| A Escada do Dr. Watts
Prefácio de Olavo de Carvalho para o livro "Tabu", de Alan Watts.
Para quem não tenha conhecimento das religiões orientais nem das suas técnicas de meditação e que, portanto, necessite ingressar neste livro de iniciação pela porta estreita do raciocínio lógico, eu sugeriria que começasse a leitura pela nota 3 da página 119. É o meu próprio caso, e esta nota me ajudou muito a compreender qual o entroncamento filosófico estritamente ocidental que serviu ao autor de ponto de partida para a caminhada em direção a um entendimento superior das coisas, inspirado no vedanta. Na realidade, uma das intenções fundamentais do dr. Watts, neste livro, foi justamente a de mostrar que a conseqüência lógica da filosofia ativa e interrogativa do Ocidente é a contemplação passiva do universo e de nós mesmos, preconizada pelos mestres orientais, mas que os filósofos europeus, após terem percorrido todo o caminho que conduzia até aí, evitaram extrair ou declarar essa conclusão -- seja por medo, seja pela compulsão de continuar raciocinando quando já não existe assunto, seja pelo simples fato de que nenhuma universidade pagaria a seus professores de filosofia para que permanecessem sentados no jardim, imersos em êxtase místico.
Mas este pretende ser um livro prático, e, ao invés de caminhar simplesmente do enunciado à demonstração, o dr. Watts, com seu costumeiro brilho e talento, nos conduz, degrau por degrau, através da experiência viva que leva do raciocínio -- da fala -- à contemplação, ou seja: ao silêncio. Por isto ele nos pega pelo lado mais frágil; em vez de questionar nossas idéias nos termos mais abstratos em que desejaríamos envolvê-las e protegê-las, ele nos pergunta logo de uma vez: Quem você pensa que é? E vai nos mostrando como todas as nossas idéias a respeito da nossa individualidade são meras reproduções de um falatório coletivo, e que não temos outra essência senão a luz divina que não está mais presente em nós do que num gato, num gato mais que na minhoca, numa minhoca mais do que na pedra: Tat twan asi -- "Isto és tu", seja "Isto" lá o que for.
Nesse sentido, quem acompanhar este livro com a devida atenção -- e ele é mais fascinante que qualquer livro de aventuras, pois é a aventura propriamente dita -- tirará dele o proveito que se espera de uma psicoterapia, de um espetáculo catártico, de uma confissão ou -- por que não? -- da ingestão de um purgante: livrar-se das impurezas e recomeçar a vida num saudável estado de vazio.
No curso dessa experiência, atravessamos diversas fases: maravilhamo-nos com as intuições meridianamente claras do autor, enervamo-nos com seu ataque às nossas mais arraigadas convicções, encolhemo-nos em defesa delas, sentimo-nos perdidos e sem chão, e finalmente cedemos a uma lógica tão implacável quanto é encantadora a sua forma de expressão. E então compreendemos que nossa discordância tinha sido inútil: o autor não queria enfiar em nossas cabeças nenhuma das suas idéias -- queria apenas aliviar-nos do peso excessivo das nossas, e sugerir que olhássemos e sentíssemos, sem outras intenções nem pretensões, o universo fora e dentro de nós.
Ora, um livro que não afirma nada, que apenas desmonta proposições sob a alegação de que não fazem sentido, um livro cuja conseqüência última é o silêncio, um livro assim já foi escrito, e seu autor não é conhecido propriamente como um mestre budista, mas como o líder da ocidental e ferocíssima corrente filosófica denominada positivismo lógico: Ludwig Wittgenstein encerrava assim a seqüência de demonstrações de seu Tractatus Logico-Philosophicus (1911):
Minhas proposições são elucidatórias da seguinte maneira: quem as compreendeu reconhecerá finalmente que elas não fazem sentido. E o reconhecerá quando tiver subido, através delas, até algum ponto para além delas, como quem jogasse a escada fora depois de por ela ter subido. É preciso superar essas proposições: então se vê o mundo corretamente. Onde não se pode falar, aí é preciso calar 1.
Pois é precisamente esse o livro -- e o trecho -- citado na nota 3 da página 119*. Lê-la antes tem a vantagem de mostrar como o dr. Watts não está discutindo conosco, mas com toda uma tradição de racionalismo ocidental que não lhe é estranha, que ele antes assimilou e superou -- no mesmo sentido em que o leitor de Wittgenstein superou a escada antes de jogá-la fora.
Nada impede, é claro, que por artes mágicas ou favor divino algumas pessoas cheguem à compreensão integral de tudo sem antes se darem ao trabalho de decifrar algumas proposições filosóficas medianamente abstrusas. Hoje é tudo rápido, automático, e algumas pílulas de LSD-25 concedem a iluminação aos surfistas assim como as máquinas de hipnose produzem o nirvana para executivos.
Com este progresso maravilhoso, e em dias, como os atuais, de euforia nacional, não é de espantar que a maioria das pessoas interessada em -- o tempera! o mores! -- "aumentar a percepção" se julgue dispensada de conhecer a sabedoria do Ocidente, empacotando tudo no rótulo pejorativo de "racionalismo ultrapassado" e jogando fora, já não digo, como os alemães, a criança junto com a água do banho, mas a escada com o usuário em cima.
