Pensadores Brasileiros       

Artigos e Entrevistas de Roberto Campos
 

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A tentação de Kerenski
Roberto Campos
24/05/98

Uma das maiores dificuldades do intelectual que passa ao cenário da ação política é a inevitável luta contra a herança de si mesmo, o outro eu. É fácil de compreender. O intelectual tende a ser um espírito muito sensível a idéias e valores, a apegar-se a princípios, sem excluir a humana vaidade de justificar-se na sua identidade consigo mesmo, como uma estátua que atravessa o tempo. Isso o conduz, com frequência, a misturar diferentes universos lógicos, procurando extrapolar para a realidade ficções e fantasmas que só existem no seu espaço interior.
Assim, o que, em germe, é uma qualidade positiva, uma amostra de sensibilidade moral na procura da coerência interna, pode tornar-se objetivamente um defeito. E, quando insensivelmente aumentado pela arrogância do julgamento _o que os gregos chamavam de "hubris"_, pode levar cegamente o indivíduo, e aqueles em volta, ao desastre final. Isso admitindo-se o espírito de boa-fé, honestamente tocado por angústias éticas e dúvidas conceituais. Porque também existem o aproveitador, o oportunista e, como é próprio do nosso barro original, o canalha. Em que escaninho moral, por exemplo, guardar Sartre e os outros intelectuais franceses que, nos anos 50 e 60, mantiveram um sórdido silêncio sobre os crimes do stalinismo, já então pública e amplamente documentados?
Não entremos, no entanto, no complicado e infindável debate sobre as responsabilidades do intelectual. Reflitamos em voz alta sobre o que se dá quando o intelectual e o homem público se chocam dentro da mesma alma. Há 81 anos, Alexandre F. Kerenski tornou-se primeiro-ministro do novo regime russo, ainda "democrático burguês", instalado pela revolução após a renúncia do czar. Membro da "intelligentsia", brilhante advogado e orador, provindo da esquerda moderada, via a revolução como um "vôo épico para o ideal eterno e universal da liberdade". Apesar de todas as indicações de que violento golpe bolchevista estava em pleno andamento, recusou-se a tomar quaisquer medidas para conter os extremistas e pôr as coisas nos eixos. E, querendo pôr em relevo seu papel internacional, insistiu em manter o país na guerra (pela qual o czarismo havia sido o maior responsável e que a incompetência absurda do Estado russo transformara em pântano de corrupção e, por fim, catástrofe). Com o desastre militar e a ineficiente administração, Lênin e Trótski, pela organização sistemática da ação direta e, sobretudo, com ocupações de prédios públicos e violência de rua bem ensaiadas, implantaram o regime soviético que viria a implodir, 74 anos mais tarde, deixando milhões de vítimas, muita tortura e "gulags". Não foi uma revolução de massas e sim de intelectuais de origem burguesa.
Fernando Henrique é bem falante e mais intelectualizado que Kerenski. Mas, como este, parece mais preocupado com a imagem que tem de si mesmo como democrata do que com o processo real que o destino lhe pôs nas mãos. Às vezes, deixa-me perplexo, pois parece não diferenciar o cargo, para o qual foi eleito, de primeiro magistrado da nação, com o de primeiro sociólogo do seu próprio governo. Isso reflete uma das mais insidiosas tentações em que pode cair um grande espírito. Trata-se de uma personalidade de racionalidade clara, que o levou a transcender das posições românticas da esquerda jovem (e qual o jovem que não tem vontade de salvar logo o mundo?) para aceitar honestamente a complexidade do universo real em que vivemos e tentar praticar a política como a arte do possível. Está conduzindo com firmeza e coragem uma política de estabilização econômica que, inevitavelmente, custa-lhe, em algum momento, sacrifícios de popularidade. Tem sorte que a chapa rival, composta de Lula e Brizola, é o casamento do analfabetismo com o obsoletismo. O primeiro afugentaria os investidores estrangeiros, receosos do calote. O segundo, as multinacionais, responsabilizadas pelas "perdas internacionais". Ambos provocariam a desmodernização do Brasil e teríamos mais uma década perdida.
