetrar com o maior respeito nesse Santo dos Santos da reflexão filosófica, devem nossos passos novamente voltar atrás, reconduzindo-nos cronologicamente ao ponto em que deixei o relato da evolução autobiográfica. Os anos na diplomacia, percorrendo o mundo e assistindo in loco a alguns dos principais dramas da centúria - a IIª Guerra Mundial na China e na Turquia, 1941/45; a Guerra Civil na China em 1947/49; o conflito árabe-israelense, 1967/70; e os tremores anunciadores do colapso iminente do "Império do Mal" na Polônia, 1979/81, - todos esses eventos foram seguidos paralelamente à "observação engajada" do desenvolvimento político em nossa própria terra. A leitura de Weber, de Aron, de Mises e Hayek, coincidiu com o desenvolvimento pontilhado de constantes turbulências em nosso país. Foram elas numerosas: 1924, 1930, 1932, 35, 37, 45, 54/55, 61, 63/64, 68/69, 85, 88, 89 e 98... a lista parece interminável, repetitiva, monótona, sempre acompanhada de brados desmemoriados, protestos retóricos e exclamações impulsivas sobre "a maior crise que o Brasil já atravessou"… Muitas vezes me provocam um tédio irresistível. O que ia eu enfrentar, no momento atingido por este relato, era mais grave do que tédio…

De 1967 a 70, fui embaixador em Israel e, cumulativamente, em Chipre. De novo, muitos daqueles que me conheciam consideraram a nomeação para Israel como uma espécie de punição. Na verdade, Costa e Silva e seu Chanceler Magalhães Pinto fizeram questão de se desvincular daqueles que haviam servido Castello Branco . Um único colega, Wladimir Murtinho, me felicitou pela oportunidade de ir observar uma das mais extraordinárias experiências sociais do século enquanto muitos diplomatas estrangeiros, com os quais mantinha relações mais estreitas, me parabenizavam pela demonstração de confiança que revelava o Governo brasileiro ao me indicar para o posto, tão no centro das atençõoes mundiais, na ocasião em que ocorria a vitória israelense na chamada Guerra dos Seis Dias. O caráter altamente estimulante e de alto pendor cultural da sociedade israelense, eufórica naquele momento de triunfo, me forçou a uma revisão de julgamento em relação aos judeus. Considero hoje essencial qualificar nossa civilização como judeo-cristã, eis que certamente é a Bíblia, incluindo o Velho e Novo Testamentos, o Livro comum, de máximo e fundamental valor, na perspectiva ética e metafísica da cultura que hoje integra o planeta inteiro. A atmosfera da Terra Santa, particularmente no período de Terrorismo e guerrilha larvada que se seguiu àquele conflito, deixou-me predisposto a um novo desafio introspectivo, a que me referirei pouco mais adiante. Até certo ponto, creio que o ambiente realmente estimulou a crise "mística" que estava prestes a sofrer.

NEKYIA E APOKATASTASIS -

a Descida aos Infernos, Retorno e Regeneração

Na base do quadro familiar que registrei ao iniciar este esboço autobiográfico, passei a adolescência e juventude na convicção, afinal de contas perfeitamente normal para a idade, que havia resolvido os problemas da existência e me devia considerar um homem racional ou, como uma colega, certa vez, sarcasticamente me lançou ao rosto, "civilizado e pronto para o self-government". As experiências da Guerra nos três primeiros postos fizeram fragorosamente ruir o monumento de minhas descabidas pretensões - ó vaidade das vaidades, tudo é vaidade! particularmente na ribalta da política e da diplomacia! Cabia agora conscientizar um novo patamar no "processo de individuação".

Acentua Jung que, na Primeiro Metade da Vida, devemos satisfazer as exigências da Natureza e só na Segunda estamos prontos para oferecer uma contribuição à Cultura. Até por volta da década dos 60, eu pretendia sem grandes transtornos me haver consolidado na nova etapa existencial. Ao entrar, porém, na idade perigosa dos quarenta e, depois, na etapa dos cinquenta anos, em que os fantasmas da velhice e a angústia da morte se aproximam e tecem suas artimanhas, os choques com a realidade exterior refletiram-se em crescentes turbulências interiores. Fiquei desabusado de injustificado otimismo. Senti-me estar caindo, pouco a pouco, num poço sem fundo e, em Israel mesmo, retomei contacto com a análise Junguiana graças à amizade de um suiço israelense, formado no Instituto de Zurique e estabelecido em Haifa, o Dr. Gustav Dreifuss. Confessa o Hamlet de Shakespeare, com palavras de desengano:

…O God! O God!

How weary, stale, flat, and unprofitable

Seem to me all the uses of this world.

Fie on´t!

Uma crise religiosa, precipitada quiçá pela atmosfera mística da Terra Santa, acompanhou o que se passava no setor da realidade objetiva, comportando tentativas fracassadas de traduzir em atos e empreendimentos práticos os mandamentos da moral cristã e da dogmática católica. Nessa época irrequieta, ainda brinquei ocasionalmente com a imagem utópica de uma Ordem eclesiástica que restabelecesse a tranquilidade, no mundo tão atordoado dos anos 60/70. A inauguração do Quinto Império? As paixões da alma não se deixam, porém, tão facilmente reduzir e esfriar.

De volta ao Brasil (1971/73) após a permanência em Israel, embrenhei-me na experiência catastrófica de pretender contribuir para a educação brasileira a partir de uma função burocrática. Aberrante quixotismo! Ao oferecer meus serviços ao Ministro Jarbas Passarinho, em cujas mãos se encontrava o MEC, enfrentei o espetáculo constrangedor da desordem e ineficácia burocrática nesse setor chave do governo da nação - em que o Ministro, como os outros antes e depois dele, igualmente se confundiram. O pior foi um breve e deplorável estágio como Diretor-Geral da Embrafilme. O desenlace coincidiu ou agravou uma rebordosa emocional provocada pela ruina de minhas expectativas profissionais na carreira e o questionamento existencial aguçado, justamente, pelo trauma provocado pela morte de minha irmã, após longo sofrimento de câncer, e logo a seguir pelo desaparecimento de minha Mãe. É sabido que a morte de seres familiares e queridos é frequentemente acompanhada de terríveis sentimentos de culpa, que agravam a atmosfera depressiva.

