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Os verdadeiros palestinos
Roberto Campos 
7/4/96

"Disse Mussolini: 'governar a Itália é fácil; é também inútil'. No Brasil é o contrário: governá-lo é difícil. Mas talvez valha a pena."
Do "Diário de um diplomata".

Dizia-me um amigo, judeu americano, que os brasileiros eram os verdadeiros palestinos deste continente: nunca perdiam a oportunidade de perder uma oportunidade. De fato, é impressionante nossa capacidade de fazê-lo. Discute-se agora, por exemplo, a abertura do petróleo a capitais estrangeiros. Tardiamente, porque já houve melhores oportunidades.

Em 1967, quando os árabes fecharam o Canal de Suez, politizando essa "commodity"; em 1969, quando Khadafi desapropriou empresas estrangeiras; em 1973, quando se instaurou a primeira crise de petróleo; em 1979, quando novamente explodiram os preços.

Hoje, multiplicam-se as fontes de abastecimento, com a abertura a capitais estrangeiros de jazidas no Leste Europeu (Rússia, Azerbaijão e Cazaquistão) e na Ásia (China, Vietnã, Malásia). Diminuiu-se a atratividade de investimentos no Brasil. E se, como parece, o projeto do governo para regulamentar a flexibilização mantiver os privilégios da Petrossauro, será magro o interesse de investidores estrangeiros. E o dinossauro, sem competidores, dificilmente mudará seu indecente comportamento de eximir-se do Imposto de Renda, pagando ao Tesouro dividendos minúsculos e aos Estados "royalties" inexpressivos, enquanto alimenta generosamente o fundo de pensão dos funcionários.

Em matéria de telecomunicações, também já perdemos as melhores oportunidades, que ocorreram dois a três anos atrás, quando países vizinhos conseguiram vender redes obsoletas por bons preços. Agora, sendo mandatória, por diretriz comunitária, a privatização até 1988 das estatais européias, os papéis da Telessauro e Embratel -notórias por seu atraso tecnológico e desrespeito ao usuário- terão que competir no mercado de privatização, com gigantes como a Deutsche Telekom ou a Stet italiana.

O governo FHC, com sua monumental incompetência em privatizações (pois privatizou menos que o estatolatra Itamar Franco), nos põe no pior dos mundos. Não investe adequadamente na telefonia básica cabeada e não pretende abri-la tão cedo a investidores privados. A única coisa que o governo está propondo é abrir ao setor privado a telefonia celular. Mas vem concentrando nela (e não na rede básica) o grosso de seus investimentos, com o visível propósito de "ocupar espaço", de modo a não deixar sobras para a iniciativa privada. E o que é pior, recorre lascivamente a empréstimos externos, com o que rapidamente reconstruiremos nossa dívida externa, penosamente renegociada após sucessivas moratórias. É urgente que o Conselho Monetário Nacional proíba novos endividamentos externos da Petrossauro e da Telessauro, que só fazem reforçar a resistência corporativista às privatizações. Preferir credores implacáveis a sócios complacentes é antiga tara brasileira...

Nossa perda de oportunidades não é apenas setorial. No período 1980-94, apesar de nossas famosas "riquezas naturais", tivemos um crescimento no PIB global de apenas uma fração do alcançado pelos desprivilegiados tigres asiáticos:

Crescimento do PIB real 
Entre 1980 e 1994
Brasil - 42%
Hong Kong - 160%
Malásia - 166%
Taiwan - 184%
Cingapura - 187%
Coréia do Sul - 197%

Se nesses quinze anos o Brasil houvesse mantido o ritmo de crescimento do período 1965-80, isto é, cerca de 9% ao ano, em vez de apenas 2%, teríamos hoje, em termos reais, um PIB da ordem de 1,5 trilhão de dólares. Com esse aumento de produtividade global, poderíamos ter salários médios reais três vezes maiores que os atuais e baixíssimos níveis de desemprego.

Dados do "World Economic Outlook" de 1995, do FMI, que abrangem um período um pouco mais longo (1976 a 1994), permitem distinguirmos claramente dois períodos. No primeiro -1977 a 1986- os países em desenvolvimento tiveram que absorver dois impactos, o da segunda crise de petróleo e o da crise da dívida externa. No outro, de 1987-1994, as economias socialistas (e consequentemente o dirigismo estatal) marchavam para o fracasso, enquanto o capitalismo avançava sustentadamente.

