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Segunda-feira, 23 de julho de 2001
Quem defende a moral?
Uma visão realista sobre o mundo em que vivemos nos faz descobrir, com certa angustiada perplexidade, não serem os critérios de eficiência e de ética necessariamente conciliáveis. Os valores da política não são idênticos aos da moral fraterna. A manipulação do poder age numa perspectiva diversa da fidelidade aos Dez Mandamentos. Há 150 anos Karl Marx se dava claramente conta disso, ao refugar qualquer apelo à Justiça no corpus de sua doutrina e qualquer moralismo alimentício, empregatício, hospitalar ou outro.
Referindo-se aos miseráveis, indigentes e afavelados que, em A Ideologia Alemã, denunciava como Lumpen ("lixo esfarrapado"), Marx os descreve como "ralé, massa apodrecendo passivamente, expulsa pelas camadas mais baixas da velha sociedade (...) e preparada para o papel de instrumento subornado da intriga reacionária"... Os Misérables, os desgraçados, necessitados, mendigos, roceiros, meninos de rua, "as flores dos esgotos" a que se referia Cruz e Souza, são todos aqueles que despertam a consciência angustiada de um cristão. Comentando a Crítica do Programa de Gotha, texto constitutivo da Primeira Internacional (1864), o maior de todos os socialistas escreveu com ironia: "Impuseram-me ao preâmbulo duas frases sobre os deveres e os direitos, a Verdade, a Moral e a Justiça. Mas os consignei de tal maneira que não possam fazer mal algum"... No próprio Manifesto Comunista aliás, Marx evidencia suas convicções: "As leis, a moral, a religião são simplesmente preconceitos burgueses detrás dos quais se escondem outros tantos interesses burgueses."
Cito essas frases porque um dos grandes paradoxos da atualidade é a transformação do principal partido marxista brasileiro, o PT, em paladino da moralidade pública, invocando, em seu programa de governo, a eficiência de uma economia política produtiva e os altos ideais da Justiça Social. O segundo paradoxo é que a elite da opinião pública, expressando-se inclusive pela boca dos mais lúcidos agitadores da esquerda, denuncia a corrupção e a imoralidade dos políticos, como se considerasse a função pública como principalmente responsável pelos sucessivos escândalos. O Brasil estaria sendo vítima de governantes desvergonhados. Agora, terceiro paradoxo, recentes dados do Ibope, veiculados pela Veja, revelariam estar a maioria da população desejosa de voltar atrás no processo de abertura e privatização, inclinando-se pelo socialismo e uma re-estatização parcial da produção.
Ora, essa "terceira-via" é contrária à corrente dominante no mundo avançado.
Nela incluo o sistema chinês de "um país, dois sistemas". E, desses paradoxos, concluo que a espécie de mal-estar ou pessimismo catastrofista, contaminando a mente do brasileiro "engajado", resulta do sentimento a nível subliminal da impossibilidade de harmonizar o melhor dos dois mundos possíveis. Se uma burocracia cada vez mais numerosa, arbitrária e intervencionista deve reduzir a pobreza, como pensa por exemplo o deputado Genoíno (no JT de 14 de julho), não vejo como evitar um incremento da corrupção, juntamente com o decréscimo da eficiência econômica. O modelo europeu não é superior ao americano. A Europa continua mais pobre e menos eficiente do que os EUA, precisamente porque se recusa a praticar o modelo liberal integral. O argumento e os dados do eminente petista não são corretos. Enquanto cresce o desemprego (fator não mencionado por Genoíno) na União Européia que caminha para a estagnação com um Welfare protegendo os preguiçosos e deixando uma massa informal de árabes, africanos e asiáticos, indesejáveis, no lugar que os europeus favorecidos desprezam, os EUA recebem pobres para enriquecê-los. São milhões de imigrantes e clandestinos da Ásia e América Latina que, enquanto não integrados, afetam naturalmente os índices relativos de bem-estar.
Na realidade, o "sistema chinês" que o PT ambiciona visa, simplesmente, a preservar um setor produtivo, privado e cada vez mais abafado por uma tributação extorsionária (os "burgueses capitalistas" neoliberais do seu vocabulário), enquanto a "elite predatória" da burocracia orçamentívora mantém-se no poder com o nhenhenhém da moralidade pública, da Justiça Social e de um pseudo-"socialismo" obsoleto, fantasmagórico e inepto.
J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br
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