Não cabe aqui entrar em pormenores sobre os episódios decepcionantes que se sucederam. A parte interessante num horizonte de análise junguiana foram os sonhos então registados - muitos deles anunciando ou descrevendo o que se passava nos subterrâneos da psique. Cuido apenas de mencionar essa triste "Temporada no Inferno". Ao voltar desconcertadamente ao ninho, como se poderia dizer, no meu Ministério, o distúrbio foi aguçado nos dois primeiros invernos passados nas frias brumas e longas noites de Oslo. Ali servi, e cumulativamente na Islândia, de 1974 a 77. Em que pesem as condições positivas da embaixada, foi neste terceiro e último período de ausência do Brasil, antes de me aposentar, que atravessei a etapa mais perversa da Existentialeangst - crise tanto mais lastimável quanto apreciei Noruega e Islândia por sua extraordinária beleza natural, a cortesia e alto nível cultural de seus povos, e simpatia acolhedora que de modo algum merecem um julgamento negativo. A depressão e angústia existencial foram objeto das meditações de Kierkegaard, no século passado, e de Heidegger no nosso, introduzida como conceito nuclear da sua filosofia, qualificada, precisamente, como "existencialista". Mas será o caso de repetir as palavras de Graham Greene, outro depressivo, colocadas em seu romance "O Poder e a Glória": esse tipo de sofrimento nos traz apenas a fealdade, o fedor, o bulício da multidão. No entanto, toda dor, todo sentimento profundo, toda intuição excepcional não são suscetíveis de expressão verbal. O sofrimento, físico ou mental, pode apenas ser transmitido ao "Outro" de modo extremamente primário, e é essa barreira, semelhante aliás à do amante que, à amada, deseja manifestar a grandeza de sua paixão mas não consegue senão balbuciar palavras comuns, frases banais, gestos ou expressões fisionômicas superficiais, o abismo usual que se levanta no relacionamento entre o Eu e o Tu. Wittgenstein, esse estranho filósofo, às vezes hermético, às vezes místico, outras vezes brusco, disse uma frase que tem merecido frequente citação: Wovon man nicht reden kann, darüber muss man schweigen - "Aquilo que não podemos transmitir pela palavra, ou aquilo de que não podemos falar, devemos manter silêncio ou calar". A sentença, que consta de seu Tractatus Logico-Philosophicus publicado em 1921, depois de dez anos de matutações lógico-positivistas, exprime a essência do pensamento do anglo-austríaco sobre o problema da linguagem. A linguagem é feita para permitir a superação da barreira que existe entre nós - entre Eu e Você. Mas Wittgenstein demonstra a existência de uma fissura quase intransponível entre as palavras e a realidade subjetiva de nossos estados de espírito. Sua filosofia da linguagem foi elaborada em torno desse problema. A racha entre a sensibilidade e o mundo objetivo, como vamos verificar mais adiante, explica as teses sobre o perspectivismo e a relatividade das interpretações, propostas por Nietzsche. Sobre a impórtância do perspectivismo nietzscheano iremos insistir. Talvez ficasse Descartes mais próximo da verdade em seu Cogito se apenas afirmasse patior, ergo sum - "Sofro, logo existo"... Maior certeza ainda obtemos ao dizer moriturus, ergo sum... O sofrimento, a dor, física e mental, a morte, são certamente, no meu entender, o que de mais certo e seguro conhecemos, em matéria de realidade existente ou expectativa futura.

Na psicologia de Jung, fala-se na Nekyia. Frequente e abundantemente analisada, consiste no confronto decisivo com nossa própria Sombra. A Auseinandersetzung, fenômeno que amiúde nos afeta quando transitamos para a "Segunda Metade da Vida", coloca-nos francamente em face da nossa própria mortalidade. Argumentando com o negativo, tomamos então consciência ofuscante de nossas inevitáveis frustrações, perplexidades, sofrimentos e destino fatal. Só que, em meu caso particular, o fenômeno ocorria em forma mais aguda e idade relativamente mais adiantada do que o normal. A Nekyia é também uma Katabasis tal como é descrita no Livro XI da Odisséia, quando "desce" Ulysses à caverna profunda ad inferos para consultar o sábio Tirésias sobre seu trágico destino. Tirésias lhe anuncia uma cópia imensa de sofridas aventuras que terá de enfrentar antes de, finalmente, conseguir retornar ao lar e à família, em Ithaca, sua terra natal. Um outro famoso exemplo é o da descida de Dante ao Inferno, com que inicia a "Comédia". Perdido numa floresta escura, encontra Virgílio que o conduzirá depois ao Purgatório, até por Beatriz ser finalmente conduzido ao Paraíso.

Nel messo del cammin di nostra vita

Mi tritrovai per una selva oscura,

Ché la diritta via era smarrita.

Acredita Jung que o motivo mitológico se apresenta em toda a Antiguidade e, praticamente, em todo o mundo. Ele descreve o processo no capítulo (VI) de suas memórias intitulado "Confronto com o Inconsciente", cobrindo o período imediatamente posterior ao rompimento com Freud, a Iª Guerra Mundial, em que esteve mobilizado no Exército suiço, e os distúrbios mentais que o atingiram no princípio dos anos 20. O pensador suíço chegou a temer a iminente escuridão de uma psicose esquizofrênica, até emergir com sua própria visão criativa e uma nova interpretação da psicologia das profundidades. Nos casos que diríamos "normais", sofremos um processo pelo qual o Eu consciente se introverte e penetra nas camadas abissais do Inconsciente, extraindo de sua experiência motivos simbólicos, ditos "arquetípicos", impessoais e relacionados com o puramente coletivo.

