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CONCLUSÃO
Como sintetizar a contribuição da poesia de Carlos Drummond de Andrade à literatura brasileira? Poderíamos talvez partir de uma expressão do decano da crítica brasileira Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima). Num breve artigo seu, de 1967, Drummond é considerado como "uma espécie de Baudelaire da nossa poesia moderna". 156 Esta fórmula feliz exige desenvolvimento. Pois Baudelaire é, por um lado, o introdutor da sensibilidade moderna, isto é, da experiência existencial do homem da grande cidade e da sociedade de massa, na alta literatura lírica; 157 e, por outro lado, o fundador de uma escrita poética moderna, escrita de ruptura radical ao mesmo tempo com a tradição clássica e com o romantismo. 158
Na história da poesia brasileira, estas duas conquistas são obra de Drummond. Certamente, o autor de A rosa do povo e de Claro enigma não foi o iniciador do lirismo moderno no Brasil; sabe-se o quanto ele deve à revolução estética dos primeiros modernistas e ao tournant capital de 22. Seu papel foi antes o de realizar a promessa literária do modernismo de choque, criando uma poesia rica e substancial, purgada dos três defeitos maiores da literatura acadêmica de antes de 22: o servilismo em relação aos modelos europeus; a cegueira no tocante à realidade social concreta; a superficialidade intelectual.
Na verdade, a poesia acadêmica de então era bem afastada tanto do Brasil quanto de seu século. Assim, a primeira grande contribuição do verso drummondiano consistiu em apreender o sentido profundo da evolução social e cultural de seu país. A partir de sua própria situação de filho de fazendeiro emigrado para a grande cidade, justamente na época em que o Brasil começava sua metamorfose ( ainda em curso) de subcontinente agrário em sociedade urbano-industrial, Drummond dirigiu o olhar do lirismo para o significado humano do estilo existencial moderno. Desde então, tornou sua escrita extraordinariamente atenta aos dois fenômenos de base desta mesma evolução histórica: o sistema patriarcal e a sociedade de massa. Sua abertura de espírito, sua sensibilidade à questão social, sua consciência da história impediram-no de superestimar as formas tradicionais de existência e de dominação, mas, ao mesmo tempo, ele se serviu do "mundo de Itabira"- símbolo do universo patriarcal - para detectar, por contraste, os múltiplos rostos da alienação e da angústia do indivíduo moderno, esmagado por uma estrutura social cada vez menos à medida do homem.
Profundamente enraizada numa época de transição, a mensagem poética de Drummond se elevou dessa forma ao nível das significações universais. Nacional por sua linguagem e sua inspiração, sua obra nada tem de exótica; não é sequer "regionalista", se bem que se trate de um escritor que não pudesse ser mais obcecado por suas origens. Além de universal, a poesia drummondiana é também muito atual. Poucos líricos de nosso tempo terão mostrado tanta fidelidade aos movimentos essenciais do espírito moderno, a suas inquietações, suas desconfianças, suas perplexidades críticas, ou seu legítimo desapreço pelos clichês ideológicos e pelas filosofias abastardadas. Nesse sentido, o humor de Drummond - na aparência inclinado ao niilismo - não passa, no fundo, de uma estratégia intelectual radicalmente lúcida e liberadora.
O humor comanda efetivamente a analítica social dos livros tais como A rosa do povo, em que a causticidade velada de Alguma poesia atinge o máximo de amplitude cognoscitiva. É o que determina, por toda parte no verso drummondiano, suas afinidades decisivas com o ethos central da arte moderna: a recusa do patético, o espírito de paródia, a substituição de uma ótica trágica e idealizadora da vida por uma perspectiva grotesca. Posto ao serviço do arsenal expressivo de vanguarda, não ignorando a liberdade de ataque surrealista, o humor de Drummond elabora, num primeiro momento (1925-40), uma versão personalíssima de um gênero de elocução caro à poesia moderna desde Baudelaire: o "estilo mesclado" (Auerbach), resultante da fusão do tom problemático com as referências "vulgares".
No segundo período (1940-45), a escrita lírica de Drummond, chegada ao auge de sua mestria técnica, esboça uma separação entre o estilo mesclado e uma elocução re-"purificada". Duas outras grandes esferas temáticas se juntaram, sobretudo em A rosa do povo, ao lirismo de análise social e à poesia do eu (esta logo atraída por aquela): a-poesia-sobre-a-poesia (ou metalirismo), e a poesia existencial ou metafísica. Nenhuma suprimiu o humor ou a perspectiva grotesca; mas estas novas dimensões temáticas de alguma forma os interiorizaram, desenvolvendo esplendidamente suas potencialidades gnoseológicas.
Num terceiro momento evolutivo (1946-58), dominado por Claro enigma, o afastamento da escrita mesclada e a adoção dos módulos métricos regulares tomaram a forma de um "estilo mítico", no sentido de H. Broch: um estilo "abstrato" em relação às figurações realistas da cena social, concentrado nos dados genéricos da condição humana. É o apogeu do lirismo filosófico de Drummond, lirismo em que o moderno se classiciza, votando-se à pura reflexão existencial. É também uma das instâncias fundamentais da história do lirismo em português, pois a altura do pensamento drummondiano representa, como a de Pessoa em Portugal, uma autêntica revolução na literatura brasileira cheia de conseqüências para os poetas que sucederam ao modernismo e, em particular, para o mais importante dentre eles, João Cabral de Melo Neto.
Entretanto, num ou noutro gênero de elocução cujo excepcional vigor expressivo a análise estilística aqui esboçada pretendeu apenas indicar ( e cuja coexistência, com um leve recuo da hegemonia da musa filosófica, marca a última maneira do poeta), Drummond surge como um dos primeiríssimos poetas brasileiros, e o mais importante de sua época. Cantor da terra e da cidade, analista sutil da criação poética, moralista fascinado pelas paixões do homem e pela ordem do mundo, ele é, depois de Machado de Assis - com que divide tanto o humor desiludido quanto a atitude lúdica no tocante à forma e ao verbo - o principal exemplo, na literatura brasileira, da obra literária voltada à problematização da vida. Ora, a única função válida e legítima de um texto literário, pelo menos desde a Revolução Industrial, é justamente a problematização do real, distinta a um só tempo da edificação moral e do simples divertimento. Como todo grande poeta (e não sendo senão poeta e somente poeta), Carlos Drummond de Andrade é muito mais que um bom escritor. É um grande praticante da poesia como jogo do conhecimento 159 - e da sabedoria.
156 Tristão de Athayde: "O poeta brinca", in Meio século de presença literária, José Olympio, Rio, 1969, pp. 274-275.
157 Ver a esse respeito a interpretação fundamental de Walter Benjamin no ensaio citado à nota 40.
158 H. Friedrich, Estrutura de la lírica moderna, cit (ver nota 5), pp. 47-86.
159 A excelente expressão "poetry as a game of knowledge"pertence a W. H. Auden. Ver seu texto Squares and Oblongs ( 1948), citado segundo The Modern Tradition, antologia organizada por Richard Ellmann e Charles Feidelson Jr., Oxford University Press, 1965, pp. 209-214.
(Verso universo em Drummond, 1975)
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