| O MST na universidade
A Unicamp não elevou o nível cultural dos trabalhadores; só rebaixou o seu
OLAVO DE CARVALHO
Em 1997, num debate em Porto Alegre, tive a oportunidade de
mostrar a um grupo de militantes do MST, ali presentes no papel
de claque do sr. João Pedro Stedile, que seu líder os ludibriava
com mentiras. Ele denunciava, por exemplo, um "estado de
violência endêmica no campo" quando seu próprio livro "A
Questão Agrária no Brasil" provava que o número de homicídios
em toda a área rural brasileira era inferior ao de qualquer cidade
de médio porte. Afirmava combater um complô entre os
fazendeiros e o capital internacional quando quem recebia apoio e
dinheiro do exterior era o MST, e não os fazendeiros. Mostrei
essas coisas, e o sr. Stedile não respondeu nada; apenas saiu
batendo o pezinho.
Ao ouvir-me, alguns ficaram furiosos, outros deprimidos, mas
muitos começaram a pensar. Alguns deles talvez tenham até feito
as contas que lhes sugeria o meu companheiro de mesa, o
advogado Cândido Prunes: para dar a cada família de sem-terra
uma propriedade rural rentável, seria preciso 94% do território
nacional.
Dados como esse são de vital importância para os sem-terra. A
situação agrária do Brasil é muito complexa, e sem informações
corretas qualquer um cai no engodo das fórmulas mágicas, que só
complicam tudo ainda mais. Por isso, é preciso que os
interessados tenham acesso a todas as informações, colhendo
opiniões de muitos lados e pensando no caso para tirar suas
próprias conclusões.
Ora, quem tem informações e produz opiniões são os intelectuais,
os estudiosos. Por isso mesmo, a Unicamp fez bem em abrir suas
portas aos trabalhadores rurais para que "ouvissem explanações
sobre história da agricultura e economia", como escreveu o
professor Luís Carlos Guedes Pinto (Opinião, página 1-3 de
ontem). A universidade não deve ser mesmo uma torre de marfim;
não é nada mau que, de vez em quando, ela mostre que serve
para alguma coisa.
Só há um problema. Os trabalhadores que assistiram ao curso
"Realidade Brasileira" não tiveram ali acesso a opiniões diversas,
muito menos adversas. Não ouviram uma só informação que
pudesse abalar sua confiança cega no programa do MST e seu
ódio maciço a tudo que o contradiga. Não ouviram, sobretudo,
uma só palavra contra a religião do socialismo, pois toda palavra
desse teor soaria ali tão inconveniente quanto um sonoro arroto no
silêncio de um templo. Não, eles não foram convidados a pensar,
a sondar a complexidade do real, a duvidar de suas idéias
habituais. Entraram com uma opinião pronta, ouviram-na de novo
sacramentada por prestigiosos professores e saíram imbuídos
daquela fé ardente e imbecil que não concebe alternativa senão
com as feições do proibido e do demoníaco.
Não, eles não foram levados ali para discutir. Foram para ser
confirmados nas suas crenças, reforçados no seu "esprit de
corps", motivados para uma luta político-militar cujos objetivos
permaneceram indiscutidos e intocáveis. Não digo que o que
fizeram fosse irracional. Mas foi o exercício de uma razão
diminuída, reduzida ao exame dos meios, incapaz de elevar-se à
problematização dos fins.
Isso não é ensino. Não é nem sequer doutrinação -é adestramento
de militantes. Para isso não é preciso um "local privilegiado de
discussão e reflexão", como o professor Guedes qualifica a
universidade. Basta um campo de guerrilhas.
Ao promover essa coisa, a Unicamp não elevou o nível cultural
dos trabalhadores; apenas rebaixou o seu próprio. Tornou-se uma
subseção tática de um partido comunista. E, como sempre
acontece com quem cai intelectualmente, ela procura compensar
sua perda mediante a exigência de um acréscimo de poder. Ela já
não se contenta em ensinar, com a humildade dos velhos
professores, deixando que os alunos decidam o que fazer com o
que aprenderam. Pela boca do professor Guedes, reivindica o
papel de "motor da dinâmica social". Ela deve "orientar a
mudança", assumindo, em suma, o comando da revolução.
Eis por que os trabalhadores do MST não encontraram na
Unicamp o discurso experimental, tateante e frequentemente
inconclusivo que é típico dos homens de ciência, cujo exemplo de
isenção e prudência seria a primeira coisa que uma universidade
teria a obrigação de transmitir ao povo. Eles foram ali para ouvir
uma palavra de ordem -e lá estava o professor Guedes para
dá-la, pois ele mesmo confessa que desconhece quaisquer outras
finalidades do ofício universitário. E realmente desconhece.
Olavo de Carvalho, 52, jornalista e escritor, é autor de "O Jardim das
Aflições", entre outras obras. Home page: http://www.olavodecarvalho.org
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