No meu caso, registrei um sonho muito característico, quando ainda em Israel (1969), em que me encontrava num automóvel numa estrada no meio de uma imensa floresta tropical, fechada, e subitamente descobria um cavalo que estava sendo atacado por milhões de aranhas negras e se debatia na teia. Do barranco descia uma mulher. Mas o automóvel continuava seu caminho e se safava da emergência. O automóvel simbolizava, evidentemente, a consciência em que "Eu" me encontrava, antecipando uma solução positiva no desenrolar do drama. O cavalo representava meus próprios ímpetos cegos, desejos impulsivos e ambições, todos eles presos na imensa teia em que me iria envolver, com as aranhas enormes à procura de presas nos meandros da burocracia e da política em cuja rede fatal corria o risco de me perder ao voltar ao Brasil (a floresta tropical).

Na realidade, como descrição simbólica da luta mitológica do Herói, São Jorge, Perseus, o Rei Artur, contra o Dragão da Maldade, o processo de Nekyia dramaticamente configura um percurso no vale das Sombras da Morte. Em Oslo registrei outra série de sonhos, ou melhor seria chamá-los de pesadelos, em que me sentia mergulhar num abismo terrível de conflitos, guerra nas selvas, assaltos, sangue, cadáveres, vingança e terror. Objetiva e paralelamente, dois acontecimentos exógenos me afligiam. Sob o governo Geisel, foi o Itamaraty entregue à turma que se tornou, subsequentemente, conhecida como a dos "barbudinhos", embora no focinho não ostentasse seu chefe, o Ministro Azeredo Silveira, a ampla pilosidade de estilo marxista que veio a distinguir alguns de seus principais colaboradores. Entusiásticos promotores da diplomacia definida como "terceiromundista" e legitimada pela Teoria da Dependência, a expressão "barbudinhos" teria sido cunhada por um embaixador americano, Motley, nascido no Brasil, que recorria a seus amigos das Forças Armadas quando, junto ao Itamaraty, encontrava empecilhos às suas démarches pelos obsessivos preconceitos "anti-imperialistas". O segundo evento era o que se passava em Angola, onde os comunistas do MPLA se apossaram do governo de Loanda, foram logo sustentados militarmente pelos russos e os cubanos, e reconhecidos pelo governo brasileiro, assim obrigando Jonas Savimbi e sua UNITA a se refugiar nas florestas do sudeste, onde receberiam ajuda dos Sul-africanos. Anos mais tarde, ou seja exatamente em setembro de 1988, visitei a África do Sul a convite do embaixador sul-africano, amigo meu, e estive também em Jamba, que servia de capital ou quartel-general de Savimbi, inacessível em pleno cerrado no sudeste de Angola.

Em outro sonho relevante que tive, já agora em Oslo, como embaixador na Noruega (1975), havia referência aos acontecimentos de Portugal e de Angola. Os cubanos apareciam como os "adversários" no arquétipo da sombra. E ocorria literalmente uma visita a uma morgue em que não era permitido olhar para a face dos cadáveres - como na lenda da visita de Orfeu aos infernos, à procura de Eurydice, sua falecida esposa, ocasião em que não podia olhar para trás. Nessa última cena, registrava-se a lembrança de uma visita que eu realmente fizera, dois anos antes, ao departamento de anatomia patológica do Hospital de Base, em Brasília, e debaixo de um lençol, com os pés para fora, estava o corpo de um diplomata americano que morrera em acidente ou crime poucos dias antes.

Descrevi o movimento ideológico que contaminou amplos setores da opinião mundial como de natureza "nacional-socialista". Defendi o uso desse termo apropriado numa obra de 1985, reeditada em 94, sob o título "A Ideologia do Século XX", pois o sistema dogmático de pensamento combina um nacionalismo, entranhadamente anti-americano, com veleidades confusas de coletivismo e autarquia econômica, sob uma filosofia que poderíamos considerar como inspirada em Rousseau. O Terceiro-mundismo diplomático objetivava um suposto não-alinhamento, favorecendo, na realidade, a parte adversária no confronto mundial. O método era o da chantagem: "ou Vocês me ajudam, ou passo para o lado de seus inimigos"… Seus primeiros sintomas haviam ocorrido na chamada "Operação Pan-americana", ao tempo da Presidência JK (1958/59), na qual se distinguiu Araujo Castro. Homem de grande inteligência, ironia e fortaleza de caráter, ele estava destinado a se tornar o paradigma da jovem diplomacia brasileira nos anos sessenta e setenta.. Foi também a primeira vez em que me senti, claramente, colocado no ostracismo por meus colegas de Casa.

No segundo período do "não-alinhamento", destinado a superar a "dependência" da "nação marginal" em relação ao "Centro" capitalista, uma tal política foi direcionada pelo próprio Geisel, assistido por seu pernicioso Chanceler, obstinadamente empenhado em comprometer nosso relacionamento com os três países com os quais estamos mais intimamente associados, os Estados Unidos, a Argentina e Portugal. Geisel, filho de imigrantes sem compreensão ou contacto com as raízes brasileiras, a meu juízo desgraçou o país com efeitos que perduram até hoje, pela política centralizadora e estatizante que colocou mais da metade do PIB brasileiro nas mãos incompetentes e corruptas do Estado patrimonialista.

No âmbito externo, a "Revolução Cultural" dos anos 60 e 70 parecia demonstrar ser correta a afirmação da "Esquerda" de que o mundo caminhava para o coletivismo igualitarista e totalitário. No Vietnã, os americanos haviam registrado um inédito desastre, antes político do que militar, enquanto sofria toda a sociedade ocidental as repercussões da grande subversão sexual que abalava os próprios fundamentos da moral familiar de nossa civilização. Trinta anos depois procurei consolidar minhas observações sobre esse aspecto da conjuntura numa obra de título "O Jardim das Delícias", ainda não publicada. Em várias outras partes do mundo, tinha-se a impressão que um vasto movimento de flanco através do Terceiro-Mundo servia a Leonid Breshnev para promover a extensão do Império comunista, sem desafio direto ao poderio nuclear americano. A Europa estavas sendo "finlandizada". E em Angola, adiantara-se o Brasil a outras nações para favorecer o partido que, através do apoio de mercenários cubanos, iria permitir a colocação do poder naval soviético no Atlântico Sul, bem em frente às nossas costas. Misturando as preocupações políticas com meu próprio conflito profissional e pessoal, o que se projetava sobre o futuro era a evolução de meu pensamento filosófico do anti-coletivismo, puro e simples, para uma atitude mais sofisticada que, por etapas sucessivas nas duas décadas seguintes, me iria conduzir à abordagem do liberalismo moderno - de Locke, Adam Smith, Burke, os Pais Fundadores americanos, Tocqueville e Acton, a Berlin, Aron, Popper, Mises e Hayek.

