Pensadores Brasileiros       

Artigos e Entrevistas de Miguel Reale

Período de 25/2/1995 a 15/9/2001
Total: 47 artigos
 

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Artigos de Miguel Reale

Imigração, a grande esquecida 
Sábado, 17 de fevereiro de 2001 

As recentes comemorações do quinto centenário do Descobrimento do Brasil pelos portugueses deram lugar a uma série de estudos sobre a formação da nacionalidade brasileira, procurando-se descobrir as raízes de nossa cultura, bem como de suas notas mais características. Nesse sentido foram revistas as principais obras sobre o assunto, com contribuições novas que vieram acrescentar-se às já consideradas clássicas, tudo visando a alcançar os elementos ou fatores determinantes da tão procurada "identidade nacional". 

Nesse sentido, não houve questão que não fosse objeto de recordação e de análise, sendo lembradas várias notas distintivas da mentalidade nacional, desde a tão louvada cordialidade até a grave falta de perseverança e empenho na realização das tarefas de caráter transpessoal, sem as quais uma nação não se aperfeiçoa. 

Houve, todavia, nessas pesquisas uma grande lacuna, que é o estudo do que a grande imigração representou na constituição de nosso país, não como fenômeno recente, mas como um acontecimento que remonta à última década do segundo reinado, quando a perspectiva da iminente libertação dos escravos já situava o problema da falta de mão-de-obra nas fazendas de café, cabendo aos líderes paulistas, com Antônio Prado à frente, propugnar pela vinda ao Brasil de trabalhadores europeus. Na realidade, o imperador Pedro II tinha mais ampla visão do problema, não olvidando a importância dos imigrantes também para a instauração de pequenas propriedades, fato este que ocorreu sobretudo no Sul, mas se deu também em São Paulo, com a localização de fruticultores nas fraldas da Mantiqueira, como lembro no volume I de meu livro de Memória, onde conto a história de meu avô materno, Miguel Chiaradia, e seus irmãos, originários da Itália meridional, empenhados na plantação de macieiras e videiras. 

O que os imigrantes, por seu enorme número e qualidade, representaram no desenvolvimento da cultura nacional não tem merecido a devida atenção por parte de nossos historiadores e sociólogos, como se pode verificar, por exemplo, com a leitura da magnífica coletânea organizada por Lourenço Dantas Mota, intitulada Introdução ao Brasil - Um Banquete no Trópico, onde figuram preciosos ensaios sobre as obras fundamentais dos que, de uma forma ou de outra, se referiram às "raízes da nacionalidade", desde o padre Antonio Vieira até Florestan Fernandes. Pois bem, nessa minuciosa coleção não há sequer menção ao processo imigratório, sem o qual, como veremos, o Brasil não seria o que é. 

Nessa ordem de idéias, observo que o mesmo acontece com o livro magnífico e inovador que Antonio Paim acaba de publicar, Momentos Decisivos da História do Brasil, no qual ele demonstra, entre outras coisas, quanto a mentalidade retrógrada e opressora do Santo Ofício importou, em sucessivos períodos, no afastamento do Brasil do processo de desenvolvimento capitalista, em virtude da "opção pela pobreza" e do "ódio ao lucro", pregados pelos mentores de uma religiosidade arcaica, à qual se submetiam passivamente os reis de Portugal, com prejuízo total para a sua colônia americana. Mostra-nos Paim como, desse modo, a contrario sensu, fica comprovada a veracidade da tese de Max Weber sobre o espírito do protestantismo, aberto à livre iniciativa e à poupança, como uma das razões determinantes do advento do capitalismo. 

Pois bem, Antonio Paim, que tece considerações sobre o desenvolvimento econômico dos Estados Unidos da América em função de seu gigantesco número de imigrantes, acaba dedicando ao problema da imigração no Brasil breve nota ao pé da página 202, o que demonstra que mesmo os espíritos mais atilados no exame da cultura brasileira ficam à margem da influência poderosa que os imigrantes europeus e asiáticos exerceram em nosso país, muito embora tenham acabado por ser absorvidos pelo cerne étnico-social, luso-afro-ameríndio, que se veio constituindo desde o período colonial até hoje, com o verdadeiro prodígio da unidade lingüística. 

Essa absorção - que assinala a característica conciliadora de nossa cultura - não é, porém, motivo bastante para superado nativismo, até o ponto de se olvidar o papel representado pelos imigrantes que souberam conservar suas essenciais formas de vida, influindo, material e espiritualmente, nos valores de nossa coletividade. 

Por ora, observo que nem mesmo a magnífica História Geral da Civilização Brasileira, de Sérgio Buarque de Holanda, cujo período republicano foi organizado por Boris Fausto, focaliza de maneira especial o papel da imigração na formação cultural brasileira, muito embora não deixe de se referir ao imigrante, apresentando-o, por exemplo, como fator propício à industrialização. No estudo de autoria da professora Maria Tereza Schorer Petrone, especialmente dedicado à imigração (O Brasil Republicano - 1889-1930, III, págs. 93 e segs.), o que mais prevalece são valiosos e elucidativos dados de natureza estatística, sem apreciação propriamente do tema objeto do presente artigo. Isto não obstante, a autora já põe em realce a contribuição dos imigrantes no processo de urbanização do Estado, bem como em sua industrialização, que, diz ela, "se inicia praticamente a partir do momento em que para cá se dirigem as primeiras grandes levas de imigrantes. 

Como artesãos, operários, empresários, participam da industrialização de São Paulo. Já em 1920 se registram 64,2% dos estabelecimentos industriais existentes no Estado como sendo de imigrantes, e cerca de dois terços dos habitantes da cidade de São Paulo são formados por estrangeiros e seus descendentes". 

No que se refere à participação do imigrante na urbanização, cumpre notar que ela se deu de maneira imediata, bastando lembrar que já em 1895, quando São Paulo tinha 130 mil habitantes, 71 mil deles eram estrangeiros, sendo 45 mil italianos, 15 mil portugueses e 4.800 espanhóis. 

Esses dados demográficos são eloqüentes, mas o assunto aqui tratado é por demais complexo, exigindo que dele venha a cuidar, com maiores detalhes, em próximo artigo destinado ao estudo específico do significado da imigração na formação e desenvolvimento do País, procurando preencher a grave lacuna até agora existente no estudo de nossa cultura. 

Miguel Reale, jurista, filósofo, membro da Academia Brasileira de Letras, foi reitor da USP E-mail: reale@miguelreale.com.br Home page: www.miguelreale.com.br

Compilado em 21/10/2001
Fonte: Buscas na Internet

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