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Segunda-feira, 1 de outubro de 2001
Sabença inútil e afeganização
No JT de quarta-feira última, o professor José Carlos Azevedo denuncia o nível medíocre do ensino universitário brasileiro, cada vez mais comprometido pelo que eu chamaria a "afeganização" generalizada da nossa educação. Como ex-professor da UnB, com quem tenho mantido contato não obstante as greves intermitentes, ainda muito teria a acrescentar aos argumentos irrefutáveis de meu antigo reitor. Especialmente na área de história, sociologia e filosofia a ignorância crassa gera um Buraco Negro na cuca da juventude discente. Nesse vácuo de infinita força gravitacional se derrama a gogoroba que a intelectuária botocuda tem mal cozinhado, com ingredientes rousseaunianos e neomarxistas, provenientes da "Escola de Frankfurt" e da Rive Gauche parisiense, a eles juntando os "Cadernos" do corcunda sardo que Mussolini salvou das garras de Stalin, conservando-o são e salvo num confortável cárcere italiano, provido de caneta e papel.
Sociologia, filosofia e história se transformaram assim, em nossa Pindorama botocuda, cheia de encantos mil, num monumento faraônico de "burritzia" planetária - um monumento bem mais gigantesco, aliás, do que qualquer dos inúmeros tribunais que o Judiciário brasileiro está erguendo em Brasília.
O efeito é deplorável. O que tenho lido, por exemplo, na coleção Sociedade e História do Brasil publicada pela Fundação Teotonio Villela do PSDB, é de arrepiar os cabelos. O trabalho talvez tenha sido endereçado aos gênios do PT, do PC do B e dos jesuítas franceses da CNB do B brasiliense. Ou, quiçá, é uma pesquisa destinada à sabença edificante de uma personalidade do alto gabarito moral e mental do escrevinhador lusitano, aquinhoado no ano passado com o prêmio Ig-Nóbel de literatura. Ou, ainda, objetivou enriquecer a cultura do ex-guru ianque do Ciro Gomes, filho de mãe brasileira, ou sustentar a do eminentíssimo fundador da Sudene que facultou o desenvolvimento fantástico da indústria da seca nordestina nos últimos 50 anos, a fim de humilhar o que realizaram algumas dúzias de israelenses para a irrigação do Deserto do Negev. Em suma, não faltaram motivos para a satisfação beata dos cretinos, quando viram ruir fragorosamente as duas torres nova-iorquinas. A "neoburritzia" da intelectuária é, há muito, conhecida por sua ideologia "sinistra" (como os italianos usam apropriadamente o termo). Mas a nova "guerra contra o terrorismo", que melhor qualificaríamos de "operação de polícia global", ofereceu uma oportunidade ímpar de pôr para fora, verbalmente, a matéria fecal por ela digerida em sua intelligentsia.
Há muito que estou convencido do fato histórico que estamos saindo da Idade das Guerras para a Idade do Crime. Fukuyama fez um breve e imerecido sucesso com a tese absurda de um "Fim da História". Na verdade, a globalização cria sua própria história, totalmente inédita. Caem por terra os velhos chavões "esquerda x direita", "comunismo x capitalismo", "Primeiro Mundo x Terceiro Mundo". A dicotomia maniqueísta Bem x Mal, Verdade x Mentira foi virada pelo avesso. Temos agora dois campos que, por falta de termos apropriados, classifico como o dos globalistas e homenageio nas 7 mil vítimas de 60 nacionalidades do WTC - e o outro como o dos afegãos. Os primeiros são multinacionais, liberais, democráticos, desprovidos de preconceitos étnicos ou religiosos, cada vez mais cultos e ricos, e pertencem à moderna sociedade aberta. Os segundos são fechados, intolerantes, fanáticos, analfabetos, machistas, frustrados, cruéis e enraizados na forma de vida da Idade da Pedra.
Os artigos recentes de Paul Johnson, Vargas Llosa, Montaner e de alguns lúcidos brasileiros do mesmo calibre formulam aspectos variados de uma dicotomia que, há mais de 50 anos, já fora intuída por filósofos como Bergson e Popper, em ensaios de olímpica beleza. A virtude essencial dos "modernos" é a coragem, a tolerância com as diferenças, a repressão à violência cega do terror e do crime organizados, e a famosa "eterna vigilância" em defesa da liberdade a que se referiu o irlandês John Curran, em 1790. O vício dos "afegãos" constela o que há de mais depravado na alma humana, a covardia, o ressentimento, a inveja vingativa, o machismo pueril dos gorilas e o agarrar desesperado a tradições trogloditas, nas trevas da Caverna que foi Platão o primeiro a descrever em termos filosóficos. Nas multidões histéricas do Caliban vociferante e maltrapilho, queimando bandeiras americanas, contemplo a imagem visual, mais imediata e feroz, da Imbecilidade Coletiva do tipo reacionário Taliban. O que me tem impressionado no entanto, nestes últimos dias, é a extensão alarmante e considerável que já tomou a afeganização em nosso país.
J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br
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