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Partidos e Programas
Miguel Reale
Quando o novo partido surge, os homens que se interessam pelo destino da pátria apressam-se a ler o manifesto, o programa, os discursos oficiais.
E ficam desiludidos!
São sempre as mesmas causas, as mesmíssimas frases empoladas, retumbantes, sem nexo, copiadas escandalosamente do manifesto que um ano atrás serviu a uma outra “oposição” para desbancar um outro “governo”. Às vezes, acontece que os manifestos ou programas dos vários partidos inimigos são redigidos por uma só pessoa, havendo não só a identidade de idéias, como de estilo e de erros de português.
As diferenças são apenas para tapear.
É possível que alguns políticos aceitem interiormente esta ou aquela idéia nova. Mas não o dizem em publico. Eles sabem perfeitamente o perigo de se lançar uma idéia nova. Toda idéia nova vem se chocar com uma série de processos tradicionais de pensar, com hábitos profundamente enraizados nos espíritos. A idéia nova provoca sempre a reação dos que preferem a rotina, a repetição automática e fria dos atos, sem necessidade de estar pensando, refletindo.
Contra a idéia nova se levantam todos os padrões mentais, todos os clichês fabricados na monotonia das preleções dos cátedras, nos sonolentos artigos de fundo dos jornais de muitos quilos. A idéia nova incomoda, faz cócegas, chicoteia. Ë duro abandonar um sistema de vida, reconhecer que durante muitos anos se pensou mal, se pensou – errado.
“Ora, esses meninos com essas coisas, essas novidades! Exclamam os velhos. Há cinqüenta anos que conheço a democracia liberal e que vivo dentro dos partidos. Quem esta perto da morte não pode mudar o ritmo da vida. Quer dizer, então, que eu fui enganado durante todo o tempo! Isso é que não! Vocês é que estão sendo vitimas de algum espertalhão, cujo único intuito é destruir o patrimônio de nossa cultura, os fundamentos da ordem e da paz”.
“Que pretenciosos! Repete o eco dos moços que nasceram velhos. Olhem só a petulância dessa gente que pretende reformar o mundo! Quem que iria dizer! O Ditinho, sabem aquele que saiu ontem da academia, está todo metido á besta, criticando as lentes, querendo destruir tudo! Coitados, estão todos dizendo coisas novas, esquisitas, loucos varridos dizendo que são capazes de salvar o Brasil!”
“Que absurdo, exclama o homem maduro do alto de seus quarenta anos de experiência. Então, vou perder tudo o que pretendi, só por causa dessa gente? Só que faltava ter que estudar de novo! Levei Dez anos para decorar os artigos do código. Se reformarem tudo, estou eu outra vez na academia! Integralismo?! Mas essa palavra nem existe no dicionário. Não me lembro de ter encontrado essa coisa no Larousse. Se não me falha a memória, Hamilton e Montesquieu não pensaram nisso”...
Uma idéia nova é um perigo, meus senhores. É natural que ela encontre oposição. Consolemo-nos, porém: a mediocridade que hoje a combate, amanhã, reconhecida, morrera por ela.
É claro que uma idéia nova só sirva para quem não é imediatista, para aqueles que não se preocupam somente com o resultado do próximo pleito eleitoral, nem com a escolha deste ou daquele nome para a cadeira da presidência. Os chefes de partido preferem seguir a corrente. Não vão comprometer uma eleição por causa de uma idéia, isso é que não. É por esse motivo que todos os partidos políticos são iguaizinhos.
Olhemos um pouco para os dois grandes agrupamentos partidários existentes em São Paulo. A coisa mais difícil do mundo é dizer qual é a diferença que há entre o PRP e o PC mudando as iniciais, ninguém será capaz de dizer qual é o programa de um, qual o de outro.
Senão Vejamos:
O PC é pela Federação e pela representação de forma liberal-democrática. O PRP também é. O PC é republicano. O PRP também era.
O PC é pelo voto secreto em um sistema aparentemente capaz de assegurar a representação da minoria. O PRP também já é.
O PC é pela autonomia dos Estados e Municípios. O PRP também.
O PRP pretende resolver a questão social com algumas providencias sem resultado pratico, com uma legislação caritativa tendente tendente mais a acalmar a dor do que curar o mal pela raiz. O PC também.
E assim por diante, que não é preciso continuar.
Pois bem, nós, integralistas, observamos isso tudo e dizemos:
Só a idéia deve unir ou separar os homens. Se esses indivíduos pensam do mesmo modo, se querem a mesma causa, e estão separados, é porque a divergência de apetites, desacordo de interesses, choque de paixões subalternas. Ora, os povos não se governam em função de interesse, mas à luz de um principio. Isto não pode continuar, isto precisa acabar!
Os políticos responderam que nós somos doidos e extremistas. E do ponto de vista particular deles, eles tem razão...
“ABC do Integralismo” - 1935. Miguel Reale.
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