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Os riscos da revolução tecnológica
MIGUEL REALE
Sábado, 16 de setembro de 2000
Há dias, li um artigo escrito por um partidário incondicional do progresso tecnológico, tecendo louvores às mudanças operadas no mundo graças à passagem da "era industrial" para a "era da informática", caracterizada pela crescente celeridade das relações humanas. A seu ver, estaríamos rumo à globalidade propiciadora, dentro em pouco tempo, de melhores condições de vida a todos os povos da Terra.
Essa idealização é exagerada e perigosa, pois pode levar a conclusões precipitadas no tocante à mentalidade de governantes e governados, fazendo crer, por exemplo, na desnecessidade de medidas políticas e econômicas destinadas a promover a justiça social, porquanto esta seria o resultado automático de novas conquistas da ciência e da tecnologia, levando, ademais, à crença ideológica nas vantagens de um Estado mínimo, sem interferência alguma na vida econômica.
Longe de mim qualquer prevenção contra os triunfos da técnica. O que considero necessário é verificar, com serena objetividade, o que nela há de positivo e de negativo, pois todo acontecimento histórico relevante vem sempre acompanhado de luz e de sombras. Não é demais dar também atenção a estas, pelo menos por uma questão de prudência, virtude que não conflita com as que devem nortear os homens de ciência em suas investigações.
Isto posto, parece-me que as mudanças impostas pelas incessantes descobertas tecnológicas estão mudando a mentalidade das novas gerações, para as quais só passa a ter valor o que é novo e surpreendente. Lembro-me de que meus pais, ao adquirirem algum objeto, para atender às necessidades cotidianas ou para outros fins, tinham sempre o cuidado de louvar-lhe a durabilidade, tanto sinal da responsabilidade de seu fabricante como garantia contra o desperdício. No fundo, o que prevalecia era a idéia de poupança e de morigeração nos gastos. Já agora, estamos perante uma sociedade de "consumo de massa", na qual prepondera a preferência pelo que é mais aparente ou vistoso, muito embora possa ser de breve utilização.
A bem ver, a atual tecnologia estimula esse novo modo de pensar, sobretudo nos domínios da telecomunicação ou da informática, porquanto, em poucos anos, e não raro em poucos meses, certos utensílios, como um computador, para dar exemplo de singular relevância, devem ser considerados superados, exigindo sua substituição, a fim de auferir-se mais vantajosa operabilidade da máquina.
O rápido desgaste parece ser uma das características dos produtos oferecidos ao consumidor, diariamente bombardeado pela propaganda da chegada de novos inventos, que teriam o mérito de reduzir os custos e assegurar mais proveitosos resultados.
Ora, essa celeridade na mudança das "estruturas" para propiciar mais retributivas "programações", quando transposta para o plano macroeconômico, onde a febre do lucro predomina, já provocou, na grande maioria dos países, tremendos desempregos, visto como a aquisição de um mecanismo de prodigiosa autoprodutividade tem como conseqüência a supressão de dezenas ou centenas de postos de trabalho. Surge, assim, uma nova e inesperada forma de "capitalismo selvagem", no qual não é descartado apenas um utensílio, mas um ser humano.
Enquanto, outrora, se esperava que o progresso tecnológico iria ter como resultado a diminuição das horas de trabalho e o conseqüente aumento das horas de lazer, o que se constata, agora, é uma atitude ditada pela mera ambição do maior lucro: não pensam os empregadores, eticamente, em contribuir com recursos próprios para reforço do capital da empresa, evitando assim a dispensa de empregados, mas cuidam tão-somente, hedonisticamente, de se valer da máquina para produzir mais com menor participação humana. O pior é que o desemprego atinge todas as áreas e graus da prestação de trabalho, desde os operários menos habilitados até os técnicos de grande preparo e experiência. É essa uma das sombras que projeta a atual tecnologia, equacionando um problema político-social que constitui um desafio ao capitalismo do iminente milênio.
Como ninguém mais pode esperar uma solução recorrendo ao Estado empresarial, transferindo-lhe os meios de produção, como foi o sonho de Marx e de Lenin - o que levou ao descalabro da União Soviética -, cabe aos politicólogos e aos cientistas sociais encontrar a via capaz de restabelecer o equilíbrio do binômio capital-trabalho, mesmo porque a dispensa de um empregado significa o desaparecimento de um consumidor, tornando dispensável o aumento de produção propiciado pelas novas máquinas: esse é o círculo vicioso em que se enreda o capitalismo em nossos dias, sobretudo nos países em desenvolvimento, não correspondendo o acréscimo de produtividade ao acréscimo da força de trabalho.
Não creio, sinceramente, que possa haver, para tão grave problema, uma solução de feitio puramente econômico ou tecnológico, sendo indispensável também substancial mudança na mentalidade dominante, sobretudo na dos "donos do poder", tanto político como econômico-financeiro, os quais não podem continuar a pensar apenas em termos quantitativos de maior retribuição do capital aplicado, abstração feita das prementes necessidades coletivas, sem as quais é ilusório o aumento numérico da produção, por não mais subsistirem cidadãos com capacidade de consumir os bens produzidos.
Dir-se-á que há sinais de retomada do desenvolvimento, com queda nos índices de desemprego, mas as necessidades essenciais, como as relativas à saúde e à educação, não podem ser preteridas ou adiadas, bem como não podem ser deferidas as atinentes à alimentação do povo, depositando-se todas as esperanças na "mão oculta" da livre concorrência, a qual, mais dia, menos dia, restabeleceria os imprescindíveis postos de trabalho.
É por essas razões que não posso concordar com os neoliberais quando apresentam o advento do Estado mínimo como a única solução para a crise atual do capitalismo, assim como jamais concordei com a equivalente teoria marxista do Estado evanescente, parecendo-me que está no rumo certo a Constituição de 1988 quando salvaguarda, ao mesmo tempo, a livre iniciativa combinada com a defesa dos direitos e interesses dos consumidores, o que implica medidas estatais tanto de emergência como de longo alcance, a fim de se alcançar a justiça social, objetivo máximo do liberalismo social, a terza via que nos cumpre trilhar.
Miguel Reale, jurista, filósofo, membro da Academia Brasileira de Letras, foi reitor da USP E-mail: reale@miguelreale.com.br Home page: www.miguelreale.com.br
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