Pensadores Brasileiros       

Artigos de José Osvaldo de Meira Penna

Período de 21/1/1998 a 15/10/2001
Total: 83 artigos
 

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Segunda-feira, 6 de agosto de 2001 

A crise de hipocondria 

Muitos observadores hão notado uma predisposição histórica, em nossa mentalidade coletiva: períodos de euforia se sucedem a crises de depressão, e vice-versa. Ao embalo de JK, momentaneamente interrompido, sucedeu-se o "ninguém segura este país!" Recaiu-se na austera e vil tristeza da transição do regime militar para as "diretas já" que nos trouxeram Collor e Itamar, que dose para cavalo! Traço curioso a ciclotimia corresponde a ondulações na economia: após o "milagre brasileiro" de 1967/75, a "década perdida" que nos trouxe a estatização galopante do Geisel, o "cheiro das cavalariças" do Figueiredo e a hiperinflação do Marimbondo de Fogo. Os alegres "caras-pintadas" da redemocratização minguaram no desastre constitucional de 1988. Com o início da Presidência FHC, retornou o otimismo que agora decai para a trigésima "maior crise que o País atravessa"! Toda sucessão naturalmente traumatiza o paciente esquizofrênico. 

Uma análise psiquiátrica seria aconselhável, mas poucos especialistas existem na matéria, que não é ensinada nas escolas de medicina, menos ainda nas de sociologia, mais atentas ao currículo da "luta de classes", "exploração burguesa" e "mais-valia". Embora desprovido de diploma, atrevo-me no vácuo evidente dos estudos psicossociais a sugerir um diagnóstico que demonstra a existência de duas correntes opostas, em rota de colisão. 

A primeira é reacionária, cindida entre "esquerda" petista e "direita" nacionalista, anseia pela mamãezada e sonha com o retorno do d. Sebastião carismático, "Pai dos Pobres" e "Cavaleiro da Esperança" que "vai salvar o Brasil", punir os maus, prender os corruptos, impor a justiça, a igualdade e a felicidade, chorando, gritando ou mesmo matando. Teme o desembarque de marines na Amazônia, clama contra a "entrega de 450 km2 do sagrado território nacional" em Alcântara e abomina o "imperialismo americano", único responsável pelo atraso desta nossa pátria amada, idolatrada, salve, salve! 

Nenhuma melhor descrição conheço dessa vertente histérica da nacionalidade do que este trecho famoso de Tocqueville em De la Démocratie en Amérique: 

"Sobre essa raça de homens impera um poder imenso e tutelar que se atribui a obrigação exclusiva de gratificá-la e presidir sobre seu destino. Esse poder é absoluto, minucioso, regular, providente e suave. Seria como uma autoridade de pai se, como essa autoridade, fosse seu propósito preparar os homens para a idade adulta; mas ele procura, ao contrário, mantê-los em perpétua infância. (...) Para sua felicidade tal governo trabalha com prazer, mas deseja ser o agente único e árbitro exclusivo dessa felicidade. 

(...) Assim cada dia torna menos útil e menos freqüente o exercício da livre capacidade do homem; circunscreve a vontade num âmbito cada vez mais estreito e gradualmente o priva de todos os usos que, de si mesmo, pode fazer." (II, IV,6). 

Em rota de colisão, dizia eu, corre aceleradamente uma outra tendência, otimista, fortificada no setor privado da economia (formal e informal) e já liberta da tutela do estatal. Para minha surpresa, descobri no Relatório 2001 do Banco Mundial sobre os "Indicadores do Desenvolvimento", segundo a "paridade do poder de compra" (Purchasing Power Parity), que, com um PIB de US$ 1,148 trilhão (quase US$7.000 per capita), equivalente ao da Itália, próximo da França e muito superior ao do Canadá (US$ 776 bilhões) e Rússia (US$ 930 bilhões), já seria o Brasil a sétima potência econômica do mundo - precedido apenas por EUA, China, Japão, Alemanha, França e Reino Unido. 

De onde concluo que o principal objetivo atual da diplomacia brasileira deveria ser o de reivindicar participação no Conselho das Potências Dirigentes do Mundo - o Grupo dos Oito, passando a ser o Grupo dos Nove. Meu receituário para a cura da pseudodoxia epidêmica que nos afeta neuroticamente: não ler o noticiário dos jornais e da tevê, que só tratam de crime e corrupção e descuram de apontar para a inépcia arrogante e suja da mamãezada estatal. Sursum Corda minha gente! No setor privado, o Brasil vai muito bem, obrigado. 

J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br

Compilado em 28/10/2001
Fonte: Vários sites na Internet

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