Uma das principais obrigações dos governantes é tranquilizar o público com a inequívoca decisão de que a ordem e o regime da lei serão mantidos acima de tudo. FHC vem há tempos tolerando abusos do MST, cujos líderes se dizem marxistas, organização que mistura no mesmo saco lavradores autênticos à busca de terra, desocupados urbanos e grileiros profissionais. Enquanto isso, grupos de ação organizada, que dominam a CUT e facções do PT, e outros que não querem nada com a "democracia burguesa" estão aí para minar e derrubar a ordem existente, com o apoio de clérigos que deixaram de acreditar em oração, trocando-a pela badalação política.
É duplo o mal causado pelo MST. Ao invadir prédios públicos, desmoraliza as instituições. Ao incentivar invasões de propriedades rurais, desencoraja e intimida os lavradores legítimos, tornando precário o seu direito de propriedade e expondo-os à depredação de equipamentos. Agora, num "crescendo", o MST passou a explorar os saques famélicos no Nordeste, não para sobrevivência de seus militantes, mas como instrumento político anti-regime, transformando uma tragédia climática local numa subversão política.
Sabe-se que historicamente os regimes marxistas são produtores de fome e violência, não havendo um único exemplo de reforma agrária bem-sucedida no "socialismo real". (A única exceção foi a China após as recentes reformas de Deng Xiaoping, que visaram precisamente extinguir as "comunas".)
É uma merecida vingança dos camponeses contra Marx, o qual, fascinado pelo dinamismo do proletariado industrial, ironizou a "idiotia" da vida rural. Felizmente para o mundo ocidental, nenhum dos grandes celeiros do pós-guerra _Estados Unidos, Canadá, Austrália e Argentina_ caíram na ilusão marxista. De outra forma, a fome deixaria de ser um episódio doloroso e localizado para se tornar um problema mundial.
Considero-me com alguma autoridade para falar sobre reforma agrária, por ter sido o principal articulador do "Estatuto da Terra", proclamado pelo governo Castello Branco em 1964. Assente no tripé tributação progressiva sobre latifúndios improdutivos, colonização de novas áreas e, apenas excepcional e residualmente, a desapropriação em áreas de agudo conflito, o "Estatuto", se implementado com a urgência que merecia, teria evitado a acumulação de pressões explosivas que estão levando a um radicalismo ideológico, ineficaz como solução agrícola e sangrento como instrumento político.
Uma das idéias cogitadas no fim do governo Castello Branco era a "terceirização" da reforma agrária, por delegação ao setor privado. De fato, as reformas agrárias mais bem-sucedidas no Brasil foram as lideradas por colonizadores privados, como os ingleses da Brazilian Land and Cattle, no norte do Paraná, e, no nortão de Mato Grosso, a fundação pela iniciativa privada das comunidades agrárias de Sinop e Alta Floresta. A vantagem dos colonizadores experientes sobre o funcionário do Incra é que farejam à distância quem tem cheiro de terra, descartando logo o desocupado urbano ou o grileiro profissional que facilmente iludem o burocrata. E, tendo que remunerar ainda que modestamente a terra cedida pelo governo para fins de reforma agrária, o colonizador se esforça por criar assentamentos rentáveis, mobilizando a assistência técnica necessária.
No momento vivemos um paradoxo. Terras foram desapropriadas talvez em excesso. Lavradores desanimados não encontram compradores para suas terras. E pequenos e médios produtores reclamam que o governo gasta dinheiro demais para assentar "sem-terra" de duvidosa vocação agrícola, enquanto faltam crédito e apoio para os que já produzem.
Tem carradas de razão o, até ontem, presidente interino Antonio Carlos Magalhães ao propor que se diga um "basta" ao MST pela prisão de seus líderes flagrados num incitamento a invasões e saques. E o juiz federal que indeferiu o pedido de prisão comportou-se como o lusitano que acende um fósforo para provar a existência de gasolina no tanque. Ou então é um assecla da democracia suicida de Kerenski, que admitiu o uso dos direitos democráticos para a destruição da democracia.

Roberto Campos, 81, economista e diplomata, é deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro. Foi senador pelo PDS-MT e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). É autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994).

Compilado em 19/10/2001
Fonte: Buscas na Internet

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