Na primeira fase, o Brasil, por não se ter ajustado competentemente à crise de petróleo e dívida, perdeu terreno para os asiáticos, crescendo apenas metade do ritmo destes. Também o Chile, a despeito de haver começado antes seu processo reformista, deu vários passos em falso e cresceu marginalmente menos que o Brasil. Na segunda fase, entretanto, o Brasil piorou dramaticamente, perdendo a corrida tanto para o Chile como para os asiáticos. É o que revelam os dados abaixo:

Crescimento
Do PIB real, em % 
-----------------------1977-86 / 1987-94
Brasil ---------------- 3,8 ------- 2,4 
Chile ----------------- 3,7 ------- 5,3
Hong Kong ------------- 8,3 ------- 6,2
Malásia --------------- 5,8 ------- 7,2
Taiwan ---------------- 8,4 ------- 7,3
Coréia do Sul --------- 7,8 ------- 8,3
Cingapura ------------- 6,8 ------- 9,0

Fonte: World Economic Outlook, FMI, 1995, Table A.5

Na segunda parte da década dos 80 e começo da atual, o Chile e os asiáticos começavam a liberalizar cada vez mais suas economias, deixando crescer o setor privado e priorizando exportações. O Brasil marchou na direção contrária, fechando sua economia e aumentando a intervenção governamental. É impressionante o elenco de maluquices antimercado: política de informática, planos heterodoxos -Cruzado, Bresser, Verão, Collor 1 e Collor 2- moratórias internacionais e Constituição de 1988! Esse contraste de experiências revela existir uma correlação positiva entre liberalização e crescimento; e negativa, entre dirigismo e crescimento!

Recente entrevista à Folha do professor Rudiger Dornbusch, que treinou vários de nossos "nouveaux economistes" (assim apelidados por Delfim Netto), gerou maior calefação que iluminação. Dornbusch é melhor analista, de merecida reputação internacional, do que conselheiro. Durante a crise da dívida externa, nos anos 80, chegou a encorajar uma moratória tácita dos subdesenvolvidos, subestimando as devastadoras consequências da cultura do calote...

Agora, criticando nossa equipe econômica, julga factível uma aceleração do crescimento real para 7% ao ano. Toleraria uma inflação na casa dos 20% e advoga uma indexação do câmbio para promover exportações. Ao mesmo tempo fala de coisas mais conservadoras como saneamento fiscal e privatizações. É uma salada mista com vitaminas visíveis e venenos ocultos. Como evitar, por exemplo, que a indexação do câmbio não se estenda a salários e preços? E se há saneamento fiscal e privatização, qual a necessidade de desvalorizar o câmbio?

O que há a criticar em nossa equipe econômica não é sua obsessão antiinflacionária. Nem o sucesso do Chile tem qualquer coisa a ver com um maior pragmatismo no combate à inflação. Tem mais a ver com seu fanatismo na desregulamentação e na privatização (principalmente a privatização da Previdência Social, que elevou a poupança chilena a se aproximar dos níveis asiáticos).

O que sim se deve criticar na equipe econômica é a falta de obsessão em lutar pela substituição de instrumentos inadequados -âncora cambial e restrição do crédito privado- por instrumentos menos recessivos. Esses seriam a privatização de estatais (hoje lenta), a desregulamentação (hoje nula) e as reformas estruturais. A proposta governamental da reforma administrativa é razoável, a da reforma previdenciária tímida, e a da reforma fiscal confusa e pouco inovadora.

Nem se pode descarregar a responsabilidade sobre o Congresso, pois a própria propositura das reformas foi lenta e inorgânica, não tendo FHC aproveitado a lua de mel dos cem dias pós-eleitorais. A regulamentação dos monopólios já flexibilizado pelo Congresso está emperrada. Persistem cacoetes dirigistas no governo. E FHC tem pela economia de mercado o entusiasmo de uma bailarina constrangida a dançar ao som do cantochão!

Compilado em 19/10/2001
Fonte: Buscas na Internet

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