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Variações sobre Integridade
MIGUEL REALE
21/3/98
Um jovem amigo me pergunta sobre as qualidades que seriam indispensáveis a um cidadão para corresponder aos ideais de um povo e, após meditar sobre esse aliciante tema, chego à conclusão de que lhe basta ser íntegro.
Integridade não é palavra de uso corrente, e esse é um mau sinal, revelando que não prevalece o entendimento de que o valor ético por excelência do ser humano consiste em ser íntegro, ou seja, fiel a si mesmo e à comunidade em sua inteireza, em sua plenitude.
A integridade é, antes de mais nada, uma virtude subjetiva que leva cada um de nós a nos realizarmos de conformidade com o nosso "ser pessoal". Isso significa que todo homem e toda mulher devem conformar-se com que são, em si mesmos e em correlação com o seu grupo social, nada sendo mais ridículo do que - salvo casos excepcionais, muito embora haja "excepcionais" que transcendem as retortas de suas deficiências - alguém pretender justificar seu alheamento da vida comum invocando a má sorte de ter nascido de tal modo ou em tal país.
Quando, em meus estudos filosóficos, afirmo que "o ser do homem é o seu dever ser" ou, em palavras mais acessíveis, que cada ser humano somente se realiza na medida em que se coloca em função e em razão de um ideal condizente com suas inclinações e possibilidades pessoais, eu não me refiro ao alcance de um ideal abstrato, mas sim àquele que está mais em consonância com a sua individualidade.
É claro que há ideais de valor universal, que se impõem a todos os indivíduos e povos em sua integridade, mas, antes de mais nada, cabe-nos indagar do fim ou objetivo que está em condições de ser por nós atingido graças ao que somos e podemos, preservada a inteireza de nosso ser pessoal.
É nesse contexto, aliás, que se põe o delicado problema da vocação para fazer isto ou aquilo, para exercer esta ou aquela outra profissão. Vocação vem do latim vocare, que quer dizer chamar. Somos, em geral, "chamados" a tal ou qual ofício, e é aí que surge a possibilidade de sermos íntegros, fiéis a nós mesmos.
Ainda, porém, quando as conjunturas individuais ou coletivas não nos proporcionam liberdade de escolha de nosso próprio caminho, e somos obrigados a aceitar uma forma de trabalho contrária a nossos desejos e expectativas, se aceitamos determinado serviço, devemos ser íntegros no seu desempenho, dando-lhe tudo o que estiver a nosso alcance para que ele se realize com a possível perfeição.
É por esse motivo que entendo que a integridade, além de ser uma virtude subjetiva, é um valor objetivo, social ou transpessoal, do qual dependem a estabilidade e o progresso de uma nação. Eis aí como ser íntegro não consiste em volver-se apenas para si mesmo, numa vaidosa contemplação do que foi feito conforme seu próprio ser pessoal, porquanto há que levar em conta o ser das demais pessoas, o que levou Kant a estabelecer o primeiro e mais belo de seus imperativos existenciais: "Seja uma pessoa e respeite os demais como pessoas." Poder-se-ia concluir que nesse imperativo ético reside o princípio da integridade, como condição sem a qual não se realizam nem o bem individual nem o bem social, mas há algo ainda a considerar.
É que nunca estamos satisfeitos com a nossa "condição humana", com o que conseguimos ser, pensar e agir, animando-nos natural impulso para o "desenvolvimento", que parece ser a palavra-chave de nosso tempo.
Mas o desenvolvimento significa sempre um desafio à integralidade de nossas forças potenciais, o que exige integridade de comportamento no sentido de executarmos as tarefas que escolhemos, ou as que livremente aceitamos, com plenitude de dedicação, sem recorrermos a subterfúgios para encobrir ou pretensamente legitimar a inércia, muito menos a processos ilícitos segundo uma repugnante ética baseada nas vantagens dos resultados.
Por outro lado, se elaboramos um projeto de estudo ou de obra, ou se acolhemos um projeto alheio, manda a integridade que sejamos fiéis por inteiro a seus objetivos, dispensando atenção a todos os aspectos dos problemas por eles envolvidos, pois a sabedoria muitas vezes consiste em levar em conta tanto os valores ostensivamente grandes como os pequenos, que podem ser condição do êxito, mesmo porque não há como confundir o pequeno com o efêmero.
Ademais, quer estejamos atuando como cidadãos ou como homens comuns, devemos nos empenhar, por inteiro, na execução da idéia acalentada, sem receio de ganhar ou perder, dada a equivalência ética de ganhar ou perder as batalhas do ideal.
Como se vê, ser íntegro é bem mais do que ser reto e inatacável, porque esses qualificativos só podem ser alcançados como conseqüência de dedicação plena e fiel ao que se pensa, ao que se quer e se faz, o que é de manifesta relevância no plano da cidadania, máxime numa sociedade como a nossa, de violência inaudita e de busca de prazeres que oprimem e deprimem.
Cabe, por fim, ponderar que a imparcialidade é um dos requisitos da integridade, o mais árduo deles, pois nos toca, muitas vezes, julgar pessoas que nos são pouco simpáticas ou nos tenham causado dano, sem que tais circunstâncias possam impedir um juízo objetivo e sereno, não havendo ato mais nobre e difícil do que o de julgar atos alheios.
A cidadania não é, pois, mero conjunto de direitos e deveres outorgados a seus titulares de maneira abstrata, porque ela somente se legitima e se torna efetiva na concreção e complementaridade dos valores pessoais e sociais, mediante os quais os indivíduos, sem perda do que lhes é próprio, se integram no bem comum do povo.
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