Pensadores Brasileiros       

Artigos de José Osvaldo de Meira Penna

Período de 21/1/1998 a 15/10/2001
Total: 83 artigos
 

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Segunda-feira, 20 de agosto de 2001 

Teologia do mercado 

Contaminada pelo vírus da aids ideológica através da Teratologia da Libertação, a Esquerdigreja abomina os conceitos de comércio, lucro e propriedade. Eles pertencem ao que os padres mais afoitos qualificam de "pecado social". Vejam a recente Análise da Conjuntura trabalhada principalmente por um jesuíta francês de Brasília e publicada pela Conferência Nacional dos Bispos Petistas. Seus autores não perdem a oportunidade de condenar a livre empresa, o mercado "capitalista" (que não sabem exatamente definir) e toda a política de abertura da economia brasileira. Obviamente, ignoram as injunções papalinas contra a intervenção do clero em política. Mais respeito revelam por Marx, Proudhon e Gramsci do que por Mateus, Marcos, Lucas e João. Chego a me perguntar se jamais leram, ou tresleram a Bíblia. Certamente esquecem que um dos Dez Mandamentos impõe a regra: não roubarás. Pondo de parte dois outros itens - o que proíbe matar e o outro, cobiçar a mulher do próximo -, não creio que qualquer outra prescrição emanada do Dominus Deus Sabaoth entre, no Brasil, tão rapidamente por um ouvido e saia pelo outro - com vista grossa de Suas Eminências. É assim com enorme espanto e satisfação que li o livro Teologia de Mercado de Luís Corrêa Lima SJ (Edusc, Bauru 2001). O título é já por si interessante: 

revela o astucioso cuidado do autor em abrir uma vela a Deus e outra ao diabo, com o flagrante empenho de ser veraz e objetivo sem ofensa aos ímpetos herético-revolucionários de seus colegas da prestigiosa Companhia. 

O Mercado do título pode ser lido tanto no sentido da ciência econômica, como se referir à obra do dominicano espanhol do século 16, frei Tomás de Mercado. O pensamento da Escolástica Tardia em matéria de filosofia social e econômica, na Escola de Salamanca, já me era superficialmente conhecido graças ao estudo de um amigo argentino-americano, Alejandro Cháfuen, atual presidente da Atlas Foundation, um prestigioso Think Tank de Washinton. 

Cháfuen se aprofundou em outros filósofos e teólogos de Salamanca que, igualmente, produziram abordagens de grande interesse em economia, revelando excepcional predisposição moderna, liberal e sofisticada numa época ferozmente dominada, em toda a península ibérica, pelo Absolutismo monárquico e o detestável pendor reacionário da Contra-Reforma. O Manual ou Suma dos Tratos e Contratos, de 1571, é notável por ser redigido como se coetâneo, não digo com Adam Smith, mas com Mises, Hayek e Friedman. O cerne do argumento é a obrigação dos agentes econômicos, no caso os mercadores de Sevilha, de respeitarem as virtudes fundamentais da economia: prudência, honestidade e cumprimento dos contratos, com respeito à propriedade alheia num Estado de Direito. O curioso é que, numa época de polêmica, violência sanguinária e escuridão teológica, Mercado e seus colegas, dominicanos e jesuítas, já intuíam, corretamente, alguns dos princípio fundamentais de uma economia de mercado global. 

Infelizmente, a consciência das vantagens da liberdade para a riqueza e progresso das nações não teve efeito sobre a sociedade e os governos da época. O rei de Espanha, tanto quanto o de Portugal, monopolizavam em favor do Estado, isto é, de si mesmos, todas a fortuna que as grandes navegações e a conquista da América lhes proporcionava. Trezentos anos depois, os dois países decadentes já se haviam atrasado ao mais baixo nível de pobreza da Europa ocidental. No Syllabus dos Erros de 1864, a Igreja estigmatizou tudo que se poderia esperar de uma abertura ao mundo moderno. Pio IX impôs um dogmatismo absolutista do qual o Vaticano II e o papa João Paulo II têm tentado, nem sempre com sucesso, retirar a teologia. Corrêa Lima não se limita a discutir o tema "Marx Weber" - ou seja, o Totalitarismo e a Burocracia que fascinam os atuais clérigos eruditos, com preferência pelo primeiro nome da dicotomia. Atreve-se mesmo, e é uma das primeiras vezes que a descubro citada em algum documento do clero brasileiro - a Encíclica Centesimus Annus. O trabalho, de qualquer forma, zelosamente se mantém numa posição tão estreita quanto o fio de uma navalha. Já é alguma coisa! 

Parabéns, bravo, atrevido e erudito jesuíta! 

J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br

Compilado em 28/10/2001
Fonte: Vários sites na Internet

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