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Variações sobre a amizade
Sábado, 8 de julho de 2000
Nada mais desolador do que o indivíduo isolado, sem laços que o prendam aos demais componentes da sociedade. São conhecidos os versos de John Donne quando nos ensina que "nenhum homem é uma ilha", acrescentando que "não cabe indagar por quem os sinos dobram".
E, no entanto, a cidade grande é um fator de insulamento, sendo raros os que sabem o nome de seus vizinhos. O telefone celular parece que surge, felizmente, como um meio poderoso de fácil comunicação e presença, encurtando as distâncias, o que constitui um valor inestimável.
A escola da amizade, que é a virtude mais próxima do amor, talvez possa ser o caminho mais adequado ao superamento da onda de violência que nos aterroriza. Um caminho e um ensinamento, visto como a amizade situa dois seres em uma linha comum de intersubjetividade, de troca de interesses e de comunhão de afetos.
Não é preciso nos perdermos na utopia - talvez esta seja essencial ao aperfeiçoamento ético e cívico do ser humano - para reconhecermos que a verdadeira democracia, mais do que uma aspiração de cidadania, deve ser um imperativo da amizade.
Essa consciência amistosa do convívio social não deve ser esquecida quando nos pomos a meditar sobre as condições ou pressupostos de uma sociedade na qual prevaleça a paz, e não a guerra, a agressão que é própria dos que só cuidam de si e dos próprios interesses, tratando como resto os demais membros da coletividade. Essa atitude inimistosa já representa um ato de agressão, levando a converter a pessoa humana em mero instrumento para consecução de egoísticos desígnios.
Como se vê, a amizade deve ser considerada o elemento essencial de conexão da convivência, implicando o que Adam Smith denominou a "ética da simpatia", da compreensão de que o outro é o complemento indispensável de nossa própria personalidade.
Nesse sentido, impressionou-me a entrevista dada à revista Veja, de 28 de junho último, por um ex-menino de rua, que por um triz escapou da "chacina da Candelária" e conseguiu tornar-se um trabalhador, nos seguintes termos:
"Na rua tem muita gente te puxando para baixo. Mas também há certas pessoas que não têm dinheiro, mas têm algo de bom para oferecer, como carinho e amizade, e abrem chance para você tomar um caminho diferente."
A amizade tem, com efeito, essa força inspiradora de recuperação, por sentir-se a pessoa amparada na confiança que nela deposita um amigo, máxime quando este não se limita a bem querer, mas faz o que está a seu alcance para que o amigo possa superar a má situação em que se encontra.
A amizade implica, pois, dedicação, coincidindo, nesse ponto, com o amor, que se distingue por ser uma forma de entrega de parte de si mesmo à pessoa amada.
Essa inclinação a ver no próximo alguém tão merecedor de atenção e de respeito, quanto os que exigimos para nós mesmos, parece ser natural na espécie humana, pelo menos quando verificamos como as crianças prontamente se comunicam, estabelecendo espontânea e imediatamente relações de amizade, sem distinção de cor ou de condição social.
É o tempo vivido, não raro com decepções e amarguras, que aos poucos nos vai tornando pouco sensíveis ao destino alheio, havendo um decréscimo no impulso que nos conduz à amizade. Saber cultivá-la, no entanto, é sinal de superioridade espiritual, a qual atinge o ápice quando não se desprezam nem mesmo os maiores inimigos. Em relação a estes, é aconselhável seguir o conselho de Dante Alighieri: "Non ti curar di lor, ma guarda e passa" ("não cuidar deles, mas olha e passa").
Por outro lado, o sentimento de amizade pode assumir configurações transpessoais, indo além das relações de homem para homem, para ter como objeto um bem da natureza, ou um valor institucional. O amor pelo meio ambiente ou pelo valor da democracia, por exemplo, não são senão figuras de amizade, mesmo porque, servindo apaixonadamente a um ou à outra, estamos prestando serviço aos seres humanos que se beneficiam quando ambos beneficamente evoluem.
No que se refere às instituições, especial menção merece o problema da segurança ou da ordem pública, confiado aos cuidados dos Estados federados por meio de suas Polícias Civil e Militar.
Dias atrás, publicaram os jornais o resultado de uma pesquisa feita para saber qual é a imagem que o povo tem das organizações policiais, e o resultado foi negativo. Como a polícia só aparece e se faz presente quando já eclodiu a crise, a sua imagem prevalece como símbolo da força para repressão dos delitos, atingindo, muitas vezes, pessoas inocentes.
Em certos países mais afortunados do que o nosso, como a Inglaterra, e alguns Estados da América do Norte e do Canadá, se dá o contrário: os componentes da Polícia Civil ou Militar (na realidade, ambas integram o mesmo aparelho social) são vistos com viva simpatia, porque sua presença é cotidiana e amistosa nas praças e nas ruas, para vigilância preventiva, enquanto que as nossas predominam, burocraticamente, nas repartições públicas e nas secretarias de governo.
Pensando bem, a polícia comunitária, aquela que diuturnamente convive com o povo, não é senão a visão da polícia à luz do valor da amizade; e é a única solução a ser dada com êxito para resolver a preocupante questão da violência, sobretudo nas grandes cidades.
Muito ainda haveria a dizer sobre amizade, não se podendo esquecer que, sendo ela um valor, não raro entra em conflito com outros valores, como, por exemplo, o valor da verdade, sendo notório o alcance do antigo ensinamento de que "amicus Plato, sed magis anica Veritas", ou seja, "amigo Platão, mas mais amiga a Verdade".
Miguel Reale, jurista, filósofo, membro da Academia Brasileira de Letras, foi reitor da USP E-mail: reale@miguelreale.com.br Home page: www.miguelreale.com.br
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