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A Submersão dos Emergentes Roberto Campos Folha de São Paulo
Daria para voltar?
Roberto Campos
25/10/1998
A turbulência financeira que, há mais de um ano, começou pela Tailândia, pegou a Ásia e depois, por tabela, a Rússia, chegando agora às nossas redondezas, reanimou o debate sobre os riscos da globalização e a estabilidade das formas menos reguladas de economia de mercado.
Turbulento, em todos os sentidos, tem sido, desde a Primeira Guerra Mundial, o "curto século 20", conforme a expressão de Hobsbawm, com suas contradições e ambiguidades, seus questionamentos radicais e suas experiências às vezes levadas às últimas consequências, por conta da questão primeiro induzida por Saint-Simon, nos albores do século passado: se o homem, na posse da sua orgulhosa ciência e tecnologia, desenha e opera fábricas, dominando o mundo material, por que não poderá fazer o mesmo com a sociedade em que vive?
A tentação dessa pergunta já há quase três milênios transparece no mito de Prometeu. E a pressão vem aumentando, na era moderna, sobretudo desde que as pessoas largaram o ciclo invariável da agricultura e se meteram na Revolução Industrial, há coisa de uns dois séculos.
Desde então, começou-se a prestar mais atenção nas ocasionais instabilidades do sistema econômico internacional e nos contrastes emprego/desemprego e pobreza/riqueza. Não seriam, de fato, problemas de gerenciamento? O mercado, entregue a si mesmo, não tenderia a cair em crises perigosas, evitáveis pela intervenção deliberada do poder público?
O reducionismo dos extremos ideológicos, apesar de fora de moda, possui uma insidiosa capacidade de infiltração semântica no discurso ordinário, e vemos gente procurando achar "causas" simples de fenômenos que se manifestam em sistemas enormemente complexos, com inúmeras variáveis a respeito das quais muitas vezes pouco se sabe.
Infelizmente, as propriedades matemáticas desses sistemas, sobretudo quando ocorrem não-linearidades (que são a regra, não a exceção, na natureza e na sociedade), poucas vezes permitem soluções analíticas. Toda a gente tem experiências constantes desse tipo de coisa.
Flutuações e instabilidades são inevitáveis em quaisquer sistemas complexos, dos seres vivos aos circuitos eletrônicos, o clima, a ecologia. Não é sem motivo que a boa engenharia introduz nos seus desenhos circuitos ou mecanismos compensatórios ou amortecedores, e que os médicos se preocupam com as interações e procuram compensar uns com outros os remédios indicados.
Não há nada de surpreendente, portanto, nos sinais de instabilidade que hoje vemos se propagarem no sistema internacional, a partir do setor financeiro, em direção à economia real, com sombras recessivas que já afetam um bom número de países.
Mas a oposição dos termos "mercado não regulado" versus "mercado regulado" é que está completamente fora de foco. O primeiro tipo não acontece no mundo real. Nenhuma economia existe num espaço ideal abstrato nem pode ser reduzida a uma forma perfeitamente comandada por um centro de poder, nem tampouco será jamais um sistema total e exclusivamente auto-regulado.
Todas as sociedades requerem molduras normativas e institucionais bem ajustadas, e uma condição do bom funcionamento do mercado é que operem satisfatoriamente os mecanismos para fazer cumprir normas e obrigações assumidas pelos agentes individuais, da mesma forma que as sociedades, por mais democráticas que sejam, precisam de polícia e tribunais, impõem proibições a atividades consideradas ilícitas e restrições regulatórias a outras que, embora lícitas, dizem respeito a interações entre as pessoas (regras de trânsito, de transações bancárias, zoneamento, construção civil etc.).
A grande questão é saber por onde passa a fronteira entre o regulado e o não regulado. E, evidentemente, isso depende das circunstâncias. Há situações em que remédios heróicos são aceitos democraticamente como necessários, como fez o povo britânico na Segunda Guerra Mundial, quando tudo o que não fosse essencial era cortado.
