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A Submersão dos Emergentes Roberto Campos Folha de São Paulo

Hip, hip, hurrah. ... para o capitalismo liberal
Roberto Campos
05/01/1998

Ano novo e tempo de balanço. Descartado o socialismo como apenas uma utopia sangrenta, resta o balanço do desempenho dos vários naipes do capitalismo.

Tem-se usado e abusado do termo "milagre" para descrever episódios de sucesso econômico. Houve na década de 60 o "milagre japonês" e, quase simultaneamente, os milagres alemão e italiano. Esses países fizeram uma substituição de sonhos.

Derrotados em seu sonho de grandeza imperial, tornaram-se dínamos comerciais, conseguindo com o comércio o que não conseguiram com os canhões. Ficou demonstrado que, se o crime às vezes compensa, o imperialismo territorial não.

Na generosa década de 60, até o Brasil virou milagreiros: entre 1968 e 73 o país cresceu a uma taxa média anual de 10%. Só se voltaria a falar em milagres desenvolvimentistas na segunda metade dos 80, quando irromperam no cenário mundial os tigres asiáticos, seguidos nesta década por alguns países do Sudeste da Ásia e pelas zonas especiais da China continental.

Estranhamente, não se costuma falar no "milagre americano". Mas se há hoje uma economia milagrosa, é certamente a de nossos irmãos do Norte, com inflação e desemprego baixos, produtividade crescente, criatividade, tecnologia e desenvolvimento.

Sustentado, isso num tempo em que a Europa tem alto desemprego e crescimento hesitante (sintomas da euroesclerose) é que o Japão, deprimido há sete anos, revela carência de serotonina.

Na década passada o panorama era diferente, ensejando profecias sobre o "decadentismo" americano. O Japão, ao contrário, emergia como o maior credor do mundo, exibindo musculatura financeira e impressionante atletismo tecnológico.

E o capitalismo asiático, chamado de "confuciano", com alta poupança, dirigismo esclarecido, agressividade exportadora e coesão social, parecia um modelo superior ao capitalismo liberal anglo-saxão, com a vantagem de ser exportável, a julgar pelo surgimento de tigres e tigrelhos do desenvolvimento na antiga esfera de co-prosperidade dos sonhos imperiais.

Nesse interim, os Estados Unidos, que tinham saído na década dos 70 da crise política do Vietnã, atravessavam na década dos 80 três crises diferentes: inicialmente a recessão (que forçou uma reestruturação industrial) e duas crises bancárias, oriundas uma da insolvência dos países emergentes, e outra de um colapso do sistema de poupança imobiliária.

A essa altura, a pregação reaganiana da energização da economia pela destributação e pela desregulamentação parecia apenas confirmar a selvageria do capitalismo liberal. Japoneses e europeus passavam pitos nos americanos pelo deboche manifestado nos déficits gêmeos - o fiscal e o cambial - agravados pela baixa produtividade do sistema.

Em contraste com o comportamento desairoso do capitalismo liberal, apontavam-se as virtudes do "capitalismo com face humana" das sociais-democracias européias e a eficaz mobilização de poupanças do capitalismo asiático.

Neste fim de década, o panorama é completamente distinto, criando a necessidade e a oportunidade de um descarte de mitos. Aparentes defeitos do capitalismo texano se tornam qualidades, como por exemplo seu "curto-termismo".

Japoneses e europeus louvam seus capitalistas "pacientes", que possibilitam o planejamento de longo prazo, em contraste com os "nervosos" acionistas americanos obcecados com os resultados trimestrais.

Mas a verdade é que o capital impaciente impede o prolongamento de atividades improdutivas. A caça obsessiva ao market share leva a perigosas superexpansões, enquanto a pressão pelos lucros é também um incentivo ao desempenho.

Algo semelhante se pode dizer da febre americana de fusões e incorporações, na qual europeus e japoneses vêem sintomas de uma psicologia predatória. Uma leitura mais benígna indicaria que se trata muitas vezes de expurgo de gerências preguiçosas.

Uma terceira questão é o baixo nível de poupança americana atribuível à febre consumista. Mas o atual dinamismo americano, contrastando com a modorra japonesa e a débâcle nos tigres asiáticos sugere que a eficiência na alocação dos investimentos é mais importante do que o nível de poupança. E que os ventos do mercado são sinalizadores melhores do que os tecnocratas iluminados.

Um outro mito a questionar é o argumento protecionista de que os países com altos déficits comerciais estão condenados a alto desemprego, porque as importações exportam empregos. Como explicar que os Estados Unidos têm ao mesmo tempo os maiores déficits comerciais de sua história e uma das menores taxas de desemprego?

A última retificação a fazer na corrente mitologia econômica é quanto à "face humana" do capitalismo, será o capitalismo liberal-competitivo mais desumano e menos ético que o capitalismo europeu, com seu complexo sistema assistencial e sua regulamentação trabalhista? Tudo medido e contado, a resposta é negativa.

O capitalismo será tanto mais humano quanto mais alta sua taxa de empregabilidade, porque o desempregado não sofre apenas de angústia financeira, mas de perda de auto-estima. Com uma taxa de desemprego que é hoje menos da metade da européia, o liberalismo americano contribui mais para a dignidade humana do que o dirigismo europeu com seu aparato assistencialista.

Notem-se dois outros fatores. O welfare state das democracias européias tem sido cada vez mais capturado pela classe média, que, por sua capacidade de vocalização política, acaba mais beneficiada do que os deserving poor.

Em segundo lugar, a Europa deixou de absorver imigrantes, ficando os Estados Unidos como o grande depósito dos "excluídos" de outros continentes (inclusive dos fugitivos do socialismo).

No balanço desta década, a história nos apresenta um paradoxo. O sistema que mais propugna em sua retórica a "inclusão social" - o socialismo marxista - revelou-se o mais "excludente" de todos, destruindo para milhões não só a liberdade política mas o bem-estar social.

Mesmo o capitalismo "com face humana" das sociais-democracias européias vem criando, com suas altas taxas de desemprego, uma legião de "novos excluídos". Foi precisamente o capitalismo "selvagem" dos americanos, que fala mais em individualismo que em solidariedade, mais em competição que em compaixão, que se provou o mais "includente", criando empregos não só para os nativos mas para milhões de "excluídos" de outros continentes.

Parece-se com um gigantesco liquidificador, que processa frutas de desigual qualidade, algumas podres, e consegue produzir um caldo razoavelmente vitaminizado.

O balanço da crise asiática revela perdedores e ganhadores. Sofreram arranhões em sua credibilidade o FMI e o Bird, que às vésperas da crise elogiavam o brilho do modelo asiático. E também as agências privadas nova-iorquinas de avaliação de crédito de países, que, apesar da insolvência que se avizinhava, classificavam o risco coreano como investment grade, enquanto o Brasil mourejava, seis categorias abaixo, com speculative risk... perderam os entusiastas das políticas industriais dirigistas que atribuem aos tecnocratas, ao canalizar recursos para as "indústrias vencedoras", uma visão estratégica capaz de corrigir o "curto-termismo" do mercado.

O grande ganhador é sem dúvida o capitalismo liberal. Em termos relativos, melhorou o Brasil, não talvez por ter acertado mais, mas por ter errado um pouco menos...

Roberto Campos, 80, economista, diplomata, e deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro. Foi senador pelos PDS-MT e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). É autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994).

Compilado em 19/10/2001
Fonte: Buscas na Internet

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