Em suma, a experiência por que passei foi deplorável. Após longas tentativas de me libertar do pesadelo, que se prolongou até o ano de 1977 quando fui servir em Quito, no Equador - a saída da depressão consistiu no projeto de vigorosa e crescente dedicação ao estudo e à produção ensaística. O caminho da cura me foi, muito suave e francamente, indicado por um Mestre e amigo, o professor Carl Albert Meier, já acima mencionado. Meier fôra meu "analista" em Zurique, à época em que frequentei o Instituto Jung. Fizera análise como parte da aprendizagem propedêutica nessa prestigiosa instituição. Eu costumo visitar regularmente Zurique. É a cidade mais bem organizada, confortável, rica e segura (ainda que, não necessariamente, uma das mais divertidas…) da Europa. Aproveitando a ocasião de uma longa entrevista, numa visita ocasional, o Dr. Meier sugeriu-me ser a solução do problema do restabelecimento do equilíbrio emocional e espiritual, com a redução da "tensão dos opostos", possivelmente encontrada no trabalho intelectual criativo. Muito devo a esse médico e professor que, na famosa Escola Politécnica de Zurique - também a alma mater de Einstein, Pauli e outras sumidades da ciência moderna - foi herdeiro da cátedra de psicologia que Jung ocupara. Posteriormente fundador do Instituto C.G. Jung de Psicologia em Küsnacht, subúrbio da cidade, esse suíço sólido e confiável para mim representou uma espécie de guru, psychopompos ou "condutor da alma", como Virgílio a de Dante na Divina Comédia que é a vida.

EPÍLOGO PROFISSIONAL

Quando de 1979 a meados de 81 servi em Varsóvia, como último posto da carreira, considerei-me preparado para o derradeiro capítulo que a Comédia nos reserva. Assisti na Polônia, primavera de 1981, aos primeiros sucessos do movimento da Solidarnosz que iria, oito anos depois em toda a Europa oriental, eliminar o comunismo e desencadear o movimento geral destinado a derrubar o Muro de Berlim e desintegrar o Império soviético. O escândalo da dívida polonesa, contra a qual me rebelei com indignação (a dívida que ainda permanece na casa dos quatro bilhões de dólares, foi o mais desastroso empreendimento externo que nos custou a política terceiromundista de "não-alinhamento"), configurou o fogo de artifício final nos 43 anos de minha atividade profissional no Ministério das Relações Exteriores. Em julho de 81, com 64 anos de idade, celebrei a aposentadoria, e bem me recordo da sensação de alívio e liberdade que me proporcionou quando, de automóvel, parti para a Europa ocidental, a caminho do Brasil.

O modo relativamente indolor com que me safei de uma possível recaída, nessa etapa final perigosa, pode também ser em parte atribuída à residência em Brasília. Nessa cidade, ou mais especificamente, em minha "mansão" batizada de Castália no bairro denominado Parkway, encontrei o ambiente adequado ao prosseguimento intensivo da produção intelectual - livros, artigos de jornal, conferências, etc. É Castália, incidentalmente, a fonte de Apolo em Delfos, de onde segundo a tradição grega emergia a água lustral em que se desalteravam os "amantes da sabedoria". O termo foi usado por Hermann Hess para designar o país utópico em que localiza "O Jogo das Pérolas de Vidro", obra que lhe valeu o Prêmio Nobel. Por coincidência, estava lendo o "Magister Ludi" ao construir a casa onde hoje resido. Ao retirar-me para Castália, constatei que prudentemente seguia o conselho terminante de Voltaire: "il faut cultiver son jardin"… Toda minha vida, profissional e paralela, adicionada a quase mais vinte anos de meditação no refúgio da aposentadoria, me haviam facultado a acumulação de um patrimônio de experiências e conhecimento com o qual posso alimentar a esperança de, eventual e subrepticiamente, extrair-me da Caverna de Platão...

Como atividade subsidiária, exerci de 1982 a 89 o magistério na Universidade de Brasília, no Departamento de Relações Internacionais e Ciência Política. O Magistério tem a virtude de nos remoçar com o contato direto da juventude, além da satisfação espiritual que nos proporciona ao cumprir o dever de transmissão cultural. Infelizmente, o ensino universitário brasileiro está afetado por vícios profundos que, no correr dos anos, acabaram por me desencantar da expériência. As greves constantes, a indisciplina dos jovens, a desordem administrativa e a contaminação geral do ambiente pela ideologia pseudo-marxista se adicionaram àquela frustração.

Passei então a colaborar com um grupo privilegiado de amigos com os quais fundamos a Sociedade Tocqueville. Logo a seguir transitei para uma já organizada instituição que, ao contrário da Sociedade, estava provida de fundos, já tinha sede em sete cidades brasileiras e exerce esforçada atividade de divulgação do ideário de Mises e Hayek. É o Instituto Liberal. Ali, como Presidente do IL de Brasília, me enriqueci com relacionamentos tão preciosos quanto os da Tocqueville. Donald Stewart, Og Leme, o admirável e dinâmico grupo de jovens empresários de Porto alegre, o professor Nelson Lehmann da Silva, meu colega em Brasília, deram-me o privilégio de sua amizade e colaboração numa tarefa tão ingrata quanto patriótica e verdadeiramente "Liberal", com L maiúscula.

