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A Submersão dos Emergentes Roberto Campos Folha de São Paulo
Variações sobre o tema da crise
Roberto Campos
11/01/98
No século 16 e em boa parte do século 17, a religião era a tela sobre a qual se projetavam as grandes questões e conflitos da nossa civilização. No século 18 e começo do século 19 o foco se deslocou para o campo político (basta lembrar as revoluções americana e francesa, a democracia liberal e o socialismo).
A absorção exagerada com os problemas econômicos é um fenômeno da época presente. Mas não chegou a ser exclusivo. Que o digam as guerras, os totalitarismos, os talvez mais de 150 milhões de vítimas civis da violência ideológica, o terrorismo como instrumento de política, ou o ressurgimento de "fundamentalismos".
O homem moderno, na ambição de ser o dono do próprio destino, não raro mistura a tolice à tentação da arrogância. E a história do aprendiz de feiticeiro, que pode ser divertida no desenho da Disney, mas na prática custa caro.
A ciência levou a possibilidade da destruição total do gênero humano. A tecnologia, a industrialização e a urbanização (civilização vem de "cidade") trouxeram o perigo do envenenamento ambiental. E o desejo de estabelecer logo ali adiante o paraíso tem gerado remédios econômicos às vezes muito piores do que as doenças que pretendem curar.
Fazendo a contabilidade do ano que passou, há gente por ai culpando a "globalização" e o "modelo neoliberal" pelas atuais dores de cabeça econômicas. Estrabismo. Da metade do século 19 até pouco depois da Primeira Guerra, a economia mundial passou por intenso processo de globalização (que, aliás, o próprio Marx apontou, com a ciência ocidental dando padrões comuns de pensamento, e a tecnologia encurtando os transportes e as comunicações e multiplicando a capacidade produtiva. Mercado em escala mundial.
Aliás, desde o começo dos tempos, toda a civilização consistiu em "globalização": do comércio, das técnicas produtivas, da escrita, da imprensa e assim por diante, o termo "idiota" vem do grego para designar o sujeito que fica amarrado no seu cantinho. Etimologicamente, idiota é o "não-globalizado".
Crises de vez em quando não são, tampouco, novidade. Em parte são da própria natureza das coisas, em parte de causas externas. Até não faz muito, não se compreendiam os seus mecanismos, e ainda não sabemos exatamente o que as dispara, e quando, ondas especulativas, por exemplo.
Apenas aprendemos, por necessidade, a lidar melhor com alguns de seus efeitos. Até a grande depressão dos anos 30, os governos não tinham pretensões de intervir no funcionamento das economias, salvo emergências de guerra. Quando muito, algum ocasional, e malvisto, protecionismo. A experiência e a teoria indicavam que as crises acabavam por se autocorrigir.
Mas o mundo de depois da Primeira Guerra estava muito longe de ter voltado à "normalidade". Entrará em "desglobalização": acirramento das disputas internacionais, nacionalismos agressivos, reparações impraticáveis impostas a Alemanha, desmembramento da Áustria, dívida de guerra.
Surgiram reações generalizadas de descrença das autoridades e dos políticos. E a nova potência econômica que tinha subido ao centro do palco - os Estados Unidos - fugiram da raia, não participando da liga das nações.
Cercaram-se nos anos 30 de violentíssimas tarifas e, por fim, já em plena crise, em 1933, o presidente Roosevelt liquidaria a conferência econômica de Londres, a última grande chance de cooperação entre as nações.
Essa "desglobalização", em cima dos traumatismos da Primeira Guerra, foi fatal, porque nenhum governo, dentro da sua soberania territorial, tem como controlar as ações econômicas dos demais. E, se cada um procura empurrar os problemas para cima dos outros, todos apanham.
A grande depressão levou à beira do pânico. O desemprego, em países como os Estados Unidos e a Alemanha, ultrapassou 25% da força de trabalho. Houve falências, quedas da produção sem precedentes, um quase colapso do comércio internacional.
E os erros se acumularam. As autoridades resolveram reforçar a ortodoxia, praticando políticas monetárias e fiscais contracionistas - reduzindo os gastos públicos e a liquidez do sistema em plena ladeira recessiva – quando essa (como Keynes tornaria claro mais tarde) teria sido a receita para o oposto, isto é, a inflação.
A situação gerou grande confusão ideológica entre a necessidade concreta de se criarem "redes de segurança" de assistência e seguridade social (isto é, simples mecanismos de previdência e de proteção aos elementos mais indefesos da sociedade) e a utopia igualitária do discurso socialista.
Naquele tempo, a "social-democracia" (ao contrário de denotar como hoje um capitalismo envergonhado) implicava a idéia de "revolução", uma redistribuição de renda na marra...
Depois da Segunda Guerra, os europeus ocidentais, tendo visto as brutalidades que resultaram do "socialismo real", atenuaram seu intervencionismo igualitário, optando por economias de mercado e procurando, com a ajuda do Plano Marshall, "reglobalizar-se" aos poucos.
Mas não chegaram à agilidade da economia de mercado americana. As tradições corporativas eram fortes demais, e as lembranças do passado faziam dar mais peso à segurança do que a eficiência. Além disso, os genes keynesianos então dominantes levavam a acreditar que, com um bom gerenciamento macroeconômico, era possível, por "sintonia fina", manterem-se, sem inflação, ótimas taxas de emprego e de crescimento.
Não era. Quando os governos, por motivos eleitorais, não dão absoluta prioridade à estabilidade monetária, os sindicatos pressionam, os empresários cedem fácil, os políticos propoem mais vantagens para as suas clientelas, e a burocracia estatal abençoa tudo. Resultado: os efeitos inflacionários tendem a se acelerar e depois empacam a economia.
Cada intervenção, por melhores que sejam as intenções dos governos, atrapalha o mecanismo dos preços relativos, perturba as expectativas e confunde os agentes econômicos, com perda geral de eficiência. O auto-ajustamento do mercado pode não ser o remédio mais popular, mas costuma ser o mais seguro, se usado de forma sensata.
E sensatez quer dizer que, quanto mais globalizada a economia, maior a importância da cooperação internacional para amortecer os movimentos exagerados demais. Isso já vem acontecendo.
Funcionou na crise das bolsas, em 1987, que no primeiro momento pareceu mais feia que a de 29. Tem funcionado, discretamente, na série de crises bancárias e de inadimplência de países. Comparem-se as duas crises do México, a de 1982 e a de 1994. Aquela comprometeu o resto da década, esta se ajustou em dois anos.
Naturalmente, não há guarda-chuva internacional a prova de todas as besteiras que governos incompetentes ou irresponsáveis possam fazer. E é claro que se um país se fechar, como fez a Albânia no período comunista, pode evitar fatores econômicos externos. Só que à custa de virar Albânia. Coisa que nem a própria quis...
A globalização, como todas as mudanças, traz problemas e oportunidades. Mexer o menos possível, e deixar que as pessoas, por si mesmas, aprendam a explorar estas últimas e a lidar com aqueles, é mais seguro do que esperar que o governo se encarregue do show. Quanto mais cozinheiros meterem a colher torta na panela, maior o risco de desandar.
O mundo é exatamente o que gostaríamos que fosse, e nenhum governo detém o privilégio da sabedoria absoluta e da informação perfeita. Mas, felizmente, já não temos inflação descontrolada, nem moratória "soberana", ou reservas de mercado. Falta ainda limpar o resto do entulho, mas parece que já não estamos tão longe da maioridade.
Roberto Campos, 80, economista e diplomata, é deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro. Foi senador pelo PDS-MT e ministro do Planejamento (governo Castelo Branco). É autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994).
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