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A Submersão dos Emergentes Roberto Campos Folha de São Paulo

Uma questão de valores
Roberto Campos
Veja, 2/9/98

"As novas revoluções, que resultaram de demandas espontâneas do mercado, prometem tornar mais suaves os ciclos econômicos, permitindo níveis altos de crescimento sustentado, sem inflação" 

"Não há nada tão bem-sucedido quanto o sucesso", diz o refrão. É o que aconteceu com os chamados "valores asiáticos". Durante uma década e meia os Tigres Asiáticos (seguidos depois pelo suleste da Ásia e China continental) bateram recordes de desempenho econômico, superando em muito outros países emergentes, quer na velocidade do crescimento, quer na cura da pobreza.

Isso parecia validar a tese de alguns líderes asiáticos sobre a superioridade dos "valores confucianos" - ênfase sobre o consenso e a solidariedade grupal, em contraste com o individualismo ocidental; propensão à poupança; respeito à autoridade; apego à família; culto da educação como meio de ascensão social. Esses valores tornariam respeitável o "autoritarismo confuciano" - comparativamente às anarco-democracias, cuja expressão máxima seria o individualismo da cultura americana.

Agora, com a longa recessão japonesa e a implosão financeira no suleste da Ásia, os "valores asiáticos" estão sendo avaliados pejorativamente. Será aliás legítimo falar-se em "valores asiáticos" numa região onde se misturam culturas tão diferentes como o budismo, o confucionismo e o islamismo? Alguns dos famosos valores parecem tornar-se negativos.

Um toque do consumismo americano, por exemplo, seria útil para curar a recessão japonesa, subproduto da poupança excessiva. O apego à família resultou num capitalismo de cupinchas, em que relações familiares deturpam a análise de risco. A busca do consenso levou a corruptas barganhas entre políticos e conglomerados. O respeito à autoridade diminuiu a capacidade de questionamento e inovação. 

O sistema educacional peca por se basear na memorização rotineira, antes que na excitação criativa. E dois defeitos esquecidos na prosperidade sobem à tona: o desregramento dos sistemas financeiros e o "déficit democrático", que dificulta a administração das mudanças.

Qual a explicação, então, para o sucesso asiático no encurtamento do prazo de duplicação do produto por habitante? A Inglaterra só conseguiu fazê-lo em 58 anos, os Estados Unidos em 47 anos, o Japão em 33 anos, enquanto na Indonésia bastaram dezessete anos, na Coréia onze anos e na China dez anos.

A explicação estaria menos nos "valores confucianos" do que em dois outros fatores: aplicação maciça de insumos (capital e mão-de-obra) e vantagem do capitalismo retardatário. Os subdesenvolvidos de hoje têm duas possibilidades de saltos temporários de produtividade: melhor uso das tecnologias existentes e absorção de novas tecnologias sem o custo da pesquisa. 

Nenhum dos países asiáticos, nem mesmo o Japão, atingiu criatividade na pesquisa básica, ou capacidade de inovação comparável à das democracias "liberais" do Ocidente. A revanche dos valores do individualismo criador começam a se revelar nas três revoluções tecnológicas em curso, em todas as quais os Estados Unidos têm vantagens, quer sobre o Japão, sociedade bastante dirigista, quer sobre a Europa ocidental, onde os social-democratas falam no "controle social do mercado".

Essas revoluções simultâneas são: a revolução informática, que, com a Internet, está criando novos mundos, como o "comércio virtual"; a revolução da biotecnologia, que produzirá plantas resistentes e mais nutritivas e tornará possível a clonagem de animais; e a revolução da miniaturização - a nanotecnologia -, que permitirá que simples chips exerçam a função de máquinas.

Já houve, sem dúvida, revoluções tecnológicas que não trouxeram desenvolvimento sustentado, como a energia nuclear e as excursões planetárias, provavelmente porque brotaram de iniciativas governamentais político-militares. Mas as novas revoluções, que resultaram de demandas espontâneas do mercado, prometem trazer uma "mudança de paradigma", tornando mais suaves os ciclos econômicos e permitindo níveis mais altos de crescimento sustentado, sem ressurreição da inflação.

Roberto Campos é embaixador e deputado federal

Compilado em 19/10/2001
Fonte: Buscas na Internet

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