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Pisando na bola...
Roberto Campos
26/7/98

Não é só jogador de futebol que pisa na bola. No começo deste ano, um zagueiro do selecionado dos economistas, Joseph E. Stiglitz, vice-presidente sênior do Banco Mundial, a quem se deve, entre outras coisas, a abertura do novo campo teórico da economia da informação, escorregou, e acabou fazendo exatamente isso. O resultado é que anda até agora se explicando, para não ser entendido errado. Em janeiro deste ano, numa aula magna na Universidade das Nações Unidas, em Helsinki, querendo resumir muita coisa e acentuar interpretações originais, complicou a jogada no meio do campo e deixou os dois lados atrapalhados.
Trata-se do debate, que ainda não terminou, sobre a receita econômica ortodoxamente liberal, conhecida como o "Consenso de Washington", versus várias concepções, de diferentes sabores intervencionistas, sobre como manter o mercado funcionando ao gosto do freguês (no caso, supostamente representado pela burocracia governamental). Em verdade, o que Stiglitz estava querendo fazer era defender o Banco Mundial e o FMI, acusados por alguns críticos de terem sido apanhados de surpresa pela crise asiática, e de, em seguida, tentarem impor um remédio errado, que, para acabar com a doença, podia acabar também com o doente. No caso, os remédios contra-indicados, segundo os críticos, seriam os do "Consenso de Washington". Esse é um nome não muito apropriado para uma posição convergente a que chegaram, em 1989, o Banco Mundial, o FMI e os Estados Unidos, diante da absoluta bagunça econômica dos países latino-americanos e alguns outros subdesenvolvidos. Não é preciso ir muito longe. Quem não se lembra da inflação brasileira subindo a mais de 80% ao mês, das reservas de mercado, da economia fechada, do populismo desenfreado soprando os déficits fiscais incontroláveis, do Estado obeso caindo pelas tabelas?
A dieta proposta era a única, até agora, de ação comprovadamente eficaz: emagrecimento do Estado, equilíbrio das contas públicas, liberdade para os investimentos nacionais e estrangeiros, esforço de competitividade, eliminação de privilégios e redução das munificências públicas a níveis que pudessem ser mantidos sem sacrificar a galinha dos ovos de ouro, que é o setor produtivo.
Mas é claro que não pode haver um único remédio para todas as doenças. O FMI estava acostumado à desordem macroeconômica e monetária dos países latino-americanos, e no primeiro momento ninguém estava preparado para a crise dos países asiáticos. Estes, de modo geral, tinham inflação baixa, poupança elevada, economias bastante competitivas, contas externas superavitárias. A louvação dos "tigres asiáticos" tinha virado música de fundo. E, como se fosse de propósito para agradar a todo o mundo, em alguns desses países (a Coréia do Sul, por exemplo), o Estado exercera um papel bastante intervencionista na liderança do desenvolvimento. Em circunstâncias distintas, fora esse também o caso do governo de Juscelino Kubitschek e, depois, do período do "milagre econômico brasileiro", da década de 60.
O que aconteceu nos países asiáticos foi uma desordem financeira geral, inicialmente provocada (como já apontei aqui, há alguns meses, em outro artigo) por uma crise bancária que, de fato, surpreendeu a todos, a começar pelas grandes instituições financeiras internacionais e privadas. Crise de gestão temerária, excessivamente imprudente, e, em boa parte, pouco competente. Má gestão dos ativos financeiros, insuficiente cobertura dos riscos nas carteiras de empréstimos, dificuldades gerenciais e, em alguns casos, corrupção e politicagem. Agora, é preciso olhar as coisas em perspectiva. Nos anos 90, o sistema financeiro internacional literalmente explodiu para além das possibilidades de controle das autoridades nacionais e nem mesmo a cooperação entre os bancos centrais teria bastado para deter esse processo. Até certo ponto, o mundo estava retornando à ampla liberdade de mercado que prevalecera antes da Primeira Guerra. Para complicar ainda mais o quadro asiático, o recém-derrotado governo japonês não quis reflacionar mais energicamente a sua economia, apesar da pressão das outras grandes potências econômicas, o que acentuou a crise recessiva na região, onde o Japão é o grande propulsor.
