Pensadores Brasileiros       

Artigos e Entrevistas de Miguel Reale

Período de 25/2/1995 a 15/9/2001
Total: 47 artigos
 

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A mostra do Ibirapuera 
MIGUEL REALE 
Sábado, 24 de junho de 2000 



A Mostra do Redescobrimento, que se realiza no Parque Ibirapuera, estando aberta ao público até 7 de setembro, é um evento da maior relevância para a cultura nacional. Os meios de comunicação, que tão facilmente se prestaram a denegrir o governo federal quando dos lamentáveis acontecimentos de Porto Seguro, resultantes de confrontos ideológicos, não tiveram nem espaço nem tempo para realçar, como deviam, os méritos da majestosa exposição promovida pela Associação 500 Anos Artes Visuais, especialmente criada pela Fundação Bienal de São Paulo para a comemoração de cinco séculos de nossa História, tendo como presidente Edemar Cid Ferreira. 

Não vacilo em asseverar que basta esse oportuno empreendimento para desmentir aqueles que proclamam o fracasso das festividades programadas para o Brasil demonstrar os valores positivos de sua experiência histórica. Cabe advertir que ele é fruto de iniciativa privada com a cooperação de beneméritas empresas, tudo tendo sido preparado com descortino e esmero, prevendo sua itinerância pelas principais capitais do País e por mais de 20 museus no exterior. 

Esse audacioso plano se justifica por todos os títulos, visto como se trata de uma exposição organizada com plena consciência histórica, estando seus curadores deveras imbuídos da noção de que é preciso "mostrar o Brasil ao Brasil para que o País consiga avançar, sem perder o rumo que lhe é fornecido pelo melhor de seu passado". Para tanto tiveram até mesmo a idéia de transcender o tempo cabralino, instalando uma espécie de "túnel do tempo", com imagens acompanhadas de trilha sonora, para visão dos principais sítios arqueológicos do País. Um salto de 15 mil anos para perspectiva de nosso futuro, inserindo-se nesse contexto o episódio do Descobrimento. 

Começa, então, o magnífico itinerário, traçado numa área de 52 mil metros quadrados, ressurgindo interligados os pavilhões do Parque Ibirapuera, tal como Niemeyer os concebera. Temos a oportunidade rara de, por meio de milhares de obras plásticas, poder contemplar o que há de mais significativo na arte indígena, na arte popular, na afro-brasileira, com o original módulo intitulado Negro de Corpo e Alma, na arte barroca e nas criações artísticas do século 19 e das épocas moderna e contemporânea. 

E, para que se não perdesse o senso histórico de referência, deu-se especial destaque ao original da Carta de Pero Vaz Caminha, o nosso registro de nascimento, que consta do acervo da Torre do Tombo, em Lisboa, enviado especialmente pelo governo de Portugal. 

Seria difícil destacar, neste breve artigo, as excelências de cada seção da mostra, desde o nosso barroco, que, como disse alguém, parece obra de anjos, até magníficas exposições, como as denominadas Imagens do Inconsciente ou O Olhar Distante, tudo sendo esplendidamente perpetuado em nada menos de 12 alentados volumes, com texto crítico sereno e objetivo. A leitura desses tomos, com suas preciosas ilustrações, vem confirmar a existência de uma grande arte brasileira, possuidora de alma própria, não obstante a natural influência de valores estéticos europeus. 

Dir-se-á que a mostra de que estou falando prima por seu sentido artístico, mas isso se compreende por dois motivos: em primeiro lugar, por tratar-se de emanação da Fundação Bienal de São Paulo; mas, sobretudo, por ser a arte uma das expressões mais altas do espírito de um povo, tendo Hegel chegado a ponto de situá-la entre as formas do Absoluto. 

Por outro lado, as criações artísticas que temos a felicidade de ver reunidas no Parque Ibirapuera, como lembrou o presidente da associação, representam o resultado de três anos de pesquisa sobre as mais importantes peças que compõem a história visual do País, desde as primeira eras arqueológicas até nossos dias, dando aos brasileiros a oportunidade de ver algo de essencial em seu rosto. 

Era esse o rumo certo a ser seguido para lembrança de 500 anos de existência, sem se ficar adstrito à chegada dos portugueses a Porto Seguro, quando houve o encontro de duas civilizações, a primitiva de nossos silvícolas e a avançada de Portugal, que, naquele momento histórico, se situava na vanguarda do Renascimento, revelando mundos novos ao Ocidente, graças a seus conhecimentos náuticos. 

Qualquer país dotado de verdadeira consciência histórica jamais reduziria cinco séculos de existência a um episódio isolado, por mais relevante que fosse, tampouco o repudiaria pelo fato de o encontro de duas civilizações se ter convertido em desencontro, tal como, aliás, sucedeu, não somente na Europa, na época das invasões dos povos bárbaros, mas também na América espanhola ou na América sob domínio da gente inglesa. Ademais, não se esqueceria de que, ao lado dos inegáveis morticínios de índios, houve também, por parte dos brancos, atos de autodefesa, além de um fecundante convívio entre brancos, negros e índios, que culminou numa das mais amplas miscigenações do planeta, dando nascimento a mamelucos (caboclos), mulatos e cafusos. 

É contra as visões unilaterais, que têm prevalecido na opinião pública, alimentadas por táticas ideológicas que encontram ambiente propício na autoflagelação que parece ser característica de nossa gente, que se põe a Mostra do Redescobrimento que São Paulo, graças à iniciativa privada, oferece ao Brasil e ao mundo, visto a feliz idéia de estendê-la ao estrangeiro. É no Parque Ibirapuera, em suma, que se realiza a comemoração certa do Descobrimento. 

Preocupação dominante das comemorações do Brasil-500, como ficou demonstrado, não podia ser senão um estudo, em profundidade, de nossa cultura, que é eclética e polimorfa, resultado da prodigiosa combinação dos valores de várias raças, completada depois pela grande imigração de povos europeus e asiáticos. 

Ao contrário do que se tem propalado, com intuito manifestamente político-partidário ou eleitoral, o que a gente brasileira criou, tendo como base a surpreendente unidade da lingua portuguesa, é uma experiência histórica grandiosa que não podia deixar de ser festejada. 

Miguel Reale, jurista, filósofo, membro da Academia Brasileira de Letras, foi reitor da USP E-mail: reale@miguelreale.com.br Home page: www.miguelreale.com.br

Compilado em 21/10/2001
Fonte: Buscas na Internet

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