Este é um livro de iniciação, não apenas um tratado de filosofia. Ele não pretende demonstrar isto ou aquilo, mas abrir-nos os olhos e ouvidos, aguçar nossa sensibilidade para a percepção da vida e da morte em nós e fora de nós. Então, pergunto: se o mesmo resultado se obtém com alguns miligramas de uma substância química, para que escrevê-lo? Por que esse dr. Watts não nos manda logo "as coisas" pelo correio? Por que não fica curtindo sozinho -- e calado -- o seu êxtase?
Simples. Porque o dr. Watts não é um hippie nem um monge hindu, é um professor de inglês, pago pela Universidade de Harvard para escrever este e outros livros. O dr. Watts não é um místico, é um teólogo, como tão bem assinalou Ortega y Gasset 2, é que a função deste é falar a respeito de Deus, enquanto a do primeiro é calar a respeito do mesmo assunto. Do mesmo modo, afirma Eric Weil 3, do filósofo, que este é o homem que fala, fala, e permanece sempre um aprendiz do silêncio.
O dr. Watts -- dezoito livros e não sei quantos artigos -- falou um bocado enquanto viveu. Qualquer pessoa acima do nível de retardado mental percebe o lado "hindu" desses escritos. Mas é igualmente importante -- e, neste livro, é absolutamente imprescindível -- notar que estão compostos na mais academicamente correta das linguagens filosóficas ocidentais. A construção deste livro é inteiramente baseada nas técnicas da análise lógica concebida por Wittgenstein -- a quem o autor reconhece sua dívida --, por Russel, Carnap e outros, para analisar proposições e mostrar, se for o caso, que estão vazias de sentido. E isto é nada mais, nada menos, do que a filosofia no sentido mais tradicional, mais inglês e mais neopositivista da palavra. Se o resultado é a compreensão contemplativa dos místicos, tanto melhor para o neopositivismo: gerou um filho glorioso. Mas isto não tiro o dr. Watts e suas idéias da tradição ocidental. Antes, lhe dá, nela, um lugar de destaque, como autor, diz ele, de um enxerto altamente fertilizador.
Ora, então o que temos pela frente não é o silêncio puro e simples, a contemplação sem mais nem menos, tal como pode ser fornecida pelas drogas ou pela mera psicastenia. É o silêncio como resultado último de uma caminhada que durou séculos -- e ao fim da qual a razão ocidental reencontra, em outro nível, as velhas verdades da religião. Porque o silêncio não só devolve a filosofia à condição de ancilla theologiae, mas a teologia à condição de caudatária da mística: da contemplação, da iluminação, da revelação. A impossibilidade enfim reconhecida de enunciar -- de falar -- qualquer coisa de coerente sobre o sentido do mundo, sobre as questões metafísicas, já não leva simplesmente à trivialidade das observações científicas isoladas, como pretendiam os neopositivistas, mas a um recomeço da experiência humana.
Notas:
1 Ludwig Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus, trad. João Eduardo R. Villalobos, São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1971, sec. 6.53, 6.54 e 7.
2 José Ortega y Gasset, Defensa del Teólogo Frente al Místico, obras completas, tomo V, 7ª ed., Madrid, Revista de Occidente, 1970, pp. 455-9.
3 Eric Weil, Logique de la Philosophie, 2ª ed., Paris, J. Vrin, 1967, pp. 13-4.
* Nota 3 da página 119:
A filosofia acadêmica perdeu sua oportunidade de ouro em 1921, quando Ludwig Wittgenstein publicou sua obra Tratatus Logico-Philosophicus, que termina com seguinte passagem: "O método mais seguro de filosofia seria este. Nada dizer, exceto aquilo que pode ser dito, isto é, as proposições da ciência natural, isto é, algo que nada tem a ver com filosofia: e, depois, quando qualquer outra pessoa desejasse dizer algo que fosse metafísico, demonstrar-lhe sempre que não dera significado a algumas de suas proposições. Este método seria pouco satisfatório para a outra pessoa -- ela não teria a impressão de que estávamos lhe ensinando filosofia -- mas seria o único método estritamente correto. Minhas proposições são elucidatórias, desta forma: aquele que me compreende reconhecerá, finalmente, que elas não têm sentido, depois de ter subido por elas, para fora delas, por cima delas. (Deverá, por assim dizer, jogar fora a escada depois de ter subido por ela.) Terá de ultrapassar estas proposições e, depois, verá o mundo corretamente. Onde não se pode falar, deve-se calar". Este foi o momento crítico para que os filósofos acadêmicos conservassem um silêncio total e avançassem a disciplina a um nível de contemplação semelhante às práticas de meditação zen-budistas. Mas até mesmo o próprio Wittgenstein teve de continuar falando e escrevendo, pois de que outra maneira pode um filósofo mostrar que está trabalhando e não apenas perdendo seu tempo?
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