Após a descrição dos aspectos exteriores mais relevantes da biografia, chegado é o momento para aprofundar-me no contraponto interior ou subjetivo dessa mesma - em breve resumo conclusivo... Todo o processo descrito nas páginas anteriores coincidiu, de fato, com uma lenta e profunda transformação de convicções e posicionamentos intelectuais. Progredí, creio. Ou, pelo menos, assim o espero. Evoluí aos poucos de uma postura "ortodoxa", de conteudo dito "conservador", já condimentado com forte dose de dúvidas e ceticismo - que se manifestava pela obediência respeitosa ao Patriarca Soberano, símbolo e detentor do poder temporal, e à venerável Mater et Magistra da tradição brasileira, senhora do poder espiritual - para o ideário do Liberalismo. Isso, tanto em matéria política, quanto para o "livre pensamento" em matéria religiosa. Considero-me hoje membro da comunidade a que se refere o filósofo polonês Leszek Kolakowski - que conheci em Londres, em 1980, e revi subsequentemente em Brasília, a dos "Cristãos sem Igreja", nos limites entre o agnosticismo e a Gnose... Explorei com uma curiosidade que, felizmente, jamais definhou, o máximo que me foi concedido obter através da leitura e pesquisa de um largo espectro do pensamento moderno, no terreno da história, da filosofia política, de assuntos sociais em geral e de filosofia pura, desde o mal chamado "existencialismo" até a filosofia da ciência e a teologia. A partir da aposentadoria, os eventos interiores se desenvolveram paralelamente ao rápido encaminhamento da questão da modernização e globalização planetária, com o marco histórico do annus mirabilis de 1989. Coincidiram tambem com um enfarte.

Sem gravidade, a crise cardíaca foi minha maneira de homenagear, no stress, a queda do Muro de Berlim, o desmoronamento como um castelo de cartas do "Império do Mal" e, no Brasil, o acontecimento inédito de haver sido barrado o caminho eleitoral ao candidato dos botocudos. Realmente não sei se o stress colaborou na etiologia do mal das coronárias mas me abstive, desde então, de participação direta em qualquer atividade que implicasse contato mais direto com política partidária. Com uma única exceção. Colaborei na frustrante Campanha do Plebiscito em favor da alternativa da monarquia parlamentarista a qual, em que pese seu aparente obsoletismo, continua me parecendo o método mais racional e eficiente de governo, tal como demonstrado pelos países da comunidade britânica, neerlandeses, escandinavos, Japão e Espanha.

O afastamento em relação ao venerável passado eclesiástico, porém agora insustentável, foi progressivo. Procurei cuidadosamente evitar um pecado, tão comum na velhice, de deblaterar contra o presente, invocando as delícias do que se passava na "minha época"... O abandono da Santa Madre, a ser semanalmente frequentada, se deu suave e tardiamente, com prudência e respeito, já no final da década que marcou o colapso do regime militar no Brasil. E por dois motivos. Passei a considerar como irracional a obstinada atitude do clero, em matéria de controle da natalidade, e a suspeitar estivesse ele, pela "mão estendida" sem prudência, sendo progressiva e perigosamente infestado pelo Marxismo da chamada "teologia da libertação" - algo que melhor chamaria uma "teratologia da opressão". Afinal de contas, se é verdade que a distribuição da renda em nosso país é, não necessariamente injusta mas desigual, grande parte da culpa se deve ao alegre expansionismo reprodutivo das classes mais pobres, particularmente entre adolescentes das favelas urbanas e áreas rurais atrasadas. Qualquer incentivo à proliferação irresponsável deve ser condenado e foi esse erro, justamente, o que sempre atribuí ao clero católico. As raízes do igualitarismo de esquerda no Brasil são românticas. Elas devem ser investigadas, em última análise, nas masturbações mentais de Rousseau, uma alma danada que há muito detesto. A insistência no conceito de "justiça social" não passa de um álibi para a consciência do intelectual que, reconhecendo embora o desgoverno do país, nada quer ou pode fazer para remediá-lo.

Nessas condições complicadas, entrei em dissidência com a situação religiosa do país. Os aspectos extravagantes do aggiornamento e as mesaventuras da "Nova República" com a Constituição dos Miseráveis sob o lamentável governo dos três primeiros presidentes civís, agravaram meu descompasso com o que geralmente acontece no setor público do país. Fortaleceu-se a convicção que sofre a Igreja eflúvios de macumba ideológica aos quais deliberadamente deixa de resistir, enquanto a elite intelectual toma a Cuba de Fidel, o Iraque de Saddam Hussein ou a Líbia de Ghadafi como modelos - essa mesma elite que chegou a venerar a Albânia estalinista como paradigma do ideal de "não-dependência". A gota dágua coloca-se, provavelmente, na ocasião em que, penetrando no limiar de uma igreja para a Missa de Natal, me defrontei com uma imensa estrela vermelha. Ora, fui educado na convicção empírica, reforçada pela meditação sobre a importância dos símbolos, que toda estrela é branca, inclusive a "Nova" que, segundo se supõe, teria conduzido os Reis Magos a Bethlehem faz lá disso dois mil anos. A aberração era inaceitável. O vermelho da estrela agiu como a capa de um toureiro sobre um animal enfurecido. Para piorar as coisas, numa missa anterior que assistira, o sacerdote estrangeiro, já inspirado na atmosfera dionisíaca que melhor explode nos festivais de rock do padre Rossi, transformara o sacrifício eucarístico num carnaval de atabaques, pandeiros e tambores - tudo mais condizente com o culto venéreo do deus Eros do que com o da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Duas obras exprimiram então minhas perplexidades, ressentimentos e protestos - "O Evangelho segundo Marx" e "Opção Preferencial pela Riqueza". Os títulos definem por si mesmos o conteúdo dos arrazoados desenvolvidos. Uma certa nostalgia e sentimento de remorso em relação à Mater et Magistra, pela "traição" que eu secretamente sentia estar perpetrando, acompanharam a iniciativa de auto-excomunhão. Por outro lado, desprezo, uma irresistível ojeriza e mesmo nojo, foi o que desse momento em diante se destacou na minha atitude mental em relação ao Estado e à política. Desenvolvi a tese que o episódio da tentação de Cristo no deserto é da maior relevância para uma correta interpretação do Cristianismo. Registrado nos Evangelhos, o indignado repúdio de Cristo à oferta demoníaca do poder político sobre todos os reinos da terra, no Vade Retro, Satana, impinge na necessidade de suspeitar sempre da corrupção do Poder - seguindo nisso o famoso aforismo de Lord Acton - sem esquecer, todavia, que a toda sociedade se impõe o dever de assegurar aos cidadãos a solidez do Estado de Direito, caso tencione viver em liberdade. Liberdade e Segurança são exigências contraditórias do homem. Consequentemente, diante do dilema, ou na metaxy como diria Voegelin, na tensão dos opostos entre Ordem e Liberdade, entre Segurança e Desenvolvimento, prospera a noção de uma ética da responsabilidade individual que satisfaça às exigências da modernidade global.