Ninguém estava contando com esse tipo de questões. O mundo financeiro desenvolveu, a partir dos anos 80, excessiva complacência em relação aos riscos e problemas gerenciais. Mesmo os mais experientes ocidentais se deixaram levar por ela, e não entenderam que as insuficiências da moldura regulatória em escala mundial poderiam ser tão contraproducentes quanto os excessos. É muito complicado, mesmo, e particularmente difícil de ser entendido no ambiente brasileiro, ainda eivado por vezes ideológicos em que tudo vira oito ou oitenta, quando, na realidade, a questão é ter mão no tempero.
Onde Stiglitz pisou na bola foi em dizer que não há evidência de que um pouco de inflação (menos de 40% ao ano) impeça o crescimento econômico. Mas quem leu o trabalho sabe que, de modo algum, recomenda inflação. Pelo contrário. Apenas fala que "as políticas propostas pelo 'Consenso de Washington' não são completas, e podem ser, às vezes, mal orientadas. Fazer os mercados trabalharem requer mais do que inflação baixa, requer regulamentação financeira sadia, políticas de concorrência, e políticas para facilitar a transferência de tecnologia e encorajar a transparência, para citar algumas questões básicas negligenciadas pelo 'Consenso de Washington'. Nossa compreensão dos instrumentos exigidos para promover o bom funcionamento dos mercados", diz Stiglitz, "também se aperfeiçoou, e aumentamos nossos objetivos de desenvolvimento para incluir outras metas tais como desenvolvimento sustentável, igualitário e democrático. Uma importante parte do desenvolvimento, hoje, é a procura de estratégias complementares para adiantar essas metas simultaneamente. Nessa procura, no entanto, não devemos ignorar as inevitáveis barganhas". Mas o fato é que Stiglitz pisou na bola, porque pensando em múltiplos objetivos paralelos, não falou nos outros efeitos deletérios da inflação (redistribuição contra os mais débeis, distorção dos preços relativos, perda de eficiência competitiva etc.).
No final da década de 80, a América Latina se havia tornado o símbolo da desordem econômica, do populismo mais grosso, do corporativismo mais safado, travestido de "nacionalismo" _ exatamente quando o mundo inteiro corria na direção oposta. Será preciso recordar a nossa contribuição à utopia social e ao irrealismo econômico na Constituição de 1988?
Era preciso tratar primeiro das primeiras coisas, inclusive restaurar um mínimo de ordem (que ainda não alcançamos, e depende da reforma do Estado, que pressupõe uma reforma política que, desde a República, não conseguimos fazer).
Os países asiáticos não padeciam dos mesmos males econômicos que nós, conquanto sofressem de outro tipo de déficit, o déficit democrático inerente ao autoritarismo confuciano. Não há mercado que substitua um mínimo de regulamentação e policiamento adequado, e a crise serviu para lembrar que nem tudo pode ser sombra e água fresca. Na gestão econômica do governo de Castello Branco (que me coube formular), tratamos de compensar os efeitos recessivos inevitáveis das medidas antiinflacionárias com a expansão de setores geradores de emprego (construção civil e agricultura) e de estimular a poupança (correção monetária ligada a prazo suficiente de aplicação). Isso iria além do "Consenso de Washington" sem ser com ele incompatível. Uma formulação melhor que o "Consenso de Washington" é a "grande síntese" que emergiu da análise do desenvolvimento de 60 países pelo Banco Mundial: a receita do desenvolvimento sustentado se baseia na estabilidade de preços, na preservação da concorrência na microeconomia, na concentração de recursos na educação básica e na tríplice abertura internacional para comércio, investimentos e tecnologia.

Roberto Campos, 81, economista e diplomata, é deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro. Foi senador pelo PDS-MT e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). É autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994).

Compilado em 19/10/2001
Fonte: Buscas na Internet

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