Diante de calamidades públicas e desastres naturais, não costumamos esperar sem fazer nada até que todos os seus efeitos se esgotem por si mesmos. Situações calamitosas podem acontecer também nas economias, detonadas por fenômenos naturais, perturbações institucionais, câmbios tecnológicos, mudanças das preferências dos consumidores ou fatores externos.
Em uma economia ou sociedade fechada (o que acaba sendo mais ou menso o mesmo), o governo pode determinar o comportamento das pessoas por meio de de combinações de cenoura e chicote, transferindo recursos de umas para outras ou impondo sanções.
Os regimes totalitários que pulularam depois da Primeira Guerra Mundial favoreceram políticas de auto-suficiência econômica, o que também, há séculos, fora feito pelo mercantilismo das monarquias absolutas. Uns e outros encaravam o mundo como uma disputa implacável de todos contra todos.
Mas o que acontece é que, assim que começa a diminuir a mobilização do ânimo público, a eficiência das economias fechadas degenera muito rapidamente. Isso acontece também em empresas privadas -só que estas, se não aprenderem depressa, acabam falindo.
O sistema internacional de hoje (só na ONU são 187 Estados-membros) está muito longe de ser um espaço econômico fechado, embora tampouco seja perfeitamente aberto.
O discurso pró liberdade de comércio e eliminação de tarifas e barreiras, enfaticamente declamado pelos países mais industrializados, não se reflete na prática, o que deixa repletas de entupimentos as vias das exportações em que os países economicamente menos abonados poderiam contar com vantagens competitivas. Nesse ponto, temos razões de queixa.
Um amigo meu, aliás liberal convicto, costuma dizer que a preocupação de consistência e de bom comportamento é típica de subdesenvolvido, não de desenvolvido.
Em um sistema aberto, a eficácia dos controles macroeconômicos pode ser bastante limitada. E, se os agentes econômicos, sobretudo os investidores estrangeiros, justificadamente ou não, desconfiarem da estabilidade da situação ou do juízo das autoridades, as consequências negativas, alimentando-se de si mesmas, podem propagar-se perigosamente.
Recentemente, como mostrei em outro artigo, houve uma onda de críticas ao FMI por este haver recomendado a mesma terapia de resultados recessivos às situações macroeconomicamente muito diferentes da América Latina (tipicamente, desequilíbrios monetários e das contas públicas e externas, baixa poupança, obstáculos ao setor produtivo privado) e da Ásia (onde o principal problema era a falta de rigor do setor financeiro privado, a má gestão dos riscos), ou seja, receitar dieta de emagrecimento para doentes já magros.
Segundo algumas opiniões respeitáveis, a orientação do FMI teria precipitado uma contração que piorou os problemas, ao invés de resolvê-los. As dificuldades da Rússia, a que também já me referi em outro lugar, resultaram da precariedade da base institucional do país, na fase de transição do regime bolchevista para o atual, e da lentidão e relutância de Yeltsin em acelerar as reformas econômicas prioritárias.
O ponto que quero ilustrar é a formidável dificuldade do manejo, num sistema aberto, dos instrumentos de política econômica, por refinados que sejam. Em uma depressão econômica, ajustes tais como o bombeamento de recursos para o setor produtivo, por via de gastos públicos (dentro da linha de idéias primeiro consolidadas por Keynes, em 1936), pode ser eficaz, se o público não ficar ainda mais assustado.
Mas, como demonstram os fracassos da "sintonia fina" praticado pelas autoridades das economias mais avançadas, nos anos 70 a 80, não é certo que controles sutis consigam simultaneamente assegurar equilíbrio de preços e de contas externas, crescimento econômico e bom nível de emprego.
No que nos diz respeito, aceitar que temos limitações e que o mundo é o que é, não o que gostaríamos que fosse é o único caminho realístico. Voltar ao "modelo" de substituição de importações é uma solução apenas imaginária.
A escolha real é se queremos voluntariamente acelerar as reformas necessárias ou deixar que os acontecimentos nos imponham a maneira pela qual elas terão de ser feitas. No fim das contas, a primeira hipótese é a que promete melhor relação custo/benefício.
Roberto Campos, 81, economista e diplomata, é deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro. Foi senador pelo PDS-MT e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). É autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994).
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