O tema do impacto revolucionário de nossa época foi objeto de uma obra que me exigiu intenso trabalho pela pesquisa efetuada, publicada em 1998 sob o título "O Espírito das Revoluções". A idéia básica é que o fenômeno revolucionário que absorveu as energias dos povos do Ocidente e, por contágio, do Oriente também, e tamanhas calamidades tem causado, se pode compreender como uma procura dolorosa da idéia de liberdade. Quando essa procura, como sói acontecer tão frequentemente, toma um caminho falacioso que conduz ao descarrilamento, surge o totalitarismo homicida, desde suas formas primárias no Jacobinismo da Revolução francesa até aquela "tentação totalitária" registada em nosso século e tão exaustivamente analisada por Roque Spencer Maciel de Barros. O caminho certo, aquele que só a partir de 1989 brilhou em toda sua clareza é aquele que foi definido por Hannah Arendt como o da institucionalização da Liberdade, tal como se consolidou na democracia constitucional dos povos anglo-saxões que vivem hoje sob um "estado de direito" (the rule of law). O livro define, em suma, a "Revolução Gloriosa" que, de 1689 a 1989, estendeu o tipo de democracia liberal e economia de mercado pelo mundo avançado e enriquecido. Lá pela época que terminava o meu trabalho conheci Olavo de Carvalho. Dele me tornei amigo e li toda a obra, notável pelo ardor de seu ataque à intelectuária de Esquerda e pelo incomparável humorismo que utiliza como arma afiada em tal combate.

Os reflexos místicos de tais cogitações seculares seguiram um curso paralelo e perduraram nas profundidades abissais da alma, superficialmente encobertas pelo rastejante ceticismo de que é a velhice terreno fértil. Uma idéia básica que orienta toda a obra que estou procurando desenvolver é a de um fenômeno generalizado de rebelião contra o que poderíamos qualificar como o arquétipo do Pai. Em seus vários aspectos políticos, sociológicos, teológicos e mesmo sexuais, a ênfase deve ser colocada nesse caráter caleidoscópico do processo revolucionário. Na base de tudo está a realidade da "Síndrome da Morte de Deus", tal como foi proclamada nos loucos berros de Nietzsche: "Deus morreu e fomos nós que o matamos". As consequências dessa descoberta, que em fins do século passado deveria ter sido óbvia, apareceram com terrível acuidade em nossa século: "Deus morreu". Proliferaram, porém, todos os demônios de que é a natureza humana capaz de gerar. Uma explosão de dinamite era como Nietzsche descrevia suas tremendas intuições relativas às consequências da transmutação de todos os valores, implícita na "descoberta" do homicídio teológico. Foi a revolta contra o Pai, a tese que Freud explorou com sua noção de Complexo de Édipo, coletivamente transposta para as ciências sociais em suas obras derradeiras de "metafísica" psicanalítica, o que teria gerado a necessidade do homem moderno atender às suas ilações, no campo da política, da teologia e, sobretudo, da moral. Se Deus não existe, como postulam alguns, como postulam muitos, o diabo com certeza figura com indiscutível preeminência nos anais de nossa centúria. Nessa perspectiva, Lúcifer Sabaoth tornou-se objeto particular de minha atenção e pesquisa.

Mantenho a crença possua a humanidade um destino transcendente. Nossa presença no universo talvez não dependa apenas das Moira (ou Moirae), deusas caprichosas e estocásticas, desprovidas de qualquer sentido racional em seu comportamento e sua ação sobre os humanos. Depende de algo mais, que ignoramos mas sentimos existir. A fé e esperança em tal transcendência compensariam o desesperado niilismo provocado pela consciência da nossa divina orfandade. Nossa ignorância é o que cumpre enfatizar, ao nos dar conta da realidade - a realização de que estamos diante de um Deus absconditus ou Deus ignotus o qual, como aconselhava o mui sábio filósofo e cardeal Nicolau de Cusa (+1464), devemos reconhecer a partir da confissão da docta ignorantia, a grande virtude, tão rara, que creio caber ao verdadeiro filósofo. A vida é um mistério e, nessa constatação, José Severiano de Rezende, conforme a interpretação de sua obra na pesquisa realizada por José Maurício de Carvalho, abriu o caminho dos "tradicionalistas" brasileiros de princípio do século para a presença do existencialismo em nossa filosofia.

O problema central que então devemos, certamente, formular é o mesmo que Nietzsche, com seus aforismos escritos a marteladas, levantou, sem lhe dar resposta. Como pode uma sociedade ordenada sobreviver, quando em vão procuramos justificação superior para os imperativos morais do comportamento? Pois a não ser quando são nossas ações meramente rotineiras, com a repetição fastidiosa das mesmas atividades impostas pela vida prática, sempre estamos nos comportando de acordo com determinados padrões éticos. O termo grego ethos é isto mesmo: comportamento, hábito, caráter. Em Sócrates primeiramente, depois em Platão e Aristóteles, e em São Paulo, Agostinho e os Santos Padres da Igreja do final da Idade clássica à Idade Média, e em Kant, no apogeu do pensamento europeu, em Nietzsche há pouco mais de cem anos, em Jung e Voegelin, suficientemente próximos de nós para que eu os tenha pessoalmente conhecido, e em muitos outros filósofos e teólogos da modernidade - surge a questão dos fundamentos da Moral numa emergência em que o Deus absconditus se faz lembrar pela sua discreta ausência, senão mais do que óbvia abstenção ou eclipse.

