|
Adeus ao "declinismo"
Roberto Campos
06/02/2000
Há uns meros 15 anos, não se encontraria muita gente, nos círculos supostamente entendidos no assunto, que apostasse num futuro brilhante para a economia americana. Surgiram profecias de "declinismo" ou "decadentismo" da superpotência. O século 21 seria o "século do Pacífico".
Os europeus mal escondiam pontas de ironia, enquanto que o Japão e os Tigres Asiáticos estavam dando o tom, gerando a impressão de que haviam encontrado a chave mágica do desenvolvimento tecnológico. É verdade que os já saudosistas do velho bloco soviético, muito escarmentados, não falavam mais no colapso iminente do capitalismo.
No final dos anos 70, os Estados Unidos haviam passado por uma crise econômica difícil, e a política contracionista do Federal Reserve, sob Volcker, provocara a pior recessão mundial desde os anos 30. Ela foi seguida de violenta explosão das taxas de juros, que precipitaram a inadimplência do México, em setembro de 82, e toda a novela do endividamento internacional, na qual figuramos em 1987 como caloteiros.
Organizações, gerências, inovação e tecnologia, tudo isso parecia estar escorregando para patamares de desempenho cada vez mais medíocres.
Hoje, depois de uma espiral ascendente ininterrupta de quase dez anos, no meio de uma prosperidade sem inflação, que sobrevive a superlativos déficits do balanço de pagamentos, a economia americana é objeto de espanto universal. A Europa avança devagar, agarrada ao corrimão. Os japoneses continuam ainda tontos com um desastre que não compreendem. E os ex-Tigres Asiáticos estão mais para gatinhos desde que levaram um balde d'água na cabeça.
O que explica essa reviravolta? Claro que seria fácil falar nas vantagens da enorme escala e de sua economia extremamente livre e competitiva, apoiada sobre uma gigantesca base de recursos naturais e uma formidável acumulação de capital humano, com décadas de políticas de desenvolvimento tecnológico partilhada entre o governo e o setor privado. São fatos observáveis. Mas não bastam para se entender o fenômeno americano. De qualquer forma, não favoreço fórmulas reducionistas para explicar nosso complicadíssimo planeta.
Há outros fatores mais profundos, conquanto menos aparentes. O segredo parece estar na natureza da sociedade americana. Um especialista em história econômica, G. Wright, da Universidade Stanford, estudando perto de dois séculos de desenvolvimento tecnológico americano, concluiu que foi um fenômeno de "rede": todo o país funcionou junto, de maneira estruturada, acumulando e aplicando conhecimentos, racionalizando sistemas, sistematizando a pesquisa, de modo que, mesmo sem vontade expressa, todos, de certa maneira, cooperaram uns com os outros, desenvolvendo redes e canais tecnológicos e espontaneamente coordenando seus esforços. Em outras palavras, os Estados Unidos funcionaram como se fossem uma economia planificada, dentro, porém, de inigualada liberdade de iniciativa individual. Inovaram nas maneiras de fazer as coisas. Inventaram, por exemplo, a Internet e a engenharia genética. Não requentaram tradições. Procuraram, sem barreiras de idéias preconcebidas, o que dava mais resultado. E não houve confisco de ganhos. Quem ganhou levou. Foi o país que primeiro efetuou o casamento do capitalismo com a democracia. Nos Estados Unidos, a única ideologia é a avaliação de resultados. Na União Soviética, a ideologia era distributivista, com descaso por incentivos à produção. No Japão, a cultura da tradição acabou tornando o capitalismo excessivamente hierarquizado e rígido.
Mas que molas moviam os americanos? Isso me lembra a história de um rapaz de 25 anos. História antiga, de 1831, quando o jovem e culto aristocrata francês Alexis de Tocqueville, com o propósito curioso de estudar o regime penal, desembarcou na jovem República, que havia desafiado o poderoso Império Britânico. Ficou entusiasmado com o que viu e escreveu um dos livros mais notáveis de análise política já escritos, até hoje atual, o "Democracia na América". Muitos visitantes europeus foram atraídos pela novidade do experimento social e político completamente novo, que contrastava com as tradicionais noções monárquicas e aristocráticas que voltavam a dominar o Velho Mundo depois da violenta tempestade da Revolução Francesa e das quase duas décadas ditatoriais de Napoleão.
O mais notável em Tocqueville era sua percepção crítica. Notou como os americanos eram espontaneamente igualitários (embora não com os nativos, que via fadados à extinção, e os negros, em cuja situação antevia o potencial de uma enorme tragédia). Mas uma sociedade sem restrições de status, que eram a condição natural na Europa. Tocqueville, que tinha frescos na memória os traumáticos efeitos da Revolução Francesa, não fechava os olhos para os vícios que podiam ser introduzidos num regime democrático, levando à tirania da maioria. E reconhecia que um excessivo individualismo, concentrado na procura do enriquecimento, podia resultar no negligenciamento do bem-estar da sociedade.
As virtudes cruciais dos Estados Unidos, achava Tocqueville, eram seu estável sistema institucional de leis e justiça, com grande respeito pela lei, e "os hábitos do coração" do povo: o gosto pela liberdade, um igualitarismo espontâneo espalhado por todos os níveis da sociedade, as virtudes privadas, o associativismo, a importância das comunidades locais, o interesse pelas causas públicas, a consideração pelas mulheres.
Não creio que o êxito da economia americana possa reduzir-se à preferência pelo capitalismo. Talvez seja apenas um reflexo do espírito de liberdade de um povo que não se sente vassalo, nem pedinte de governos, e confia na sua capacidade de dar a volta por cima. Infelizmente, é algo que nós, todos os dias assaltados em nossa liberdade por uma proliferação bestial de leis, decretos, MPs, portarias e decisões de burocratas todo-poderosos, temos de aprender urgentemente.
Roberto Campos, 82, economista e diplomata, foi senador pelo PDS-MT, deputado federal pelo PPB-RJ e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). É autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994).
|