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A Submersão dos Emergentes Roberto Campos Folha de São Paulo

Socialismo, uma fábrica de sonhos
Roberto Campos
25/01/98

Quando Tony Blair venceu na Inglaterra com os trabalhistas, e Jospin ganhou as eleições francesas e virou primeiro-ministro, nossa canhota tupiniquim escancarou de alegria. Afinal, começavam a enrolar de volta o tapete neoliberal...

Blair, como bom inglês pragmático, não se deu por achado. Prosperidade e argumento, e os ingleses, querendo preservar o seu desempenho duramente reconquistado, não pensavam em mudanças de fundo. Mudou só o apresentador do programa. Tony, fazendo o novo genero "Thatcher light", foi roubando audiência da novela de John Major (que, como ator, não era lá essas coisas). Questão de videoclipes mais animados...

Já na França, com aquele seu ar professoral, Lionel Jospin deu a entender que ia poder voltar atrás da nova disciplina do mercado e até aumentar algumas das muitas vantagens oferecidas pelo estado do bem-estar social do país, dos mais paternalistas da Europa.

Os franceses estão acostumados a ver no governo a grande autoridade que diz quem tem direito a que. Nenhum povo teria passado a toa por Luiz 14 e Napoleão. E eles tem uma vasta e romântica tradição de bagunça de rua.

Foi assim que começaram a Revolução Francesa e a Comuna de Paris, que tanto impressionou Marx. Houve o "Chientlit" dos estudantes em 1968 e uma série de outros distúrbios maiores ou menores. Fechamentos de estradas e conclamação as armas e barricadas fazem parte da cultura francesa, como o futebol e o samba para nós.

E convém não esquecer que um populista de direita, Poujade, há algumas décadas, pós o governo contra a parede, iniciando um movimento de resistência civil contra o excesso de impostos (a Fiesp bem que poderia tê-lo contratado como consultor fiscal...). Mais recentemente, os funcionários públicos franceses ganharam a parada organizando uma operação-padrão eficientíssima.

Há hoje, na Europa, um problema difícil de tratar. O desemprego está muito alto, acima dos 10%, e os benefícios sociais, que mantém um alto nível de renda para esse pessoal (em alguns casos, o desemprego chega a ser até uma carreira), pesa demais sobre os que trabalham.

A situação é mesmo complicada, porque, evidentemente, o ideal de qualquer sociedade econômica e que todos tenham um bom padrão de consumo. Mas, para enfrentar a economia competitiva globalizada lá fora, é preciso que as pessoas produzam o necessário para cobrir o que querem ganhar.

A palavra produtividade não rima com emprego garantido, altos benefícios e corporativismo. O aperto está ficando sério, porque se acendeu um movimento de revolta dos desempregados, que haviam ficado embalados pelas promessas eleitorais implícitas dos social-democratas de Jospin.

E parece estar ocorrendo um simultâneo aumento da criminalidade, talvez em conseqüência do afrouxamento da disciplina cívica. Seja como for, o que se tem visto é ocupação de cixes sociais e bagunça de rua, "comme d'habitude", espalhando-se por dezenas de cidades e virando movimento de massa.

Primeiro, queriam uma bonificação anual de 3.000 francos, e mais aumentos dos benefícios. Mas são mais de 3 milhões de desempregados, quase outros tantos de ocupados temporários, e mais quase 2 milhões de jovens sem sustento próprio (mais de uma quarta parte dos menores de 25 anos).

Há pessoas que dependem da assistência social e outros em situação precária. A maioria não tem mais do que uns US$ 500 a US$ 1.000 mensais, e quase uma quarta parte não chega a US$ 500. Para os brasileiros, seriam cifras régias, mas, para os franceses, uma pitanca...

Conseguiram alguma coisa. Mas, na briga do mercado internacional, não há como conciliar com um regime dispendioso de estado-baba uma economia industrial, entalada no meio da União Européia, que precisa exportar. E o pior é que, apertado pela gritaria da turma, Jospin resolveu sair no ataque contra os adversários, acusando-os de, há 150 anos, terem ficado contra a libertação dos escravos, e, há 100 anos, contra Dreyfus, o oficial judeu injustamente acusado de espionagem. Pode-se imaginar o bafafa.

A oposição saiu do recinto parlamentar, não sem antes ter querido dar uns cascudinhos no primeiro-ministro. Se o "cidadão desempregado", como disse um jornal francês, for irremediável acontecerá. A França não ficará fora da União Européia, e nem sequer o Euro ficará abalado.

Mas, se o governo capitular, o que poderia custar cerca de US$ 5 milhões, não da para ver como a França conseguiria cumprir os seus compromissos o Jospin do "realismo socialista" vai ter de se ver agora com o problema que acaba por pegar de volta todos os populistas.

Despertar expectativas é fácil, preenchê-las pode ser impossível. Acabar com o desemprego, não há jeito. Num regime socialista, seria possível fazê-lo - a custa, porém, de uma redução muito maior dos padrões de consumo de todos e de uma mutilação das liberdades democráticas.

Isso foi experimentado na União Soviética, e quem provou não gostou. O movimento sindical vem tentando forçar uma redução da jornada de trabalho, de 39 para 35 horas, mantendo os mesmos níveis salariais. Se todos os países fizessem a mesma coisa, ainda podia passar.

Mas, no mundo tal como existe, seria apenas um enfraquecimento, talvez fatal, da indústria francesa. Aumentos do salário mínimo resultariam, como tem resultado, em estancamento das contratações e redução da atividade das pequenas empresas. E as concessões excessivas, que estão gerando uma legião de desempregados, atrapalham o preenchimento dos postos de trabalho mais modesto, por exemplo, no setor de serviços.

Retóricas declarações contra a "exclusão social" não levam a lugar algum. Os americanos falam pouco na "exclusão social" e "incluem" anualmente milhões em seu mercado de trabalho, nativos e imigrantes.

Todos os países tem problemas, alguns mais, outros menos. A Alemanha, por exemplo, não encontrou ainda solução definitiva para o seu problema previdenciário. Com o aumento da vida média, e os recorrentes custos do sistema, começa a ser preciso cortar benefícios. E isso ninguém quer, quando lhe diz respeito.

E, não faz muito, um dos seus mais poderosos movimentos de protesto estudantil desde 1968 foi para as ruas reclamar. Sabem do quê? Da insuficiente qualidade do ensino superior alemão, que estaria ficando atrás dos padrões americanos...

É possível que, futuramente, todos os países se ponham de acordo para definir níveis neutros de encargos sociais e outros gastos públicos. Por enquanto, porém, não dá para imaginá-lo. Jospin parece que adotou uma linha de aguentar sem se mexer no meio da confusão, para a qual ele contribuiu mais do que ninguém.

Há dois séculos, os revolucionários franceses experimentaram a guilhotina contra a inflação. Mas essa versão preliminar, um tanto tosca, do plano real não adiantou. Conhecemos as versões brasílicas dessa história de chamar a polícia contra o mercado e para pegar boi no pasto... 

As economias que adotam regras trabalhistas mais flexíveis estão, neste momento, entre as que menores taxas de desemprego apresentam. No final, e claro, o critério-limite e a produtividade, quer se goste, quer não. 

Não há mágica que faça o contrário. E isso vale para todos nós: capitalistas, socialistas ou quaisquer outros animais da fauna política...

Roberto Campos, 80, economista e diplomata, e deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro. Foi senador pelo PDS-MT e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). E autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994).

Compilado em 19/10/2001
Fonte: Buscas na Internet

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