Sócrates foi condenado à pena capital - que disso nos recordemos enfaticamente! - sob o pretexto que desprezava os deuses de sua cidade. A impiedade ou mesmo o ateísmo compuseram os artigos de seu indigitamento pela assembléia da democracia ateniense. Ora, Sócrates apenas declarara que, em seus ensinamentos aos jovens, dava lugar preferencial à procura dos fundamentos éticos do comportamento, à idéia de justiça, à beleza e ao bem (o ideal do Kalogathos), aos métodos de seleção dos melhores governantes, etc. - pois dos deuses pouco podemos saber. A paideia socrática era ética, a pedagogia da idéia de Justiça e da idéia do Belo e Bem moral. Kant foi mais além. Seu imperativo categórico transforma a divindade em mero sustentáculo metafísico de uma transcendência abstrata, cujo verdadeiro conteúdo na "coisa em si" (Ding an sich) jamais poderemos alcançar. Jung sempre foi acusado de Gnosticismo, particularmente numa pequena obra do filósofo e místico israelense Martin Buber que escreveu, não sobre a Morte, mas sobre "O Eclipse de Deus". Jung teria transformado Deus em simples "arquétipo" do Inconsciente Coletivo, dando-lhe o nome de Selbst, o Si-mesmo.

É bem verdade que Jung não escondia sua Gnose e foi um dos principais responsáveis pela renovação do interesse da pesquisa moderna pelas divagações desses espiritualistas entusiásticos dos primeiros séculos de nossa era. Ficou célebre a resposta que, em março de 1959, dois anos antes de morrer, ofereceu a um entrevistador da BBC de Londres, John Freeman, que era também editor da revista New Statesman. Freeman lhe perguntara se acreditava em Deus. "Eu sei" (I know) foi a réplica imediata do psicólogo suiço. "Não preciso acreditar, Eu sei". O "Eu sei" é uma fórmula francamente gnóstica e significa que ele, Jung, se valia de um conhecimento direto e incontroverso da presença da divindade dentro de sua própria psique, quaisquer que fossem as condições da realidade externa. O que verdadeiramente interessava Jung era a alma humana. A Psychê é a instância suprema da qual, como jamais cansou de insistir, depende toda a história, toda a civilização, todo o destino da Humanidade nesta época de tão tremendas mudanças.

E Voegelin? Vou dar-lhe mais destaque nesta altura do discurso porque bastante relevantes são suas idéias para referência ao momento em que atingi em minha própria "consciência transcendente", tão repleta de questões e dúvidas, melancolia, angústias e esperanças sempre normais no último estágio da vida. Estando em posto em Zurique, por volta de 1962 ou 63 fui a Munique, em cuja Universidade ele estava lecionando, depois de lhe solicitar uma entrevista que ficou bem marcada em minha memória. O pretexto para o encontro fôra meu declarado propósito de traduzir a obra "A Nova Ciência da Política" em que Voegelin derrama seu fel sobre os gnósticos e acusa o gnosticismo de haver contaminado, em sua versão ideológica contemporânea, a intelectualidade com as utopias e os eflúvios revolucionários violentos que a caracterizam (essa obra, como se sabe, foi posteriormente publicada, pela Editora da Universidade de Brasília, em uma versão extremamente defeituosa). Eu alimentava, àquela altura, minhas próprias dúvidas ansiosas sobre as lucubrações gnósticas de Jung. De qualquer forma, a entrevista acabou se perdendo em um debate ocioso sobre os arquétipos junguianos que me deixou profundamente frustrado. Tive, aliás, a impressão de ser Voegelin um personagem de maus bofes, introvertido, impressão que não é de modo algum corroborada na leitura de suas últimas obras. Destas, a que me mais me impressionou foi Anamnesis, escrita em alemão, traduzida para o inglês e publicada em 1978, com vários capítulos dos anos 60. As "Reminiscências" voegelinianas se caracterizam, juntamente, por sua abertura, seu bom humor, clareza e humanismo - em profundo contraste com a imagem da Persona que me deixara em Munique.

O ponto relevante na perspectiva em que aprecio o impacto em mim causado pelo pensamento desse que o professor Anibal Bueno, catedrático no Departamento de Filosofia e Humanidades no Morehouse College, em Atlanta, considera corretamente como um dos mais profundos e importantes pensadores de nosso século - diz respeito à tese de Voegelin sobre a "experiência noética". A experiência vital assim qualificada de "noética" consiste no questionar que emerge como resultado do conhecimento, por nós adquirido, de não estar o Ser do homem fundamentado em si-mesmo (experience of questioning rising from the knowledge that man´s being has not its ground in itself). A palavra ground, em alemão Grund, não é de fácil tradução. O termo being, em alemão Sein, muito empregado em filosofia existencial, tampouco tem um sentido que captamos com facilidade, por sua vastidão e profundidade. Tal como entendo, a idéia que desejaria Voegelin transmitir é que nossa base existencial é de natureza transcendente. A experiência noética acima referida implica, no argumento em pauta, uma permanente procura da origem das coisas. A impossibilidade de alcançar um conhecimento concreto de tal origem conduz à criação de mitos interpretativos. Um deles é o que figura no livro da Gênese em que consta: "Deus disse: haja a luz!" (Gênesis 1:3). Lúcifer, numa interpretação gnóstica, é precisamente o Sabaoth que "traz a luz" (do latim Lucis + ferre), o mesmo que, no momento crucial da "tentação" no Paraíso, prometerá a Eva e Adão "vossos olhos se abrirão e sereis como Deus, conhecendo o Bem e o Mal" (Gênesis 3:5). Em outras palavras, é aquele que nos proporciona a luz da consciência. Esse episódio relatado em tal forma mítica nada mais faz, em suma, do que fundamentar a natureza transcendente do imperativo ético em sua escolha inevitável do Bem e do Mal.

A frase hebraica com que principia o livro da Gênese: "No princípio (bereshit) criou Deus o Céu e a Terra" exige igualmente uma interpretação psicológica adequada. Há uma diferença fundamental, me parece, entre o Bereshit e o Big-Bang da física moderna. Este é uma simples "hipótese de trabalho", eventualmente falsificável segundo as exigências de Popper. Configura o esforço lógico da ciência moderna no sentido de ir recuando no tempo cósmico, a partir da observação empírica - realizada aliás muito recentemente, ou seja, há pouco mais de 60 ou 70 anos - de que as galáxias se afastam umas das outras a velocidades crescentes, quanto mais distantes estejam. Imagem mitológica, na interpretação de psicologia analítica, e hipótese de trabalho na pesquisa científica seriam as alternativas que caracterizariam a experiência noética do homem, ao exigir um encadeamento de causas originais e singulares, na dupla perspectiva da introspecção e da investigação objetiva do Universo.

