Pensadores Brasileiros       

Artigos e Entrevistas de Miguel Reale

Período de 25/2/1995 a 15/9/2001
Total: 47 artigos
 

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Pai Nosso e Ave Maria
Miguel Reale
12/5/01


Pode parecer estranho que eu venha analisar as duas preces fundamentais da religião cristã, procurando nelas destacar, em um estudo de caráter profano, idéias filosóficas e teológicas das quais a grande maioria dos crentes não tem a mínima noção. É claro que quem as reza o faz em um ato de pura e expontânea identificação com Deus, graças a palavras proferidas com base tão somente na fé, sem necessidade de ter conhecimento de seu oculto significado racional, não obstante seja este essencial à compreensão da cultura universal. 

Não é demais, pois, conhecer o mundo de idéias e valores que se esconde nessas preces. Espero seja benéfico ter uma idéia, ainda que parcial, do que as duas orações representam para o destino do ser humano e sua história. É o que vou tentar resumir, tentando evitar o mais possível o emprego de termos técnicos. 

Comecemos pelo título do Pai Nosso, que, de per si, já representa uma idéia que só pertence à tradição judáica e cristã, a de um Deus criador de todas as coisas, “assim na terra como no céu”. Trata-se de um criador que age como um pai, movido por amor às criaturas, o amor que levou Dante a ver a filosofia como “um amoroso uso de sabedoria”. 

Pois bem, é com a idéia de criação que se atinge a absoluta transcendência, não alcançada pela religião e pela filosofia greco-romanas, cujos deuses se confundem com a natureza, estando nela imanentes, convivendo com os homens e participando de seus bens e de seus males, como nos poemas de Homero. Também as religiões asiáticas, como o Bramanismo e o Budismo, são alheias ao conceito de criação, identificando, em última análise, o pensamento divino com a natureza, ou apresentando-a como o pensamento mesmo de Deus. 

A idéia de criação está unida à de um Deus que confere liberdade e autonomia às pessoas por ele constituídas, concepção que perdurou na história ocidental até que, com o Renascimento, nos séculos XV e XVI, o homem reivindicou para si mesmo a originariedade plena de seu poder de querer e sua responsabilidade. Essa compreensão humanística da liberdade espiritual não obscurece, a meu ver, a idéia de criação, aceita por não poucos dos cientistas contemporâneos nas mais recentes conclusões da biologia e da astronomia. 

Mas, voltando a análise do Pai Nosso, dá-se nele uma inversão: da mais alta transcendência se passa ao “mundo da vida” (Lebenswelt) a começar pela necessidade primeira do ser humano que é “o pão de cada dia”, acompanhada de uma das mais altas expressões da convivência social, ao se dizer que somente tem direito à clemência divina, por suas ofensas, quem também perdoe a quem o tenha ofendido. Eis aí um paradígma de socialidade que, por sua sublimidade, raramente é obedecido. O importante é, todavia, notar que, dessa maneira, o ser humano não é concebido como um ente isolado, mas sim situado como um componente da comunidade, tendo direitos e deveres correlatos. 

A seguir, reconhece-se quanto é frágil a criatura humana; tão incapaz de resistir à tentação que o ideal seria que esta não ocorresse: uma vez tentado, o ser humano dificilmente resiste às seduções de que é alvo, sobretudo por luxúria e soberba que o levam a praticar atos insólitos que nos deixam perplexos. 

E, por fim, o crente implora que seja livrado do mal, um dos problemas mais intrincados e difíceis da ética, que poderia ser vista como a teoria da ação tendente a evitar ou superar o mal, nos sentidos positivo e negativo desta palavra, quer por indicar um estado de carência ou de falta em relação ao bem, quer por serem maliciosamente ultrapassados os limites do moralmente permitido. 

Há, pois, toda uma ética social subjacente nos ditames do Pai Nosso, o qual abrange, a um só tempo, o transcendente e o existencial, de conformidade com o que é exposto pela doutrina social da Igreja católica. 

Pois bem, é nesse amplíssimo cenário que se põe a Ave Maria, que situa o Cristianismo perante o Judaismo, sendo apresentada a figura de Jesus como o enviado por Deus, para resgatar os pecados do mundo, constituindo sua concepção um dos “mistérios da fé”, inatingível pela razão. 

Cristo representa a chegada do Messias esperado desde a noite dos tempos para dar à humanidade o seu verdadeiro destino, o que os hebreus contestam, vendo-o apenas como mais um profeta preparando a vinda do Messias aguardado pelo povo de Israel. 

A divindade ou não de Cristo distingue a religião cristã da judáica, bifurcando uma tradição multimilenar, significando ele a “boa nova”, como proclamam os quatro Evangelhos, ou seja, o Novo Testamento, estando nesse ponto de acordo todas as formas de religião cristã, que divergem sobre questões que pouco têm a ver com a essência dos problemas aqui analisados. 

É no contexto, acima exposto, que Maria emerge como a intermediária ou medianeira entre o Pai e a criatura, invocando o crente a sua proteção agora e na hora da nossa morte. 

A morte não podia deixar de ser a última referência da segunda prece, porque, em ambas, a vida humana é compreendida como simples trânsito terreno de retorno a Deus criador, idéia nuclear de toda a crença cristã. 

Espero ter oferecido, a largos traços, toda a riqueza “eidética” (note-se que não digo ideológica, palavra marcadamente terrena) da religião cristã através das duas preces fundamentais, as quais servem de base à escatologia, termo moderno, como explica N. Abbagnano, “para indicar aquela parte da teologia que considera as fases ‘finais’ ou ‘extremas’ da vida humana e do mundo: a morte, o juízo universal, a pena e o castigo ultramundanos e o fim do mundo”. 

Em uma época tão assinalada por sucessivos atos de repúdio à ética, e da mais alarmante violência, quando se mata apenas pelo prazer de matar, a simples lembrança de temas como os versados neste breve artigo, tenha-se ou não crença, talvez possa ter a força de um refrigério espiritual.

Compilado em 21/10/2001
Fonte: Buscas na Internet

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