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Opção preferencial pela infopobreza
Roberto Campos
23/08/98

A sociedade humana sempre foi uma "sociedade da informação", desde quando o Pitecantropo ancestral começou a comunicar-se articuladamente com os outros. Depois, deu um salto quântico quando seus descendentes arranjaram meios de guardar coletivamente conhecimentos para uso futuro. Estava inventada a cultura, acabando com as limitações da memória de cada indivíduo. A facilidade crescente e a maior rapidez do acesso a esse patrimônio de informação foram a própria essência da civilização. Mas há outro sentido em que se pode dizer que a "sociedade da informação" é um fenômeno novo, revolucionário: suas dimensões são espantosas, seu caráter praticamente instantâneo, seu alcance global, e seu volume de fluxo, para todos os efeitos práticos, tende para o infinito.
O impacto sobre a natureza do emprego é sobremodo difícil de entender num país como o nosso, ainda aferrado à mais do que cinquentenária CLT, inspirada no corporativismo fascista da Carta del Lavoro _ já então velha de década e meia. Para alguns teóricos, o próprio "emprego" começa a desaparecer, pelo menos enquanto relação típica entre "patrão" e "empregado". Em vez disso, o indivíduo vai se transformando em uma espécie de mini-empresário de si mesmo. Entrando não apenas com a sua "força de trabalho", mas com competência especializada, capacidade de resolver problemas e autonomia decisória. A velha noção de "massas trabalhadoras" esvazia-se diante da furiosa multiplicação de especializações técnicas cada vez mais complicadas e exigentes.
Nos Estados Unidos, por exemplo, onde, já em 1996, 7,4 milhões estavam ocupados, ganhando, em média, U$ 3.835 por mês (quase 2/3 a mais do que a média de todo o setor privado!), no desenho, programação, manutenção e reparação da infra-estrutura de computação e comunicação, o número de engenheiros de informática, cientistas e analistas de sistemas deve aumentar, até o ano 2006, de 874 mil para 1,8 milhão.
De um momento para outro, com um computador ligado à Net, qualquer pessoa pode visitar lojas a qualquer hora, fazer compras, ler jornais, ouvir música, ver vídeos, cursar uma universidade, acessar bibliotecas e bases de dados, trocar opiniões, espinafrar políticos, namorar, pensar em voz alta. Onde vão parar, com tudo isso, as noções tradicionais do papel do governo? E com a diluição da geografia _hoje, com avançadas telecomunicações, fala-se na "morte da distância"_ exatamente o que será entendido como "soberania"? Obviamente, por essa se entende poder decidir, o que quer dizer, assumir compromissos, e os que assumimos nos limitam, é claro. Quanto maior a interpenetração das nossas atividades, mais temos de levar em consideração a existência do resto do mundo. A sociedade da informação não nos tira a capacidade decisória _ mas um campeonato requer a participação dos outros times. Quando, como é o caso, não existem meios físicos viáveis de controle, os objetivos dependem de negociações, tanto mais complicadas quanto maior o número dos participantes.
Nos bons tempos da industrialização "física", os governos podiam valer-se de políticas de desenvolvimento relativamente simples: subsídios, transferências, protecionismo externo, investimentos em infra-estrutura produtiva, estradas, meios de comunicação, concessões (ou exploração direta) de "monopólios naturais", e assim por diante. E todos deram importância à educação, ciência e tecnologia (ou fizeram de conta). Com o surgimento de setores altamente sofisticados, como química fina, ciência dos materiais, engenharia genética e da microeletrônica (base da revolução da informação), as coisas ficaram muito menos simples, por causa da rapidez dos câmbios e o seu caráter crescentemente global. E como há quem se sinta desconfiado com essa idéia, vamos esclarecer que se trata aqui dos avanços da tecnologia, que pulam por cima das barreiras geográficas. Não há como impedir que a informação penetre em todas as partes, a não ser policiando um por um os que a recebem. Mas será que os governos não podem promover um "desenvolvimentismo" para a era da informação?
Bem, esta é uma questão para a qual a nova era da informação trouxe, desde meados dos anos 80, algumas desilusões. É uma longa história, que não cabe agora nesta coluna, mas que se resume no seguinte: apesar do alto nível cultural, científico-tecnológico e industrial dos países europeus, os seus enormes programas de desenvolvimento tecnológico não conseguiam manter a sua competitividade diante dos Estados Unidos e do Japão. Por quê? Porque, ao contrário do que se pensou por uns 40 anos, desde que Vannevar Bush, o famoso conselheiro científico de Roosevelt, formulou o seu paradigma linear, segundo o qual se partia da ciência abstrata para a pesquisa aplicada, desta para a tecnologia, para a engenharia, para a produção e, finalmente, para o mercado, só recentemente se compreendeu que o processo era muito mais complicado, cheio de interações com o mercado em todos os seus elos, e de feitos cruzados. Por isso, em vez de "tecnologia", começou-se a falar de "inovação", que é tudo aquilo que gera "valor agregado". E, no fundo, não é difícil de entender. O conhecimento é como uma vasta esfera, uma grande bola vista do lado de dentro. O volume aumenta muito mais do que o raio, o alcance do que se conhece. Há, quase sempre, muitas maneiras tecnicamente apropriadas de se fazer alguma coisa, de se produzir, digamos, álcool ou ferro-gusa. Entretanto, mesmo os mais jejunos em economia sabem que algumas dessas maneiras são menos "econômicas" do que outras. E o que significa isso? Simplesmente, que alguns ingredientes do processo, assim como os respectivos produtos, são mais "valorizados" do que outros o que, em última análise, é determinado pela escassez e pela intensidade das preferências (a conversa sobre o valor-trabalho fica para outra vez...).
Em que ficamos nós, em tudo isso? Defrontamo-nos com um mundo cada vez mais "globalizado". É uma expressão de que muita gente não gosta _ mas, cá entre nós, não dá para dizer: vou cair fora, disso eu não brinco. Todas as mudanças têm o seu lado penoso, ainda mais para aqueles que se sentiam bem na situação anterior. O desejo de segurança é inerente ao homem. Mas, plagiando de Hegel a idéia de que a liberdade é a consciência da necessidade, poderíamos dizer que a racionalidade é a consciência da realidade. Não adianta o Brasil procurar adiar, empurrando com a barriga. A inserção competitiva na sociedade da informação é o único caminho. Ainda mais, é preciso mudar a maneira de pensar: temos de começar a raciocinar como sociedade da informação. Gandhi sonhava com a economia de subsistência das aldeias "ashram". Levou um tiro, e hoje a Índia, paupérrima e superpovoada, exporta cérebros _entre eles, analistas e programadores_ porque se preocupou com a excelência da formação desse pessoal. O Brasil, espontaneamente, deu saltos, e alguns programas, como o Softex, mostraram que o governo pode interagir com a iniciativa privada de maneira altamente construtiva. A opção agora é acelerar. Ou então, a opção preferencial pela infopobreza...

Roberto Campos, 81, economista e diplomata, é deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro. Foi senador pelo PDS-MT e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). É autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994).

Compilado em 19/10/2001
Fonte: Buscas na Internet

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