Num livro igualmente recente do eminente biólogo, paleontologista e divulgador científico de Harvard, Rocks of Ages (1999), Stephen Jay Gould propõe o princípio que denomina NOMA (em inglês, "nonoverlapping magisteria"). Quer dizer que não devemos opor, porém respeitar os magistérios respectivos da ciência e da religião, trabalhando cada um em sua esfera própria, sem mútua interferência. Ora, acontece que do inevitável encadeamento de que fala Voegelin resulta, como acentua, a possibilidade de descarrilamentos, tais como aquilo que se chama "as provas da existência de Deus". O uso do termo "descarrilamento" é muito comum na obra voegeliniana. Outro termo por ele usado é metástase, para indicar a evolução cancerosa que tomou a Ideologia ao tentar se transformar numa pseudo-religião civil, com sua própria ética imanente, no desejo ilícito de preencher o vácuo exitente após o deicídio.

Em suma, sabemos que nosso "fundamento existencial" (Ground of Being) não está em nós mesmos. É portanto transcendente. Dessa constatação implícita, creio eu, na maneira como Sócrates/Platão e Kant abordam a questão noética, podemos deduzir que a "existência" ou inexistência de seres divinos ou de Deus não podem ser provadas. Deus não necessita, tampouco, de qualquer prova, pois a "verdade" de um "mito" consiste em ser inadequado. Ele é inadequado como símbolo da experiência imediata, a priori, de que o Ser não está fundamentado em si-mesmo. Sofremos quando muito, inspirados talvez por uma Graça inexplicável, pela intuição, ou o sentimento, ou pela intelligence du coeur dos franceses, a certeza que algo acima de nós nos impõe essa ou aquela convicção, e este ou aquele comportamento em determinada emergência. Jung repetidamente insiste, no correr de sua obra, que Deus é uma realidade psicológica, algo dentro de nós, algo que tampouco pode ser provado ou desmentido.

Assinala Voegelin, entretanto, que tais "provas" ociosas da Existência de Deus, ou de qualquer premissa ideológica como a do Materialismo Histórico ou da Libido sexual freudiana, têm sido sugeridas desde algumas insinuações do próprio Aristóteles, de tal forma que Kant demonstrou serem baseadas em falácias. Como explicar então o fenômeno que se insista, teimosamente, em querer provar, ou a existência ou a inexistência de Deus? Voegelin acentua que uma forma sui-generis de mito surge quando o nous, a razão trancendente tal como ele a concebe, é demovida de sua verdadeira posição como "transcendência" e se transforma numa ratio imanente ao próprio mundo, hipostasiada como fonte autônoma da verdade.

O que realmente todo esse raciocínio voegeliano quer exatamente significar, confesso não poder alcançar a ponto de transmiti-lo aos prezados leitores destes ensaios numa linguagem de amena leitura. Voegelin, obviamente, não aceita a Revelação cristã como fonte única, repito, como fonte única, da verdade. A filosofia seria o instrumento mais poderoso de perseguição da divina Aletheia, mais poderoso do que aquele que pode ser manuseado para desvendá-la pela metafísica ou pela hermenêutica dos textos das Escrituras. Estou pronto a concordar com essa postura. É como resultado de tal conclusão que chego à idéia de propor então, como cúpola de todo o edifício da ética numa Teoria final das Virtudes, a presença daquelas três soberbamente proclamadas por São Paulo, as três, Fides, Spes, Caritas ou Amor - virtudes ditas "sobrenaturais". Uma melhor denominação, quer me parecer, seria a de "virtudes transcendentes".

Por curiosidade podemos recordar que vamos encontrar uma discussão da "táboa de valores" que funciona como esqueleto racional da ética num autor inesperado, José Maria da Silva Lisboa, Visconde de Cairu. Mencionado por Antonio Paim e José Maurício de Carvalho, Cairu "tem grande importância como um dos primeiros estudiosos do liberalismo no Brasil". Foi estudioso da obra de Adam Smith e tradutor do famoso "Inquérito sobre a Natureza e Causa da Riqueza das Nações" (1776), o marco fundamental do Liberalismo moderno. Mas também, como Smith que foi professor de ética e escreveu uma "Teoria dos Sentimentos Morais", o Visconde "esteve seguro do caráter ético-normativo das doutrinas econômicas" - algo que é tão difícil a nossos críticos contemporâneos do Liberalismo de compreender e aceitar. Na sua táboa de valores morais, Cairu dividia as virtudes em individuais, domésticas, sociais e teologais. Oportunamente, ao final do trabalho sobre Ética que estou empreendendo, colocarei a minha própria versão desse esquema das virtudes, já esboçado, todavia, na figura 1.

Em minha própria concepção da "táboa das virtudes", encareço a segunda, a Virtude de Esperança - Spes em latim, Élpis em grego. São Paulo privilegia o Amor, talvez com razão. Não quero discutir preferências. Em geral concordam as pessoas que acima de tudo está o Amor, mas como sou um intuitivo com certo grau de otimismo existencial coloco a Esperança em posição primária. Tudo que, entretanto, podemos fazer em matéria de investigação filosófica de assuntos transcendentes, é esperar que nossa "experiência noética" esteja no caminho certo e se projete de modo adequado, sobre o futuro . Esperança pois,

Cette petite Espérance qui n´a l´air de rien du tout.

Cette petite fille Espérance.

Immortelle

dos imperecíveis versos de Péguy no "Pórtico do Mistério da Segunda Virtude", é o que invoco.

Tal o material e o humor com que passei a elaborar a ensaística filosófica nesta altura da vida e... nesta altura do presente ensaio. A esperança que me anima de dizer algo que faça algum sentido. Algo que justifique o trabalho. Algo que vos possa oferecer...

Compilado em 28/10/2001
Fonte: Vários sites na Internet

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