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Ensaio sobre assimetrias
Roberto Campos
Veja, 4/11/98


"Nossa política cambial reduziu a inflação e forçou aumentos de produtividade. Mas criou déficits que pareciam suscetíveis de correção gradual, até que vieram as crises asiáticas e a russa"

Registremos duas assimetrias no cenário econômico mundial. A primeira é entre o risco "financeiro" brasileiro, que é alto, e o risco econômico, que é aceitável. A percepção internacional de alto risco financeiro deriva do "déficit gêmeo" - o déficit fiscal de 7,5% do PIB e o déficit de pagamentos externos de 4% do PIB. Ambos são o dobro do que se considera um limite prudencial.

Já o risco econômico é percebido como razoável pelos investidores de longo prazo, que continuam interessados nas privatizações e apostam na expansão do mercado, investindo em projetos industriais e de infra-estrutura. Assim o Brasil perdeu 35 bilhões de dólares de reservas voláteis no último trimestre, mas no decorrer de doze meses tinha recebido 24 bilhões de capitais estáveis.

Uma segunda assimetria tem a ver com a questão da taxa de câmbio, hoje um dos capítulos mais inconclusos da teoria econômica. Algumas vinculações tradicionais parecem ter desaparecido. Na "nova economia" as desvalorizações cambiais não têm provocado repiques inflacionários, como o demonstram as flutuações do dólar em relação ao iene e vice-versa. Também as desvalorizações inglesa e italiana em relação à serpente européia não tiveram subprodutos malignos.

Mas note-se a assimetria. Essa benignidade ocorre nas desvalorizações de países desenvolvidos, em que o fenômeno é considerado um "ajuste" corretivo de desequilíbrio. A coisa tem sido diferente nas desvalorizações de países subdesenvolvidos. Tanto a mexicana, após a crise de 1994, como as recentes desvalorizações asiáticas (Tailândia, Coréia do Sul, Indonésia) tiveram subprodutos malignos - inflação, fuga de capitais, desestruturação bancária e novas quedas cambiais.

O que, em países do Primeiro Mundo, é ajuste de mercado passa a ser visto como incompetência gerencial e quebra de confiança nos países do Terceiro Mundo. O resultado é uma heróica confusão.

O Brasil, por exemplo, na crise atual, vem recebendo contraditórios aconselhamentos. Jeffrey Sachs, de Harvard, recomenda desvalorização imediata. Rudiger Dornbusch, há muito tempo favorável à desvalorização, agora aconselha cautela. Paul Krugman, do Massachusetts Institute of Technology, MIT, reconhece não haver uma tecnologia segura de desvalorização, acentuando a diferença entre as experiências de países de Primeiro e Terceiro Mundo. 

Não há evidência empírica conclusiva sobre a superioridade de um ou de outro sistema cambial. Os liberais friedmanianos preferem fórmulas que minimizem a intervenção governamental. As variantes seriam a taxa "fixa" de câmbio (em relação ao dólar ou uma cesta de moedas), num regime de Currency Board, em que o Banco Central só pode criar moeda se houver aumento de reservas. Esse sistema funciona razoavelmente em Hong Kong e na Argentina.

Ou então a livre flutuação do câmbio, que passaria a ser apenas um dos preços importantes, mas não o preço "referencial" da economia. É o sistema em que opera hoje a maioria dos países desenvolvidos.

No Terceiro Mundo são comuns fórmulas mestiças, como o dirty float, isto é, a taxa cambial administrada. Essa fórmula apresenta vários insucessos (como no caso do Brasil), mas não pode ser irremediavelmente condenada, pois operou razoavelmente no caso do Chile e no da China.

Ao longo dos anos, o Brasil tem sido vítima do meio sucesso. Nos anos 60 e 70, iludiu-se com a possibilidade de conciliar alta inflação e alto crescimento. Com isso, tornou-se exageradamente tolerante em relação à inflação. Também criou empresas estatais, ineficientes na arena mundial, mas relativamente dinâmicas no cenário latino-americano. Isso criou resistências à privatização.

Parece que algo semelhante está acontecendo com nossa política cambial. Teve êxito espetacular na redução da inflação e forçou aumentos de produtividade. Mas criou déficits cambiais que pareciam suscetíveis de correção gradual, até que vieram os terremotos asiáticos e o russo. A meia vitória é perigosa. Cria uma sensação de complacência e aumenta a resistência às mudanças.

Roberto Campos é embaixador e deputado federal

Compilado em 19/10/2001
Fonte: Buscas na Internet

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