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Segunda-feira, 15 de maio de 2000
A imagem do país do futuro
As comemorações perturbadas dos 500 anos de nosso "Descobrimento" provocaram não apenas protestos e badernas de bandos de "idiotas latino-americanos" (a referência é ao "Manual" de Montaner, Mendoza e Vargas Llosa), mas reações curiosas na imprensa estrangeira. Estando em viagem aos EUA e à Europa, pude observar uma variedade de comentários sobre nosso país, alguns elogiosos e otimistas, uma grande parte repleta de dados falsos e críticas desairosas, sustentadas na desinformação preconcebida. Sobre esse último aspecto, desejo salientar que praticamente todos os dados negativos são emanados de fontes brasileiras. Não representam um juízo claramente desfavorável às origens, estrutura sociopolítica e perspectivas futuras da Nação, mas a repetição servil do fel que a própria glasnostálgica "esquerda festiva" derrama às catadupas por meio dos "midia", sobre o qual os estrangeiros naturalmente se baseiam, com paradoxal apoio de uma "direita" xenófoba e ressentida que a eles atribui uma inimizade congênita contra nosso país.
Entre as coberturas jornalísticas que li, contudo, uma das mais simpáticas é a de Axel Gyldén, em Le Point. O editorialista começa asseverando que, quase tanto quanto em abril de 1500, continua sendo o Brasil terra incógnita, um país mítico, ambivalente e perigoso. Bem certo me julgo quando principiei o estudo psicocultural de nosso povo, contido no recém-publicado Em Berço Esplêndido (Topbooks 1999), com uma análise dos "Três Mitos do Brasil" em tensão dialética (Visão do Paraíso, Inferno Verde e Eldorado), tese, antítese e utopia pseudofuturista.
Terra incógnita, aliás, não é só a nossa. Mais pronunciadamente partilhamos do conceito com que a antiga editora-chefe do Newsweek, Meg Greenfield, definiu a América do Sul: o "Continente Invisível". México, América Central e Caribe estão presentes na consciência dos norte-americanos por imperativos geopolíticos e imigratórios. Mas, para além do Canal do Panamá, o que domina realmente é o desconhecimento opaco. No que diz respeito ao Brasil, agrava-se a ignorância pela desproporção com a importância real de que, em termos econômicos e políticos, já gozamos no cenário internacional. Como acentuo, porém, neste caso a culpa é nossa. É realmente nossa. Temos uma entranhada vocação intelectual para o subdesenvolvimento, o culto do atraso e o autodebique - vocação que se manifesta pela tenebrosa insistência da intelligentsia botocuda e de grande parte de nossas autoridades em apresentar o País sob a pior luz possível. Se a imprensa internacional sugere, por exemplo, nossa responsabilidade pelo genocídio de 4 milhões ou 5 milhões de índios, a desinformação procede de nossos próprios antropólogos, inclusive de um do mais notáveis, Orlando Villas-Boas. Se ela publica que 66% das terras aráveis são de propriedade de 3% de latifundiários, a descarada mentira é oriunda da propaganda do MST e dos bispos da CNB do B.
De fato, em parte alguma tem sido salientado que o principal foco da agitação agrária não se localiza nas áreas feudais do Nordeste, mas justamente no Sul, flagelado pelo minifúndio de fonte familiar. Como mais da metade do território nacional ainda é terra devoluta, e o número de fazendas supera os 5 milhões, o único latifundiário é precisamente o Estado, controlado pela classe patrimonialista com assento num Congresso que se pretende democraticamente eleito.
Da antipropaganda empreendida pelas próprias autoridades tive um exemplo escandaloso ao visitar o pavilhão brasileiro na grande Feira de Basiléia. A imagem nele apresentada é miserável, grosseira, tendenciosa e racista às avessas. Quem são Sebastião Salgado, José Saramago e Chico Buarque, três recalcadas Viúvas da Praça Vermelha - um dos quais nem brasileiro é, e o terceiro festejado membro de nossa "Imbecilidade Coletiva" -, para corretamente testemunharem a realidade complexa desta terra incógnita? E quem foi o genial organizador de uma tal amostragem selecionada de nossas insuficiências e misérias?
J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de Brasília e-mail: meirapen@zaz.com.br
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