Pensadores Brasileiros       

Artigos e Entrevistas de Miguel Reale

Período de 25/2/1995 a 15/9/2001
Total: 47 artigos
 

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À Margem da Olimpíada
Miguel Reale(*)

Agora que se acha de certo modo amortecida a decepção que foi para os brasileiros a Olimpíada de Sydney, vale a pena dedicar atenção a esse assunto, não deixando mais para a última hora as providências necessárias.
Por essa contumaz falta de confiança em nós mesmos - sem razão atribuída a complexo de inferioridade docorrente da miscigenação e, mais propriamente, do remorso da escravidão - talvez haja quem atribua nosso fracasso à incapacidade de nossa gente para tudo aquilo que demande aturado esforço e dedicação contínua.
O problema é por demais complexo, envolvendo a um só tempo, os indivíduos, a coletividade e o Estado. Começarei por este, observando que o Ministério da Educação e do Desporto, na realidade, existe quase que para aquela , muito embora a Constituição proclame ser dever do Estado fomentar práticas desportivas, destinando-lhes recursos públicos.
Ora, as grandes ausentes na última Olimpíada foram as universidades brasileiras, sendo sabido que elas constituem a base nuclear por excelência do esporte nos Estados Unidos da América, para só falar do grande vencedor do certame.
Sendo o ensino oficial gratuito, não se pode alegar que a juventude universitária tenha sido absorvida pelo trabalho, sem dispor do lazer propício a todas as modalidades de desporto. Além de visível falta de interesse por tal ordem de valores, é possível que seja precária a situação dos campi no que se refere à estrutura esportiva e ao preparo físico dos educandos, quer pela carência de aparelhagem adequada, quer de técnicos devidamente especializados. O mesmo se diga do ensino fundamental e médio.
O grave é que a Universidade de São Paulo (USP) não brilhou em Sydney, não obstante possuir, na capital e no interior, adequadas quadras esportivas, até mesmo uma "Raia Olímpica de Remo", à margem do Rio Pinheiros, não alimentada pelas águas poluídas deste, mas sim pelos lençóis freáticos captados dos altos da Cidade Universitária em direção à raia, escavada ao longo de duas décadas , conforme plano concebido por meu saudoso amigo professor Luis Inácio Anhaiana Melo, de cujos conhecimentos, me vali nas duas ocasiões em que fui Reitor da USP. Uma de minhas vaidades é ter podido construir campos esportivos universitários em condições de dar início à formação física de seus alunos.
Ora, os parcos resultados que obtivemos na Austrália não são atribuíveis a órgãos oficiais, mas sim a heróicas iniciativas individuais, como as dos participantes do judô, ou do vôlei de praia, não se podendo esquecer a comovente contribuição de uma antiga lavadeira nas provas de levantamento de peso, tampouco o preparo das meninas que brilharam na ginástica rítmica, que foram , por sinal, manifestamente injustiçadas. Salvo seja, também os competidores das corridas que nos garantiram acesso ao pódio, devem seus resultados positivos menos à orientação técnica recebida do que a seus esforços pessoais. O mesmo se diga do futebol feminino, o qual , se não conquistou medalhas, fez bela figura.
Isso significa que não nos faltam valores individuais, quando técnica e entusiasticamente estimulados, apesar de , verdade seja dita, não primarmos por alto espírito esportivo, o que não se justifica absolutamente apelando para as dificuldades do clima nos trópicos, pois houve resultados magníficos devido a atletas oriundos de países tropicais.
O que há , em última análise, é deficiência de educação esportiva, cuja responsabilidade cabe tanto ao Estado, desde os municípios até a União, quanto às organizações sociais, em cuja vanguarda devem figurar os clubes, os quais de atletismo, ás vezes, só têm o nome.
Dir-se-á que, sob esse ponto de vista, nossa sociedade está doente, mas o mais certo é reconhecer que, ao se falar tanto em educação, geralmente se esquece que parte substancial dela é pertinente ao preparo físico, aos valores corpóreos, que, a bem ver, jamais estão divorciados dos valores do espírito, como fica demonstrado nas competições em que a vitória cabe a quem, além da adestração física, revela mais alta disposição de lutar. 
Um dos problemas mais delicados é a formação do atleta, educando-o também para saber, afrontar o momento final da prova, quando qualquer hesitação pode comprometer o almejado resultado. Em Sydney, tivemos vários exemplos que comprovam a importância da preparação psicológica, sobretudo quando está em jogo no último ponto.
Mas há ainda duas questões a que não posso deixar de fazer alusão, a primeira das quais se refere à avassaladora preponderância do futebol na mentalidade de nossa gente, como se tratasse de algo que se confundisse com o valor da própria nacionalidade, distinguindo-a das demais.
É conhecida a frase atilada do pensador Raymond Aron ao dizer que, durante grande parte do século XX, o marxismo teria sido o ópio da intelectualidade em matéria política, o que é verdade também para o Brasil, com a Universidade de São Paulo à frente. Parodiando esse acertado diagnóstico, podemos afirmar que o futebol tem sido o ópio do povo brasileiro no tocante às atividades esportivas com alarmante desprezo pelas demais modalidades, desde a escola primária até as mais altas instituições universitárias da República.
Por fim, cabe observar que tudo devemos fazer para superar a confusão dominante entre esporte e recreação, que prevalece nas várias áreas de ensino, quando aquele representa, ao contrário, componente essencial da educação integral, pela mesma razão pela qual o ser humano deve ser uma composição harmônica de corpo e espírito.
Por tal motivo, a prática desportiva deve começar na pré-escola, tornando-se um hábito salutar em todas as camadas populares, o que implica a responsabilidade das autoridades estatais bem como uma mudança substancial de atitude por parte dos que têm a alta missão de ensinar.
Não ignoro que, nesse sentido, há dedicações difusas por todo o País, mas tudo de maneira precária e improvisada, carecendo apenas de apoio público ou privado, a fim de que nossa gente possa demonstrar sua capacidade em todos os domínios da cultura.

* Jurista, Filósofo, membro da Academia Brasileira de Letras, foi Reitor da USP - 
Endereço Eletrônico:reale@miguelreale.com.br - Página: www.miguelreale.com.br

Compilado em 21/10/2001
Fonte: Buscas na Internet

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